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Visão de mundo, parte II: a Guerra Fria na América Latina

Muito me incomoda o mito, que faz parte da visão de mundo de muitos brasileiros, de que os Estados Unidos são ricos por terem um povo mais inteligente, trabalhador e empreendedor, por serem uma nação bem governada; enquanto, por outro lado, os outros países das Américas são pobres por seus povos serem incompetentes e preguiçosos, além dos governos corruptos.

Se os EUA tivessem realmente conquistado esse status devido às suas qualidades como nação, eu não teria o que questionar. Acreditem, eu daria os parabéns, os admiraria e os defenderia. Porém, isso está longe de ser o caso. A história dos EUA e, principalmente, de sua relação com a América Latina, é PODRE. Desculpem-me, mas eu não tenho outra palavra pra descrever melhor.

Infelizmente, durante muito tempo só nos chegavam as informações que convém a “eles”, e isso prejudica nosso discernimento. Quando não havia internet, imagino que era mais difícil para o cidadão médio, especialmente do interior, ter acesso a outros meios de comunicação que não os oficiais. Então procuro não julgar essas pessoas.

Mas hoje a situação é um pouco melhor. Pelo menos há um meio de as pessoas compromissadas com a verdade divulgarem para todo o mundo o que não interessa aos poderosos que seja publicado. De enfatizar o que não interessa aos poderosos, de lembrar, de comparar, de revelar e esclarecer… a fim de nos ajudar a construir uma nova visão de mundo.

Por que não vai pra Cuba?

Esta é uma pergunta clássica que costuma ser feita por pessoas que não aceitam que sua visão de mundo centrada nos EUA seja questionada. Infelizmente, mesmo que uma pessoa ignorante desse tipo estivesse verdadeiramente disposta a ouvir contra-argumentação, eu ainda não consigo resumi-la em uma frase simples, de impacto.

Uma parte da resposta reside no fato de que quase toda a América Latina lutou por mudanças em seus países durante o século XX, mas foi duramente reprimida pelos estadunidenses — direta e indiretamente. É somente por causa dessa intromissão arrogante e desumana dos EUA que não existem mais países na América Latina além de Cuba para que nos sugiram: “por que não vai pra lá?”.

Documentário 1 — A Guerra Fria na América Latina

Ver o termo “guerra fria” sendo citado pode ter um efeito negativo no seu interesse sobre o documentário ou este artigo, afinal, parece algo tão distante… Mas não, não é tão distante assim. As implicações das lutas ocorridas na América Latina naquela época ainda refletem na geopolítica atual de nossos vizinhos. Os Estados Unidos ainda se beneficiam das atrocidades que cometeram, e os países latino-americanos ainda correm atrás do tempo perdido com as reformas que NÃO aconteceram, o assassinato de seus líderes, e com as décadas de ditaduras impostas com a ajuda dos “senhores da América”.

Assistir a este documentário de pouco mais de 40 minutos é essencial para entender a natureza dessas lutas. Um dos pontos altos de “A Guerra Fria na América Latina” é ouvirpessoas diretamente envolvidas nos acontecimentos. O próprio líder cubano Fidel Castro é ouvido. Há um agente da CIA e um da KGB falando no documentário (o que acaba não contribuindo muito, afinal são agências secretas, mas enfim…). Amigos, viúvas de líderes assassinados pelos Estados Unidos são ouvidos. Trechos vídeos de valor histórico inestimável. Na minha humilde opinião, é um documentário cujo conteúdo não pode ser desprezado. Pelo contrário, é material obrigatório.

Documentário A Guerra Fria na América Latina
Documentário A Guerra Fria na América Latina

A verdade é que os Estados Unidos usaram o fantasma soviético como desculpa para, declarando-se os “guardiões da liberdade” nas Américas, tirarem do poder líderes contrários aos seus interesses, mesmo que tivessem sido eleitos democraticamente; reprimirem todo tipo de revolta e rebelião popular, ainda que as reivindicações fossem justas; usarem de seu poder econômico a fim de dificultarem o governo indesejado; e, finalmente, colocarem no poder dos respectivos países um governante que estivesse sujeito aos seus interesses.

É certo que a fala de um ex-agente da KGB, dizendo que não havia interesse dos soviéticos na América Latina, não é lá muito digna de crédito. Mas ao analisarmos os resultados obtidos pela URSS sempre que esta se envolveu (Vietnã, Coreia), e compararmos com os obtidos na América Latina (nenhuma vitória, com exceção de Cuba e, até certo ponto, Nicarágua – que, esta sim, recebeu alguma ajuda segundo o agente) e os depoimentos de companheiros dos líderes depostos ou assassinados,… eu pelo menos acho bem provável que a URSS não tenha se envolvido.

A lista de intervenções:

Guatemala

Acho interessante como a mesma história se repete em diversos momentos da história, em diferentes partes do mundo. Sempre uma empresa gigantesca possuindo quase um país inteiro, extraindo mais e mais riqueza (afinal, quem tem dinheiro faz dinheiro), e para a população pouco resta além do básico para não morrerem de fome. Era esta a situação na Guatemala no início do século XX com a empresa United Fruit.

Em 1950, é eleito presidente da Guatemala o ex-militar Jacobo Arbenz. Ele não era propriamente comunista, mas iniciou algumas reformas em favor da população — e, coincidência ou não, o que favorece a população local prejudica os estadunidenses. Por exemplo, tentou efetuar uma reforma agrária no país comprando terras improdutivas para distribuir aos camponeses. O valor pago aos donos de terras seria o valor declarado nos impostos (nada mais justo, certo?). Pois a nossa querida United Fruit, que havia declarado US$ 1 milhão ao governo, exigiu 16 vezes mais. Os EUA não pouparam esforços para derrubar Arbenz, mas essa parte deixarei para o documentário.

Salvador Allende -- brutalmente assassinado pelos Estados Unidos em um 11 de setembro
Salvador Allende — brutalmente assassinado em um 11 de setembro

Chile

Outro exemplo de país onde setores-chave da economia estavam nas mãos estadunidenses e a população em geral vivia na pobreza, nos anos 70, os chilenos elegeram o marxista Salvador Allende. Comprometido com as melhorias sociais, entre outras medidas, Allende estatizou o cobre – que estava sob controle estadunidense -, desapropriou terras, colocou a economia do país sob um controle maior do Estado.

Para tentar conter as reformas, os EUA tentaram primeiro usar seu poder econômico: financiou uma greve de caminhoneiros que paralisou o país, com a finalidade de manipular a opinião pública. Allende busca ajuda na ONU e em Moscou, sem sucesso. Em uma segunda greve, a classe média entrou de vez no jogo como costuma fazer.

Logo, o governo chileno seria duramente reprimido. Você verá o que aconteceu a um camera-man que registrava os acontecimentos na capital. E o que aconteceu a Allende, refugiado em La Moneda. Conheça também o caso Victor Jara, nas mãos do ditador que subia ao poder, Augusto Pinochet.

Nicarágua

A história das relações entre Nicarágua e EUA sempre fora complicada. Ainda antes da Guerra Fria, os EUA já asseguravam seus interesses com mão de ferro no país latino-americano, por meio da família Somoza. O principal nome da oposição era o combatente camponês Augusto Cesar Sandino.

Em meados de 1980, o jornalista Pedro Chamorro fora assassinado a mando dos Somoza, devido a suas atividades de oposição. Esse fato causou grande revolta na população, que reagiu tanto nas ruas quanto nas urnas. A guerrilha da Frente Sandinista de Libertação Nacional fortaleceu-se, “batendo nas portas da capital pela primeira vez”. O líder sandinista Daniel Ortega venceu as eleições para presidente e realizou reformas sociais radicais. Os Somoza não foram perdoados: “as terras foram divididas, e os monopólios, confiscados”. Infelizmente, os sandinistas cometeram alguns excessos contra a própria população, o que dividiu os camponeses do país.

A Guerra Fria na América Latina -- mais e mais assassinatos
A Guerra Fria na América Latina — mais e mais assassinatos

El Salvador

Se em outros casos, como na Guatemala, a Igreja Católica esteve ao lado dos ricos, do conservadorismo e do imperialismo estadunidense, em El Salvador o arcebispo Oscar Romero era a principal liderança a frente das reivindicações populares. Fora assassinado durante uma missa. O que se seguiu foi um grande show de horrores do exército salvadorenho contra seu próprio povo. Eu prefiro que vocês acompanhem esse trecho no documentário.

Documentário “A Guerra Fria na América Latina”
dublado em Português do Brasil — formato MP4,  336,8 MB

Para reflexão, separo a seguinte frase do trecho final:

“Os Estados Unidos consideravam uma ameaça a seus interesses porque acharam que era uma luta de comunistas. Não nos viam como cidadãos que queriam um país democrático com justiça social e oportunidades para a maioria.”

Ana Guadalupe Martinez – líder de guerrilha de El Salvador

(na minha opinião, eles viam sim. Mas isso fazia pouca diferença. E você, o que acha?)

Documentário 2 – “Os Assassinos Econômicos” (economic hitman)

Para esta seção do artigo, tomo como base a segunda parte do segundo documentário Zeitgeist, ou Zeitgeist Addendum.

Com o tempo, os Estados Unidos desenvolveram ainda uma nova forma, muito sutil e eficiente, de combater políticas em outros países que não estavam de acordo com seus interesses: o assassino econômico. Essa estratégia consistia em enviar ao país em questão uma ou mais pessoas treinadas para corromper o líder daquele país, oferecendo todo o tipo de suborno, em troca de uma administração negligente, que possibilitasse a sua exploração econômica pelos estadunidenses.

Essa negligência consistia, por exemplo, em vender aos EUA seus recursos naturais mais valiosos a preços abaixo do normal, ou conceder vantagens a empresas estadunidenses interessadas nesses recursos; ou entregar o país a dívidas com o Banco Mundial ou FMI (soa familiar?), para que, por meio dos juros, esse país ficasse refém dos interesses estadunidenses. Isso só pra citar os exemplos que eu lembro. Se o líder em questão fosse incorruptível, então…

O documentário contará sobre o caso do Irã, que foi onde a ideia surgiu, e da Guatemala. Então prossegue com dois casos que me fizeram refletir muito, e para que você entenda melhor a minha reflexão, farei um parêntese.

Líderes honestos: você os merece?

Uma coisa eu admito: alguns líderes e personalidades históricas, bem como alguns eventos, são romantizados e idolatrados além da realidade. Porém, existe uma moda muito estúpida atualmente de tentar deturpar a imagem dessas pessoas também além da realidade. Não que os fatos negativos da vida de Gandhi e Che Guevara não sejam verdadeiros, mas a questão é que todo mundo erra, ninguém é perfeito, e está muito mais sujeito a grandes erros aqueles que carregam grandes causas nas costas e realizam grandes feitos na História. Logo, é desonesto e irreal exigir que esses grandes humanos sejam perfeitos, e tentar igualar seus pequenos deslizes as suas grandes obras.

Agora, se ainda assim algumas pessoas não acreditam de maneira nenhuma que um líder possa ser honesto, então eu tenho duas histórias para contar sobre pessoas que deram suas vidas pelos seus povos, e pergunto: se um líder realmente honesto morrer defendendo melhores condições de vida para você, será que SUA conduta está fazendo por merecer tamanho sacrifício?

Jaime Roldós, Presidente do Equador
Jaime Roldós, Presidente do Equador

Equador

No início dos anos 80, após uma sucessão de governantes linha-dura e submissos aos estadunidenses, Jaime Roldós se candidatou garantindo que, em seu governo, os recursos naturais do Equador seriam usados em benefício da população do Equador (a redundância é proposital). Ele venceu as eleições com uma margem de votos jamais vista no país.

Durante seu governo, Roldós cumpriu sua palavra, implementando políticas onde os lucros do petróleo eram realmente utilizados para melhorar a vida do povo, em vez das empresas estadunidenses. Não demorou muito para que John Perkins e outros assassinos econômicos fossem enviados para tentar corromper o líder equatoriano.

Ele não se deixou corromper pelas propostas de suborno. Faleceu logo depois, em um “acidente” de avião.

Eu sempre imaginava que algo aconteceria com Jaime, (…)
porque ele não era corrupto, ele não se deixava corromper, como queríamos.

John Perkins, ex-assassino econômico

Panamá

Na mesma época, 1981, Omar Torrijos assumiu a presidência do Panamá. Ao tentarem corrompê-lo, ele dizia:

Eu não preciso do dinheiro, o que eu preciso de verdade é que meu país seja tratado com justiça. (…)
Preciso que o Canal do Panamá esteja de volta nas mãos do povo. (…)
Me deixem em paz, parem de tentar me subornar

Torrijos soube da morte de Jaime Roldós e logo percebeu do que se tratava. Disse a sua família:

Provavelmente eu sou o próximo, mas está tudo bem, porque eu fiz o que vim fazer.

Foi sob a presidência de Omar Torrijos que o Canal do Panamá havia sido renegociado, para que voltasse a pertencer ao país.

Morreu em um “acidente” aéreo, em junho de 1981

Documentário “Zeitgeist Addendum — Cap. 2: Assassinos Econômicos”
legenda (embutida) em Português do Brasil — formato AVI,  74,9 MB

Estados Unidos, uma ave carniceira na história da América Latina
Estados Unidos, uma ave carniceira na história da América Latina

Conclusão

Como podem ver, os Estados Unidos tiveram papel fundamental na manutenção e aprofundamento de todos os problemas por que passaram e passam os países latino-americanos, impedindo que governos comprometidos com a melhoria das condições de vida de seus respectivos povos governassem, e explorando-os por meio de ditadores-fantoche, subservientes a seus interesses em detrimento do povo. Então, da próxima vez que você ver alguém idolatrando a bandeira desta verdadeira desgraça da humanidade, lembre-se deste artigo.

Um minuto de silêncio para aqueles que morreram pela liberdade de seus países, pela melhoria das condições de vida de seus compatriotas,

E a ti, um abraço deste ser pensante…

5 comments
BrunoFerreira6
BrunoFerreira6

Muito bom o material, mas inclui ai também o Brasil e o documentário O Dia que durou 21 anos 

UmSerPensante
UmSerPensante moderator

Olá @BrunoFerreira6,

A primeira parte dessa série é sobre o Brasil:
http://umserpensante.eu.org/estados-unidos-capitalismo-e-rede-globo-quem-faz-sua-visao-de-mundo/

O documentário que você citou eu ainda estou assistindo :) Nesse artigo eu foco mais na questão da mídia, com o "Muito Além do Cidadão Kane".. é provável que na sequência eu volte a essa época e me aprofunde na ditadura, e o documentário que você me indicou me parece uma boa pedida mesmo.

Obrigado pelo comentário, um abraço! :)

RitaCandeu
RitaCandeu

@UmSerPensante @BrunoFerreira6pois então
seria bom no final dessa postagem vc. colocar as referências doa outras postagens anteriores
e fazer o mesmo nessas outras - deixar tudo amarradinho

isso além de ser muito bom
é necessários que todos tomem conhecimento