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Atentado em Paris, tragédia em Mariana, Islamismo — brasileiro capacho do 1º mundo

Tragédia humana e ambiental, de Mariana ao oceano Atlântico
Tragédia humana e ambiental, de Mariana ao oceano Atlântico

Por que o brasileiro só se importa com o “primeiro mundo”?

Escrevo este artigo para questionar o comportamento seletivo e ignorante do brasileiro, quando se trata de se importar com as tragédias pelo mundo — incluindo o próprio Brasil. O fato de estarem ocorrendo, simultaneamente, duas tragédias — a do rio Doce, que começa em Mariana/MG e termina no oceano Atlântico; e os atentados terroristas em Paris, França — serve de exemplo para a análise que vou fazer.

Para desfazer mal entendidos, vamos pensar juntos, passo a passo:

Todo atentado a uma vida inocente é uma tragédia
Todo atentado a uma vida inocente é uma tragédia – atentado na Tunísia

Todo atentado a uma vida inocente é uma tragédia

Poderíamos debater se “vida inocente” inclui assassinos, estupradores, terroristas, militares em guerra ou traficantes. Mas vamos simplificar. Para o propósito deste artigo, é suficiente que você concorde comigo: a vida de uma criança comum jogando futebol em um campo de terra, de um trabalhador bebendo uma cerveja com os amigos depois do expediente, de um estudante na sala de aula preocupado com a próxima prova, de um bombeiro se arriscando no meio de um incêndio para salvar vidas, são vidas inocentes.

Assim, não interessa se o campo de terra fica numa chácara no interior do Brasil, na faixa de Gaza ou mesmo que seja uma quadra fechada de soccer nos EUA. Também não interessa se a cerveja está sendo bebida num bar do México, num “pub” da Inglaterra ou restaurante em Angola. Não importa se se trata de um estudante de mestrado na França, de ensino fundamental no Brasil ou de uma universidade no Quênia. Também não faz diferença se o bombeiro estava no World Trace Center, na estação ferroviária central da Turquia ou em um hotel das Filipinas.

A única coisa que importa é a vida: todo atentado a uma vida inocente é uma tragédia.

O que é terrorismo?

Embora todo mundo tenha uma idéia do que seja terrorismo, não é fácil — nem mesmo para o Google ou a Wikipédia — estabelecer uma definição única para o termo; muito menos uma que seja válida no mundo todo. Mas isso não impede que nós, seres pensantes que somos, reflitamos sobre o tema.

Pode-se extrair da própria palavra que o terrorismo é caracterizado pelo uso do medo. Um terrorista literalmente “aterroriza” as suas vítimas, criando um clima de terror para obter alguma vantagem do desespero.

Um exemplo que ilustra bem o terrorismo é o seqüestro; geralmente, não basta capturar uma vítima: a fim de obter o resgate, o seqüestrador liga, ameaça, manda gravações, até mesmo envia partes do corpo do seqüestrado; visando amedrontar a vítima, sua família e seus amigos e, a partir deste medo, obter o dinheiro do resgate.

Polícia, o medo institucionalizado
Terrorismo é medo. E a polícia, o medo institucionalizado – greve de professores no Paraná

Terrorismo: caras, formas e motivações

Embora, ao ouvir a palavra “terrorista”, a primeira imagem que venha na cabeça de um brasileiro é a de um grupo de pessoas usando “keffiyeh”, o terrorismo tem várias caras, formas e motivações. Como exemplificado, pode ser um único seqüestrador brasileiro amedrontando uma família; pode ser um bando de policiais truculentos, cercando e ameaçando professores em greve (fonte 1, fonte 2); pode ser um ditador financiado pelos EUA, amedrontando um país latino-americano ou árabe; também pode ser um ditador pseudo-comunista que aterroriza e manda matar gente de seu próprio povo. Pode ainda ser uma mídia corrupta mentindo a cerca da economia, a fim de causar pânico na população; também pode ser um grupo paramilitar árabe usando homens-bomba para atingir países do primeiro mundo, ou um grupo paramilitar católico usando o terror para reivindicar território a um governo protestante (estou falando do IRA). Ou, ainda, um bando de pessoas sem esperança nenhuma, cativos em sua própria terra, abandonados por todos os países do mundo, cansados de serem massacrados por um governo e seu Exército regular, lutando por sua sobrevivência pelos meios que têm em mãos

Pinochet e Stalin: um, marionete, o outro, não; mas ambos, ditadores terroristas
Pinochet e Stálin: um, marionete; o outro, não; mas ambos ditadores terroristas

(estou falando do “apartheid”).

Em resumo:

  • o terrorismo tem várias caras: uma pessoa, um grupo, uma empresa, um ditador (marionete de outro país, ou não);
  • o terrorismo tem várias formas: telefonemas e uma orelha numa caixa de papelão; cacetetes, uniformes e escudos; ditadura; manipulação em forma de informação oficial; e a forma mais covarde de terrorismo: o assassinato aleatório de vidas inocentes;
  • o terrorismo tem várias motivações: dinheiro; “a Lei e a Ordem”; petróleo; poder político; religião; território; ou o mais legítimo desespero.

Terroristas islâmicos – generalização

É certo que, dos grupos terroristas em atividade nos últimos anos, boa parte se proclama seguidora do Islã. Talvez realmente obedeçam a alguma interpretação radical do Alcorão. Mas o que me preocupa é que, diante disso, lá vem o brasileiro generalizar e dizer “tem que acabar com esses muçulmanos!”. Alguns porque seu parco raciocínio é incapaz de refletir sobre informações superficiais, ou mesmo pela emoção com que a mídia cobre atentados terroristas no 1º mundo. Outros porque são ignorantes e mesquinhos mesmo, e não dão a mínima para o fato de o islamismo é a segunda religião mais praticada no mundo, com 1 bilhão e meio de seguidores (mais ou menos).

O Estado Islâmico, maior organização terrorista da atualidade, reivindica um número de 200 mil pessoas sob seu comando — embora fontes ocidentais contem entre 10 a 20 mil. Supondo que o EI não esteja mentindo (o que é bem pouco provável, entre outras porque a mentira faz parte do clima de terror), e que outras organizações terroristas islâmicas menores pelo mundo somem mais 300 mil, teremos 500 mil muçulmanos terroristas. Vamos ver: 1 bilhão para 500 mil dá uma proporção de 1 terrorista para cada 2000 muçulmanos. Portanto, exterminar os muçulmanos por causa de radicais terroristas seria como mandar para a cadeira elétrica o seu bairro inteiro por causa de um estuprador que de repente more por lá.

Duas notícias para reflexão sobre como é complicado generalizar:

Al-Khowarismi, muçulmano pai da álgebra e criador dos algarismos indo-arábicos
Al-Khwarizmi, muçulmano pai da álgebra e criador dos algarismos indo-arábicos

Um pouco mais sobre o islamismo

Que o islamismo foi fundado em 622 pelo profeta Maomé, e essa conversa toda, todo mundo sabe. O que as pessoas talvez não lembrem é que o Império Otomano, o verdadeiro auge do Islã, foi um dos maiores e mais modernos impérios da História. Este império chegou a se estender desde a Espanha até a Índia, tornando-se uma grande rede de negócios e troca de conhecimentos. Engenheiros, matemáticos, pensadores, filósofos de meio mundo se reuniam em Meca e Bagdá para expôr problemas em suas regiões, e levar de volta soluções trazidas por outros sábios, de outras regiões do império.

Os “números” de 0 a 9 que usamos hoje não se chamam “algarismos indo-arábicos” à toa. Abū Muhammad al-Khwārizmī (sobrenome de onde surgiu a palavra “algarismo”) foi um grande matemático otomano, responsável — entre muitas coisas — pela idealização destes algarismos, que incluem uma representação para o “zero” — ao contrário dos números romanos. O senhor Algarismo também é o pai da álgebra (do árabe “al-jabr”).

Embora a palavra “alfarrábio” não tenha um significado tão valoroso, vale a pena pesquisar sobre a vida de Abu Nasr alFarabi, um sábio do estilo mais clássico, que se dedicou a várias ciências, da metafísica à medicina.

Enfim, longe de ser um mar de intolerância e ignorância, ciência e conhecimento era o que não faltava ao grande império islâmico. Eles se dedicaram a traduzir, estudar e desenvolver todo o conhecimento da civilização grega, espalharam-no da Espanha à Índia, e plantaram as sementes do Renascimento europeu.

Também vale a pena estudar a história do líder Salah al-Din, conhecido no ocidente como Saladino :-) : um comandante militar histórico cuja força era tão comparável aos comandantes europeus que Ricardo Coração de Leão, com a ajuda dos francos, conseguiu arrancar de Saladino apenas algumas vitórias — e derrotas — e, no final das contas, apenas um acordo para acesso de cristãos a Jerusalém (fonte; e confira também no documentário ao final deste artigo). Claro, deve ter lá seus podres como os tem Alexandre O Grande ou Napoleão, mas não foi mais cruel que qualquer outro líder por ser muçulmano.

Ainda, sugiro a pesquisa sobre duas grandes personalidades muçulmanas da história recente: Muhammad Ali e Malcolm X.

Comportamentos radicais inaceitáveis: exclusividade do Islã?

Além de guerras e terrorismo motivado pela religião, na mídia e na internet volta e meia surgem casos de mulheres condenadas à morte por apedrejamento e violências semelhantes contra a mulher. Bom, apesar de eu não gostar dessa revista, dessa vez terei de me render: o apedrejamento divide o Islã.

Ao que me parece, após um pouco de pesquisa, alguns vídeos, documentários e reflexão, esses comportamentos radicais inaceitáveis não são propriamente preceitos do Islã, e sim costumes regionais anteriores ao surgimento do Islamismo (a Bíblia, muito mais antiga que o Alcorão, não deixa mentir) e que, por estarem muito arraigadas na cultura do Oriente Médio, acabaram contaminando a religião mais praticada naquela região desde o século VIII. Eis uma palestra da respeitada iniciativa TED sobre este assunto:

Também é importante lembrar que o Islamismo, assim como o Cristianismo, tem muitas interpretações e vertentes. O Marrocos não é igual à Arábia Saudita, que não é igual à Jordânia, Turquia ou Líbano, e assim por diante. Até mesmo Cisjordânia e Gaza têm diferenças entre si. Generalizar é burrice.

E afinal, o que é que o brasileiro quer falar dos árabes? Se eles “matam por religião”, nós matamos por futebol, por cachaça, por herança (1, 2), por política, por ganância (caso da barragem do rio Doce, por exemplo), por bocas de fumo, e também somos violentos contra a mulher. Essas são nossas religiões, esses são nossos assassinos radicais. Devemos exterminar também os brasileiros “cristãos”?

Woroud Sawalha palestina classificada para as olimpíadas de Londres
Woroud Sawalha, palestina classificada para as olimpíadas de Londres

Afinal, o cristianismo (dividido em católicos, protestantes e outras denominações) é a religião mais praticada no Brasil (cat. + ev. = 86,8%, segundo o IBGE).

Uma notícia interessante sobre brasileiros e árabes: Jornalista da Globo ofende a rainha da Jordânia e causa saia justa diplomática

Rainha Rania, simbolo da liberdade no país árabe da Jordânia
Rainha Rania, simbolo da liberdade no país árabe da Jordânia

Terrorismo motivado por religião também não é exclusividade dos muçulmanos. Basta lembrar do Exército Republicano Irlandês, IRA, um dos movimentos terroristas mais conhecidos da história, e que lutava por uma Irlanda do Norte católica e independente do Reino Unido protestante. Em 2011, a Noruega foi vítima de um terrorista cristão de extrema-direita.

Barragem da Vale: tragédia humana e ambiental, de Mariana ao oceano Atlântico. Vale a sua comoção?
Barragem da Vale: tragédia humana e ambiental, de Mariana ao oceano Atlântico. Vale a sua comoção?

Conclusões

Passando a limpo:

  • muitos grupos terroristas atualmente são islâmicos; mas:
    • nem todo muçulmano é terrorista: é ridículo condenar 1 bilhão e meio de muçulmanos por causa de, no máximo, 500 mil infelizes atraídos por líderes gananciosos (o que também não é exclusividade do Islã);
    • também existiram e existem grupos terroristas cristãos (exemplo mais notório: IRA);
    • também existe terrorismo não relacionado à religião;
    • qualquer marido bêbado que bate na esposa é tão terrorista quanto o mais radical dos terroristas islâmicos; e desse tipo de canalha tem de monte no Brasil;
  • todo atentado contra uma vida inocente é uma tragédia;
    • não interessa se é no Brasil, na França ou na Palestina;
    • não interessa se foi cometido por um motorista bêbado irresponsável, um traficante, uma empresa multinacional, um exército, uma torcida de futebol ou um grupo de fundamentalistas islâmicos;
    • não interessa se foi cometido por irresponsabilidade, machismo, ganância, religião, ou pura estupidez;
  • porém, o brasileiro (em geral) se comove tanto com tragédias no primeiro mundo; enquanto não dá a mínima quando são esses países que matam em países mais pobres, ou ainda com tudo o que acontece aqui mesmo no Brasil;
    • sempre existe uma desculpa para justificar as atrocidades cometidas por países ocidentais, até mesmo a cruel e desumana “quem pode mais, chora menos” (que, pelo jeito, também só se aplica quando quem chora é um país rico). Coisa de brasileiro capacho do 1º mundo!
  • e, absolutamente, não estou dizendo que as tragédias que ocorrem nos países ricos não devam nos comover. Só acho que as que ocorrem em outros lugares deveriam mexer conosco da mesma forma!

Eis o meu desabafo.

E, para quem tiver curiosidade, eis a primeira parte de um excelente documentário sobre a história do “Islã, Império da Fé” (para ver as outras partes, use a lista de sugestões do YouTube):

Abraço,
“um ser pensante”.