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Contra a Medusa neoliberal, quem será nosso Perseu?

Na luta contra a Medusa neoliberal, quem será nosso Perseu?
Na luta contra a Medusa neoliberal, quem será nosso Perseu?

Esse texto foi escrito por Josephina Carneiro (link para perfil do Facebook), e publico aqui pois foi-me muito esclarecedor.

Quando algumas pessoas evocam a ditadura militar como solução para o lixo (BBB, funk, sertanejo universitário) que atrofia a cultura nacional, eu me perguntava por que a ditadura censurava Chico Buarque e Raul Seixas mas as pornochanchadas afloravam e rolavam totalmente soltas.

Também sempre me perguntei de onde sai tanta argumentação a favor da passividade, “não adianta lutar”, “nada vai mudar”, “as coisas são assim mesmo”, “não vai dar certo”. Como incutiram na cabeça das pessoas essa certeza preguiçosa, às vezes arrogante, de prever não só o futuro simples, mas até mesmo o futuro do pretérito (“e se tivesse acontecido x, terminaria em y da mesma forma”)?

E ainda, como pode tanta sujeira, tanta podridão por baixo dos fatos históricos só ter aparecido agora na era da Internet? Como pode uma mídia tão descaradamente parcial poder ter se formado debaixo dos nossos narizes?

Se você também se pergunta isso… talvez encontre agora algumas respostas.

Quem será nosso Perseu?

A idéia de Educação Nacional surgiu no século XVIII, após a Revolução Francesa e a criação dos estados-nação na Europa. Partia do pressuposto que o espaço público democrático era recheado por indivíduos informados acerca do que se passava no mundo e capazes de reflexão crítica e participação ativa nas discussões políticas. Era a educação — não que tenha sido bem realizada — responsável por formar cidadãos, habilitá-los a tomar parte nos debates políticos e a pensar nas questões políticas para além dos seus próprios interesses, numa perspectiva do bem comum, do interesse coletivo.

Porém, o liberalismo proposto por Adam Smith, sobretudo para combater os abusos e interferências do sistema feudal, foi se transformando num monstro tal qual as irmãs Górgonas. Nessas transformações ligadas ao que denominou-se chamar de neoliberalismo dos últimos 30 anos, as instituições dominantes viram que era importante apropriarem-se da educação e cultura. Muito mais do que isso, apossar-se das mentes das crianças e jovens.

No Brasil, o primeiro golpe sem dúvida foi na ditadura de 1964. Costumo dizer que foi o golpe dentro do golpe: a educação foi duramente castigada visando a alienação das mentes dos indivíduos, através da Educação Tecnicista. O Brasil dormia enquanto se fazia a festa com o desmonte do sistema da educação pública desde o seu conteúdo até o demérito do professorado. A rede do ensino privado sorria satisfeita com as novas diretrizes escusas cuja finalidade era a de favorecer e sobretudo enriquecer o setor privado da educação.

Rede Gloebbels
Rede Gloebbels – mídia e propaganda neoliberal

Caminhando lado a lado, nossa cultura era contagiada pela mesma epidemia. O lixo cultural entranhou-se maciçamente pelos meios de comunicação, deixando-nos um vazio de profunda nostalgia. Os tempos de Mário de Andrade, Oswald de Andrade, Villa Lobos ficaram no esquecimento. Sem dúvida, a mídia mancomunada com o regime ditatorial, verdadeiros pusilânimes, justificavam as atrocidades, denegrindo os intelectuais da cultura, educação etc. com o estigma de “comunistas”. Isso era o suficiente para ludibriar e justificar as barbáries cometidas pelo DOI-CODI, DOPS e todos os requintes de crueldade orquestrado pela ditadura militar, com plena participação dos EUA. Grandes aproveitadores como a Rede Globo caminhavam de mãos dadas com a brutalidade, enquanto seus cofres eram recheados de ouro banhado pelo sangue dos que lutavam pela democracia. A mãe gentil era deflorada em troca de todos os tipos de favorecimento e concessões presenteadas pelo regime. Com maestria, diga-se de passagem, ganharam força, poder, redes de influência e credibilidade junto à opinião pública.

Diz o dito popular que desgraça pouca é bobagem, e, de fato, pelos idos dos anos 70, financiados pelos consórcios e pelas grandes fortunas particulares, surgiram os “THINK TANKS” – usinas de idéias – neoliberais, que costumam gozar do estatuto de organizações de beneficência: assim, os generosos doadores têm direito a isenções fiscais.

Na verdade as think tanks  já existiam, mas se afirmaram fortemente nos anos de 1970. São formadas por intelectuais orgânicos neoliberais, ganhadores de prêmio Nobel etc. conectada a grandes grupos midiáticos. E é através desta correia de transmissões midiática que a ideologia neoliberal atinge o seu estatuto de dado adquirido. O Ethos do neoliberalismo. Uma espécie de segunda pele, a qual tudo parece ser natural sem interferência, gerenciamento e na maioria das vezes seguida de um conformismo pelo qual não adianta lutar, porque na verdade é um fato consumado, uma realidade e ponto final. Essa mídia consegue, não sem resistência, tornar natural o que de fato é articulado, pensado, escolhido e determinado como estratégia de ação neoliberal.

Quando o povo brasileiro respira os primeiros ares da primavera democrática, surge um monstro ainda pior a ser combatido. Agora não seria necessário usar da força bruta que desgastou tanto a ditadura militar, mas sim a dominação simbólica. Essa entra sorrateira, com os think tanks articulando medidas capitalistas como nunca visto, e a rede da mídia, através de suas técnicas modernas da propaganda, incumbida para formar a opinião pública através de um verdadeiro bombardeio de informações diárias e constantes.

Assistimos Fernando Collor de Mello (o caçador de marajás) e logo em seguida Fernando Henrique Cardoso chegar ao poder. De Fernando em Fernando, o Brasil ia se acabando…

A sociedade brasileira vai navegar nas teorias do Capital Humano. Foi Milton Friedman, o pai da Economia, que propôs um sistema de vales, cupons de educação, em que a idéia era infiltrar os mecanismos do mercado na educação e promover a concorrência entre as escolas.

Mas o neoliberalismo vem desta vez com um pacote completo. Assim como a Medusa, da mitologia grega, cujo os fios dos cabelos são cobras, as cobras que brotam da cabeça de uma das irmãs Górgonas, são os múltiplos braços do capitalismo neoliberal, infiltrado nas diversas esferas da sociedade, petrificando e massacrando sem piedade as mentes e corpos da sociedade civil. É impressionante assistir como todos os elementos da conjuntura neoliberal estão concebidos especificamente para minar a democracia.

Nada escapa dos olhos da Medusa. Durante as privatizações, educação e cultura passam a ser suas vítimas preferidas.

Para impor a sua ideologia, os neoliberais elaboraram, ao longo dos anos, uma estratégia implacável de cerco ao pensamento. Esta estratégia resulta da ação de uma rede planetária de propaganda, intoxicação e indoutrinação, que sabe fazer ouvir a sua voz polimorfa em todas as tribunas. Em grande parte concebida nos think tanks, a propaganda neoliberal utiliza várias vias de reprodução. Entre as mais importantes foi a educação e a cultura.

Desse tipo de educação, não precisamos!

Transformam a educação numa atividade econômica, portanto uma empresa, um mercado altamente rentável. Logo, torna-se interessante apropriarem-se dessa atividade social e comercial. Apropriar-se desde a tenra idade das mentes das crianças. Portanto, para os neoliberais, educar é apropriar-se dos cérebros. E isso é extremamente grave, requer uma justificativa válida e a mim me parece que ela não existe.

Os Neoliberais partem da premissa de que a Economia científica é uma ciência como outra qualquer, portanto imita a Física. Em sua ótica doentia o dinheiro vai daqui para ali. Eles contam, observam, classificam, mas não julgam, pois a física, a mãe de todas as ciências, não julga.

Assim, nossas empresas foram doadas, sucateadas. A educação deixou de ter como fim a cidadania, o bem comum, a formação do homem omnilateral, desviando-se para os interesses dos privados. Transformou-se no prelúdio da vida mercantil, da empregabilidade, o que é perturbador. O mais desumano é a perda de sentido de certas atividades intelectuais e humanas que isso implica. As instituições de ensino deixaram de se preocupara em formar poetas, músicos, gente da literatura, artistas e crianças questionadoras, criativas e participativas. Não sem resistência, justiça seja feita.

Privataria
Privataria

O legado de FHC foi nefasto de devastador. Distribuiu nossas riquezas a preço de moedas podres, transformou as instituições de educação em sistemas de reprodução de servidores do neoliberalismo, uma espécie de bípedes pensantes sem mais preocupações senão a de manter este mercado livre e auto-regulado e de manter este sistema de produção e multiplicação do dinheiro. Aumentou assustadoramente a exclusão dos menos favorecidos, hierarquizando ainda mais a pirâmide social. Educação e cultura transformaram-se em meras mercadorias.

Sim, o ataque a cultura veio mascarado pela Lei Rouanet. O aumento do jabá tornou-se, como disse anteriormente, algo natural. Medusa transformou até mesmo as mentes de grandes artistas em pedra, naturalizando um sistema corrupto em um hábitus. Não vou nem entrar na questão do ECAD. Seria necessário um dossiê para essa instituição.

As criações dos músicos, artistas plásticos, cineastas, atores passaram para as mãos dos tecnocratas, que tornou refém todos os que produzem cultura nesse país, com poder de decisão e julgamento para o que é arte e o que não é. A classe artística passou a mendigar nas portas dos capitalistas. Cultura agora é produto de prateleira.

Me causa indignação perceber que tudo o que fora conquistado no Governo Lula, através de Juca e Gil, esteja sendo estagnado, minado. Assistimos pasmos o retrocesso da cultura no Brasil. E por favor não me venham dizer que a classe dos intelectuais desse país estão perseguindo implacavelmente a Ministra Ana de Holanda.

Se existiram falhas na Gestão do Gil, basta melhorar, reorganizar e galgar melhorias. Experimentamos um suspiro de liberdade, e não vamos abrir mão dessa conquista. Estamos defendendo nossos interesses. E infelizmente a trajetória da nossa ministra não vai ao encontro desses interesses. Questão de escolha, de ideologia, simples assim.

Segundo a mitologia grega, as irmãs Górgonas e principalmente Medusa, cujo cabelos eram serpentes vivas e os olhos transformava tudo em pedra, foi decapitada por Perseu. Atena lhe doou um elmo, sandálias aladas, um alforje (quíbisis) e um escudo de bronze para auxiliá-lo na exterminação da grotesca figura.

A pergunta que não quer calar: quem será o nosso Perseu? Nós, o povo brasileiro! Nós, os artistas e intelectuais deste país! Mas antes se faz necessário a ação participativa, os debates, a união e conscientização. Só assim, Medusa (ideologia neoliberal) terá sua cabeça decepada. E para sempre muito bem guardada no alforge, a fim de que nunca mais seu espectro possa nos perseguir e lesar.

por Josephina Carneiro