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Ditadores… eleitos? – O exemplo Hugo Chávez

Série Visão de Mundo, parte VI

“Onde estavam as armas químicas?”
(Engenheiros do Hawaii – Armas Químicas e Poemas)

“[Os imperialistas] vêem extremistas por todos os lados.”
(Hugo Chávez, Presidente eleito da Venezuela)

Hugo Chavez - Presidente eleito da Venezuela
Hugo Chavez – Presidente eleito da Venezuela

A URSS chega ao fim; o sonho latino-americano se inicia

O fim da União Soviética e do bloco “socialista” da Europa Oriental no início da década de 90 — além da exposição das falsidades, das dificuldades, dos abusos de suas ditaduras e do absurdo das respectivas máquinas de propaganda — parecia indicar a vitória final do capitalismo sobre o Comunismo, da direita sobre a esquerda.

Mas eis que, pouco mais de uma década depois, inicia-se um fenômeno inverso na América Latina. Primeiramente com Hugo Chávez na Venezuela e Evo Morales na Bolívia, e passando até mesmo com a histórica eleição de Luíz Inácio Lula da Silva em 2002, a América Latina dá uma guinada em bloco para a esquerda. Um acontecimento inimaginável para o mais otimista dos socialistas/Comunistas, que prossegue com o casal Kirchner na Argentina, Rafael Correa no Equador e, apesar de Fernando Lugo ter perdido sua posição do Paraguai, temos agora Michele Bachelet no Chile.

Mas, para quem tem conhecimento do ocorrido na América Latina durante a Guerra Fria (conteúdo do artigo A Guerra Fria na América Latina), esse fenômeno pode ser encarado como normal e até previsível! Pois, sem a desculpa esfarrapada do “comunismo” demoníaco rondando seu quintal, os Estados Unidos não puderam mais valer-se de propaganda anti-soviética, e perderam sua principal desculpa para invasões, derrubada de governos eleitos democraticamente  e apoio a ditaduras e oligarquias. O caminho da esquerda política dos países da América Latina ficou mais livre, e o resultado disso podemos ver na história da primeira década do século XXI

Terrorismo midiático

Mas nem tão livre assim. Todo esse tempo de dominação sobre os países do lado de cá permitiu aos estadunidenses financiarem uma imensa máquina de propaganda com bases poderosas nos países de seu interesse. Se você conhece a Rede Globo, então já tem noção do que estou falando.

Quando o bloco socialista subiu ao poder, essa máquina foi posta em funcionamento. Por isso, não existiria uma forma melhor de continuar esta série, cujo capítulo anterior se chama “Mentiras são o espírito do nosso tempo”, falando sobre um exemplo de mentira muito comum atualmente, arquitetadas nos últimos anos pela mídia estadunidense e seguida pela nacional: os falsos extremistas. E o meu exemplo favorito é… o “maníaco ditador” Hugo Chávez.

Aliás, se você não concordar com nada do que está escrito aqui, é perfeitamente compreensível. Eu mesmo nunca havia gostado dele, pois eu só ouvia falarem mal… como posso eu exigir que alguém passe a aceitá-lo de uma hora para outra? É tanta crítica, tanta repetição, tanta ênfase, que eu mesmo até uns 2 ou 3 anos atrás pensava que o Hugo Chávez era um ogro, um palhaço sem cultura que todos na Venezuela e no mundo devem odiar. O caso do cancelamento da concessão de televisão da RCTV ajudou muito a formar essa visão…

Minha visão sobre ele começou a mudar quando assisti dois vídeos:

  • Hugo Chavez - um ditador... eleito?!
    Hugo Chavez – um ditador… eleito?!

    “Além do Cidadão Kane”, parte do capítulo 1 desta série e que mostra como um canal de televisão pode ser mais poderoso do que o governo. Depois daquilo, vi que a nossa Rede Globo é algo que nunca deveria ter existido, e se algum presidente acabasse com ela, eu não iria ficar com muita pena não… Analogamente, passei a não ver o caso da RCTV como o “fim do mundo”.

  • o discurso de Hugo Chavez na ONU, em 2o de setembro de 2006. Um discurso muito consistente, inteligente (incluindo doses de bom humor sarcástico), fazendo críticas ao imperialismo estadunidense e uma análise que me agradou muito sobre o papel da ONU no contexto mundial atual.

Eles me ajudaram a começar a formar uma nova opinião sobre Hugo Chávez e amadurecer minha visão sobre a relação entre mídia e poder político. Então, se você quiser ao menos saber um pouco do outro lado dessa estória, convido-o a acompanhar este artigo e, tendo ouvido a versão dos “acusados”, fazer uma nova reflexão sobre o assunto.

“A Receita do Diabo”

Este é o título que dou ao referido discurso do Presidente da República Bolivariana da Venezuela Hugo Chávez, no ano de 2006. A frase título deste capítulo também foi extraída do mesmo. Reparem, existem ditadores em diversos países do mundo, mas apenas aqueles que são contrários aos interesses imperialistas dos Estados Unidos e governam países cujos recursos naturais lhes interessam, esses são sempre os piores e mais impiedosos. Devem ser tirados do poder à força, mesmo que a ONU (ou seja, o mundo) se pronuncie em contrário.

Mas… e quando o chefe de Estado daquele país não é um Saddam Hussein da vida? Aaahhh adivinhem: aí que entra a mídia, ela pode colocar uma bomba atômica na Venezuela, na Síria, no Afeganistão, em qualquer lugar!!! Ela pode transformar Gandhi em Hitler (e vice-versa)! Quem vai duvidar? Bem, fique dois, três, quatro anos martelando: “Hugo Chávez”, “ditador”, “louco”; espere pela primeira medida com potencial polêmico, insista, ouça apenas uma das partes. Jamais divulgue nada de bom que o seu inimigo tenha feito. Pronto, a opinião pública está a seus pés. Minto?


Discurso proferido por Hugo Chavez na ONU em 2006

Bem, neste vídeo eu descobri que Hugo Chávez está longe de ser um idiota. Uma pessoa que recomenda a leitura de Noam Chomsky, que faz uma platéia da ONU rir com uma análise bem humorada sobre o imperialismo estadunidense, que evoca a democracia de Aristóteles, e fala em reconstruir a própria ONU para que esta represente os interesses das nações que a formam, para que essas possam responder em alto e bom som:

Imperio ianque, go home!
(Hugo Chávez Frias,
Presidente da República Bolivariana da Venezuela)

… uma pessoa assim deveria ser tratada com mais respeito.

“A Revolução Não Será Televisionada”

Documentário - A Revolução Não Será Televisionada
A Revolução Não Será Televisionada

Este é o título de um ótimo documentário sobre a massiva campanha da imprensa venezuelana e estadunidense contra o governo de Hugo Chávez. Ele mostra um pouco do dia-a-dia do jeito de Chávez governar, do apoio popular que ele recebe, da sua linha de pensamento político e de sua personalidade. Mostra também a oposição dos Estados Unidos, seus interesses, e as opiniões da elite venezuelana (que são as únicas que chegam até nós no Brasil).

Mostra também a tentativa de golpe, justificada por um “fato” criado por meio de atiradores de elite, de uma manipulação de imagens e de um grande esquema entre os meios de comunicação.
Sim, realmente, enquanto os meios de comunicação pertencerem aos detentores de grande poder econômico, nenhuma revolução que beneficie o povo será televisionada.

Documentário - Ao Sul da Fronteira
Ao Sul da Fronteira

Outro documentário interessante é “Ao Sul da Fronteira”, do diretor Oliver Stone — sim, existe vida inteligente nos Estados Unidos. Bem, eu sempre soube que a mídia estadunidense não era digna de crédito. Só não sabia que ela fosse tão ridícula: os primeiros 5 minutos são de morrer de rir…

“Ao Sul da Fronteira” é quase uma continuação do documentário anterior. Além de mostrar a Venezuela e o Chávez que a mídia oficial não nos mostra, outros líderes da esquerda sul-americana também têm espaço. As conversas são em ambiente praticamente informal. Evo Morales na Bolívia, Cristina Kirchner na Argentina, Fernando Lugo no Paraguai, Lula no Brasil e Rafael Correa no Equador. E é com frases deste último que finalizo:

Quando queriam nos pressionar para manter uma base entrangeira em nosso país, (…), estabelecemos uma condição muito simples: manteríamos a base [estadunidense] em Manta, desde que os [estadunidenses] nos permitissem uma base equatoriana em Miami

Conhecendo a mídia estadunidense, eu ficaria mais preocupado se estivessem falando bem de mim
(Rafael Correa – Presidente do Equador)

Downloads

A Revolução Não Será Televisionada
(The Revolution Will Not Be Televised):
formato RMVB, 441.7 MB, legendas (embutidas) em Português

Ao Sul da Fronteira
(South of the Border)
:
formato AVI, 914.5 MB,legendas em Português (aqui)

Boa reflexão,

E um abraço deste ser pensante.

P. S.

Este artigo foi escrito pela primeira vez em 2011. O carismático e polêmico presidente da Venezuela, Hugo Chávez Frias, após anos de luta contra o câncer, faleceu em 2013. Foi substituído por Nicolás Maduro, que passou por um período extremamente conturbado para se manter no poder, mas parece que as coisas estão mais estabilizadas por lá agora. Ao menos, a nossa mídia não tem falado mais nada…

1 comments
TaniFer Fur
TaniFer Fur

um exemplo de como formar um povo politicamente falando