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Introversão — série “A vida de um ser pensante”

Pérola, ótima metáfora para a introversão
Pérola, ótima metáfora para a introversão

Olá,

Com esse artigo, inicio uma série de relatos sobre temas que fizeram parte da minha vida, na ordem em que me deparei com eles. É a melhor forma que vejo de abordar temas diversos e relevantes para mim e outras pessoas, compartilhar um pouco do que aprendi, minhas dúvidas, minhas tristezas e alegrias. Espero dessa forma encontrar ainda mais seres pensantes que se identifiquem com o conteúdo deste blog, e quem sabe até mesmo ajudar alguém que esteja passando por uma situação semelhante a alguma que eu já tenha enfrentado. Afinal, quando conseguimos superar algo, prefiro ajudar outras pessoas a superarem também do que tratá-las como se eu nunca tivesse estado na mesma situação — conheço pessoas que preferem a segunda opção.

Bom, minha vida está muito longe de se comparar a riqueza de outras histórias de vida por aí, cheias de dificuldades e superações, e que servem de inspiração inclusive a mim. Mas não posso subestimá-la a ponto de achar que ela não tem valor suficiente para ser contada. Para que vocês tenham uma ideia, pra começar eu já quase nem nasci, devido a negligência médica na hora do parto — que me fez ter problemas de saúde nos primeiros dias de vida.

Passado esse susto, até os 8 anos tive uma infância sem grandes problemas. Pra não dizer que não falei das flores, devo agradecer o grande presente que recebi de meu pai, que desde pequeno começou a me ensinar português, matemática, inglês e me deixava brincar com o material de eletrônica do curso dele. Como tudo o que se aprende de pequeno se desenvolve melhor, isso me garantiu um desempenho escolar acima da média desde a pré-escola até os primeiros anos da faculdade.

E, desde cedo, um traço da minha personalidade ía ficando cada vez mais claro: a introversão.

Introversão, extroversão e timidez

Mas primeiro, vamos definir bem as coisas: introversão e timidez, embora tenham fortes laços, não são a mesma coisa! A timidez é essencialmente um medo: de iniciar uma conversa, de falar em público, de paquerar e ser rejeitado. Sendo um medo, é normal mas até certo ponto: a partir do momento em que a timidez passa direcionar as suas ações (ou a falta delas) e limitar a sua experiência de vida, ela torna-se um problema e deve ser resolvido!

Já a introversão, bem como a extroversão, são apenas orientações da personalidade quanto a sua “fonte de energia de vida”. Ou seja, quando você precisa recarregar as suas energias, depois de uma semana intensa de trabalhos e estudos; quando você sente necessidade de dedicar um tempo só pra você; para onde você se volta? Para dentro ou para fora?

O extrovertido volta-se para fora: ele precisa captar energia externa para “recarregar a bateria”. É por isso que algumas pessoas chegam ao extremo de saírem de uma longa noitada direto para o outro dia de trabalho de manhã, ao invés de se entregarem a uma boa noite de sono. O extrovertido precisa de festa, barulho, gente passando pra lá e pra cá, música alta, agitação, gritaria, risadas, piadas bestas e conversas superficiais. Pra ele interessa que exista ação, movimento, intensidade.

O introvertido, por sua vez, volta-se para dentro: ele precisa parar de gastar a energia que ele mesmo produz internamente para “recarregar a bateria”. É por isso que o carnaval perfeito de um introvertido é dentro do quarto com filmes e livros — o que não significa, e é aqui que as pessoas começam a não entender, que o introvertido não gostaria de duas ou três mulatas seminuas ao seu lado: ele só não precisa de todas as outras centenas de pessoas pra fazer barulho, da música infernal e das luzes; mas é muito difícil encontrar duas ou três mulatas que aceitem as condições de um introvertido, e muitas vezes o custo-benefício delas e do barulho realmente não compensa o esforço.

Uma criança quieta, um adolescente recluso

Voltando a falar da minha vida, quero deixar claro que minha infância, pelo menos até os 8 anos, foi bem normal: brinquedos, futebol na rua, colegas, animais de estimação. Pais, tios, primos. Mas eu era certamente mais quieto do que as outras crianças. Nunca vi muito motivo pra ficar berrando nas festas, pular nas costas dos outros a toda hora e, especialmente, fazer bagunça na sala de aula. E, por incrível que possa parecer, apesar de boa parte das outras crianças “olharem de lado”, na infância a introversão teve suas vantagens: a maior parte dos adultos admirava — incluindo os professores; até certa idade, até mesmo as meninas achavam bacana :-) Mas isso logo iria mudar.

Timidez e introversão na adolescência
Timidez e introversão na adolescência

Não é segredo pra ninguém que a adolescência gira em torno da interação com o sexo oposto. E é aí que ser “quieto” não ajuda muito. Imagino que para as mulheres não faça muita diferença ser “quieta” ou não, pois a obrigação de “chegar” é do homem mesmo. Mas para um homem a coisa é muito mais complicada, até porque, consciente ou inconscientemente, as mulheres se atraem mais pelos homens com maior… desenvoltura social, digamos assim. Claro que há exceções, mas no geral é bem isso — ainda que algumas achem “bonitinho” ser tímido, é com os desenvoltos que elas acabam saindo.

Além disso, é muito mais difícil ser aceito por qualquer tipo de grupo (seja na escola, no curso de informática, no bairro e até mesmo entre os adolescentes da família) sendo introvertido. E, a não ser em casos extremos de anti-socialidade, quem não precisa de um mínimo de aceitação?

Por todas essas dificuldades, à minha natureza já introvertida se combinaram, de um lado, a falta de opções que o mundo oferece aos introvertidos, vistos como “diferentes” — entre outras coisas “piores”; e, de outro, a minha própria atitude de começar a preferir me afastar do que passar a vida dando murro em ponta de faca.

Um jovem cobrado

Na vida social, profissional e familiar a coisa se complica ainda mais, pois a interação social passa a ser muitas vezes um pré-requisito. As pessoas em geral costumam confundir gestos, risadas, comparecimento a festas e todo o tipo de interação com real envolvimento, sentimento, empatia e bondade. Enquanto ser retraído é visto como “ser exibido”, “não se misturar”, indiferença, desprezo. E elas começam a cobrar: “por que você não vai na festa? Você não gosta dos seus tios, não gosta da sua família?”; “por que você não foi no churrasco, você não gosta de passar tempo com a gente?”; “você tem que participar mais dos eventos da empresa se quiser crescer aqui”; “você não vê fulano? Por que você não é como ele?” — ora, que pergunta! Eu não sou como ele porque eu sou eu, caramba!

Não que não hajam exceções, que não existam pessoas que entendem o seu jeito, que se aproximem e te admirem por várias outras qualidades. Mas o quadro geral é esse; afinal, exceções são raras, senão não seriam exceções. E, ainda que um introvertido dispense mesmo barulho e estardalhaço das atividades, a impressão de indiferença e desdém às pessoas não é verdadeira.

Porém, as coisas demoram muito a ficar claras, e até lá, eu mesmo começava a me questionar: “será que tem algo de errado comigo?”; “eu sou uma pessoa ?”; e ao notar que os extrovertidos são muito mais bem aceitos e queridos, e têm muito mais facilidade para se portar em determinadas situações, os questionamentos podem se transformar numa certa aversão a si mesmo: “eu estou errado”; “eu tenho que mudar”.

Um adulto auto-afirmado: “sou introvertido sim, e daí?”

Depois de enfrentar muitas dificuldades e aprender muito, hoje me sinto à vontade com meu jeito de ser, com minha personalidade introvertida. Porém, o caminho foi longo e penoso, que incluiu estudos sobre psicologia, a minha própria psicoterapia e a leitura do excelente livro “A Vantagem do Tímido”, de Marti Olsen Laney.

A primeira coisa a ser salientada é que introversão e extroversão são igualmente saudáveis e normais, em qualquer grau — exceto pelos extremos. Agora, o mais incrível é que a introversão só foi aceita desta forma recentemente. Primeiro, a própria Psicologia, no início, colocava a introversão como “algo a ser corrigido”; apenas com Carl Jung isso iria mudar. Portanto, não é de se estranhar que a introversão ainda não seja bem vista ainda entre as pessoas comuns.

Na verdade, e como eu disse a pouco, desde a esfera familiar até a profissional, a extroversão é o modelo a ser seguido; o introvertido é visto como o “estranho”. Porém, você, introvertido, deve ter consciência de que, apesar disso, não há nada de errado em ser introvertido. Ter dificuldades com a vida social é totalmente normal e compreensível, primeiro pela nossa própria natureza, segundo porque a própria sociedade — formada por extrovertidos para extrovertidos — não nos vê com bons olhos. Mas isso não deve abalar a sua auto-estima, a sua convivência consigo mesmo. Ame-se e que se f-da a sociedade!!

Bom, esse artigo já ficou longo, acho que é melhor dividir né? Fica esse aqui como parte 1 então.

Um abraço e até a parte 2 :-)

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1 comments
ClaudiaBistrichi
ClaudiaBistrichi

Eu também sou bastante introvertida, já passei por diversas dificuldades desde apresentações de trabalhos acadêmicos a entrevistas de trabalho.