Blog Um Ser Pensante

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O nebuloso destino de um ser pensante

O endereço deste texto me foi passado por um amigo, e eu não pude deixar de me identificar com ele. Trata-se de um ser pensante decepcionado não só com a falta de reciprocidade, mas por esta ser apenas um sintoma de algo muito pior: a falta de senso crítico e de interesse da população em geral sobre assuntos que nós, seres pensantes, achamos importante trazer à tona.

Com muita dificuldade e nenhuma autoridade pra isso, me dei a liberdade de reduzir um pouco o texto (nos lugares marcados com “(…)”), não desmerecendo as partes cortadas, mas para dar mais destaque aos trechos com que mais me identifiquei. O texto completo pode ser encontrado aqui.

Publico este texto com a melhor das intenções, porque me identifiquei muito com ele e seu autor – inclusive deixei um comentário no original -. Mas se o autor encontrar seu texto aqui e quiser que eu o retire ou faça qualquer tipo de alteração, é só me contactar.

A despedida de Tomázio Aguirre

Não sei, propriamente, de quem me despeço. De leitores do presente, sei que não é; de leitores futuros, principalmente pessimistas não-brasileiros, quem sabe. O pouquíssimo diálogo que alcancei por meio destes textos já foi além de minha expectativa. Imagine dissertar sobre a morte justamente com alguém que está no leito de morte!? Não seria muito bem quisto. Pensar e temer a morte é coisa de vivos, muito vivos. Moribundos querem apenas o conforto e a ilusão; ou, basicamente, a total ausência de reflexão. E se você não está disposto a lhes dar isto, então que saia de perto. E é o que estou fazendo.

(…), há mais de cinco anos, iniciei uma série de ensaios sobre o Brasil, a fim de entender o país além da superficialidade sobre a qual se costuma discuti-lo internamente. Escrevi dois ou três ensaios e parei. Tornaram-se filosóficos demais, e contrariavam em demasia as ilusões dos brasileiros sobre si mesmos. Percebi que eu estava escrevendo para o nada, para ninguém; e concluí que não adiantava escrevê-los para leitores brasileiros, ou para leitor algum. (…)

Desisti dos ensaios, mas a idéia de escrever um pouco sobre o cotidiano no caos continuou a me perseguir. Me intrigava, e continua a me intrigar, como os brasileiros se tornavam tão medíocres, tão mesquinhos, confusos, perdidos; e ao mesmo tempo capazes de se adaptar, razoavelmente, a uma sociedade tão complexa em termos de funcionamento e subsistência. Agora, enquanto escrevo, por exemplo, luto contra o barulho para poder me concentrar: no apartamento de cima um sujeito com sotaque goiano fala em voz muito alta no celular, tentando vender uma moto usada para alguém em outra cidade. E estão a conversar há mais de trinta minutos, sempre repetindo as mesmas coisas: o preço da moto, o parcelamento do dinheiro, a quilometragem no marcador, a ausência de defeitos, etc., e sem que ninguém se decida ou encerre a inútil conversa. E pelo jeito é uma venda que já está se desenrolando há vários dias, e o negócio não passa de 5 mil reais (pouco mais de 2 mil dólares, na época). Parece-me ainda que a venda já foi fechada e desfeita várias vezes, e ambos (comprador e vendedor) já estão perdendo a paciência.

A vida do brasileiro -- tecnologia de consumo
A vida do brasileiro — tecnologia de consumo

A vida do brasileiro se transformou nisso: uma “enrolação” diária em torno de coisas inúteis, que no máximo garantem a subsistência ou propiciam algum consumismo tecnológico como satisfação imediata ou ilusória. E tudo nesse estilo playboy: muita falação em voz alta, celular o tempo todo tocando, carros e músicas popularescas dançantes em alto volume, e “cervejada” regada à companhia de mulheres imbecis desfilando suas roupas coloridas, sua malhação de academia e suas pernas, bundas e peitos saltando das roupas. A vida no Brasil não passa disso; (…) Geralmente, a vida playboy idiota (a da “cervejada”, da “mulherada”, da barulheira, da criançada entediada e irritada, dos empregos inúteis) se mantém razoavelmente estável (…).

Quando se tenta fugir desta mediocridade reinante, indo morar em condomínios fechados luxuosos, frequentando cinemas que passem filmes “alternativos” (o nome para filmes fora do mercado holywoodiano, que domina 95% dos cinemas e das TVs brasileiras) ou freqüentando teatros ou bares alternativos, aí a mediocridade apenas muda de expressão: os “novos ricos”, os pseudo-intelectuais, os “PIMBAs”, os “posers”) e as adolescentes metidas a “alternativas” vivem exatamente a mesma vida de merda que a classe média americanizada (a dos playboys, seus carros, seus celulares, suas mulherzinhas “patys”, sua conversa gritada e seus “barulhos eletrônicos” ininterruptos); com a única diferença que os alternativos tentam disfarçar seu consumismo vazio e sua mentalidade mesquinha com a citação de livros que não leram, de filmes que não viram, ou citando marcas de vinhos (no lugar de nomes de carros) e se dedicando ao consumismo “hype” (aquele em que o importante é estar antenado sobre o último lançamento da tecnologia informatizada).

A vida brasileira, onde quer que se vá, tornou-se de uma mediocridade intolerável para quem não quer viver apenas como modo de passar o tempo, tendo pequenos prazeres e ilusões imediatas até a morte ou a desgraça chegarem. O que, hoje em dia, é possível ser chamado de brasilidade, costuma enojar quem já quis ser mais do que meras carnes que tremem diante do prazer.

Por que, então, hei de me esforçar em tentar comunicar-me com outros brasileiros, os quais no máximo conseguirão olhar pessoas como eu com aversão, deboche, incompreensão ou, no melhor das hipóteses, com forçada tolerância? O brasileiro não tem mais a capacidade de reflexão e de leitura, se é que já teve. Atualmente quem reflete um mínimo sobre o Brasil só consegue pensar em ir embora do país; e não raras vezes apenas para se livrar das agressões.

Se mantenho a necessidade de expressar, seja por que meio for, aquilo que me parece ser alguma verdade sobre as coisas, o farei ainda mais solitariamente do que em textos para a divulgação pela Internet, por caminhos cujas características de linguagem já venham afastar logo de início possíveis leitores mais medíocres (ou seja, quase todas as pessoas).

A solidão tornou-se, enfim, a melhor forma de viver no Brasil. Os meios populares de divulgação lidam com o popular brasileiro, e o popular brasileiro tende à mediocridade, à morte e ao vazio.

Despeço-me, então, destes meios, destes textos e dos poucos leitores que tive por este curto período. (…) Textos áridos que evidenciam a desgraça apenas agridem. E não quero ter de volta a contra-agressão.

Além do mais, sou um pensador realista, por pior que seja a realidade a ser concluída. Em um mundo moribundo, com quase sete bilhões de pessoas (boa parte das quais desesperadas para deixar de ser zero-à-esquerda), não vejo muito sentido em continuar fazendo algum esforço para tornar-me um sujeito público, principalmente através da apresentação de idéias.

Para a maioria das pessoas, sei que uma conclusão como essa não diz nada, pois não parece ter nada a ver com suas vidas práticas, cotidianas. Mas, a meu ver, isso é apenas uma questão de perspectiva, ou de falta dela, melhor dizendo. (…)

A realidade do mundo e do país que nos sobrou é que, individualmente falando, cada pessoa não tem mais nenhum valor; é insignificante.

Sou eu mesmo, portanto, insignificante; por mais que, em alguns momentos, e por necessidade de sobrevivência pessoal, acredite no oposto; acreditando, por exemplo, que minha percepção da realidade e idéias tenham algum valor. No mundo atual, no entanto, não têm. Ninguém nem nada tem mais valor. Tudo é efêmero, tudo é vazio.

Onde o futuro é destruição, o passado só pode ser ilusão, e o presente apenas vazio. Aqui me despeço aceitando a insignificância como realidade última desta vida sem sentido. (…)

No Brasil, ou se pensa ou se vive. Ambos, não dá.

(…) enquanto escrevo este texto de despedida, apesar de um vizinho ter quase se matado, de já haver alguns bêbedos trançando as pernas no bar logo ao lado de meu prédio, apesar de um outro vizinho, estúpido, estar na ânsia de uma longa venda de uma moto usada, hoje é uma manhã de sábado ensolarada e muito bonita. (…) Despeço-me, então, para curtir um pouco desse céu, desse sol; e também uma ou outra pessoa de cada vez, em seus momentos menos difíceis. A transcendência do humanismo ainda é legal.

Boa sorte aos que ficam!…

Obrigado, Tomázio… vamos precisar de muita…

Um ser pensante

3 comments
Jocka João Luiz
Jocka João Luiz

imagina que os nossos antepassados "seres pensantes" não dispunham da nossa tecnologia a serviço da informação rápida e ágil... mas, o que eles tinham, NÓS PERDEMOS... o interesse pela proximidade e a qualidade recíproca entre próximos... por causa deles, amigo, herdamos a coragem de "PENSAR". SIGAMOS pois...