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O Pequeno Príncipe – reflexões sobre o filme

Quero compartilhar com vocês, amigos seres pensantes, as reflexões que vieram à minha cabeça após assistir à adaptação de O Pequeno Príncipe para o cinema, atualmente em cartaz.

É incrível como as idéias mais essenciais (usando a linguagem do próprio livro) podem ser expressas de forma simples, direta, sem complicações. É assim com “O Pequeno Príncipe” (Antoine de Saint Exupéry), “A Revolução dos Bichos” (George Orwell) e outras obras universais.

FIlme "O Pequeno Príncipe"
Filme “O Pequeno Príncipe”

Ao assistir o filme “O Pequeno Príncipe”, dois pensamentos me vieram à mente:

1) é um filme mais direcionado para quem já leu o livro, do que para quem ainda quer conhecer a estória por meio do filme. Várias passagens importantes do livro são “citadas” durante o roteiro, claro, mas senti falta de algumas importantes: o encontro com o bêbado, grande parte do diálogo com a raposa. Mas a abordagem do filme é compreensível; afinal, “O Pequeno Príncipe” é um livro universal, já lido no mundo inteiro. E é ainda mais justificada pelo item a seguir:

2) eu senti que a motivação do filme é responder à seguinte pergunta: qual a mensagem do livro “O Pequeno Príncipe” para o mundo de hoje? E este, para mim, é o seu grande mérito.

É irônico que, durante os trailers antes do filme, é exibido um comercial da Stella Barros sobre a história de sucesso de um ex-menino de rua que se tornou um grande empresário.

O início

O filme começa apresentando a protagonista, uma menina muito jovem mas já pressionada pela mãe a ser um sucesso: ser admitida na instituição educacional Werth. Sua mãe é rígida na preparação para o teste de admissão, treinando cada aspecto da vida da menina: a roupa social, o sorriso social, os hábitos sociais e estudos a todo momento, visando a admissão na Werth.

(preciso fazer um parêntese: coincidentemente, a TV do avião em que estou escrevendo este artigo acabou de exibir uma frase de Saint Exupéry, o autor do livro!)

Filme O Pequeno Príncipe: mãe rígida na preparação da filha
Filme O Pequeno Príncipe: mãe rígida na preparação da filha

Porém, a entrevista não foi exatamente da forma que a mãe havia treinado sua filha, transformando-se num desastre. Assim, para conquistar seu objetivo de colocar sua filha na Werth de todo jeito, a mãe teve de arrumar uma moradia nos arredores da instituição – uma casa desvalorizada por ser vizinha a outra muito antiga e totalmente fora dos padrões modernos – além do vizinho velho, louco, completamente alheio a vida de objetivos, negócios e sucessos de toda a vizinhança, considerado louco e inconveniente para todos no bairro.

Acontece que este velho vizinho…. é aquele aviador do livro, que encontrou o Pequeno Príncipe no deserto há muitos, muitos anos atrás. E é aí que o enredo do filme e a estória do livro começam a se unir.

Críticas à sociedade

Duas visões de mundo irão se chocar durante a estada da protagonista naquela vizinhança: a visão de mundo de sua mãe, que quer que cada hora, cada dia de cada semana de cada mês, de cada ano de sua vida seja planejada, dedicada ao sucesso absoluto nos estudos e à vida profissional; e a visão do aviador, que teve sua vida transformada pelo encontro com o Pequeno Príncipe: um jovem que veio de outro mundo para nos mostrar que o essencial nessa nossa vida é a Simplicidade, a Amizade, o Amor. Este choque de visões é o tema do filme em sua fase de desenvolvimento. Não entrarei em detalhes aqui para não fazer “spoiler” ;)

A menina e o aviador
A menina e o aviador

O filme entrará em uma outra frase completamente diferente, e carregadíssima de críticas, quando o aviador adoece gravemente. A menina se convence de que apenas o Pequeno Príncipe poderia ajudá-lo, e parte em sua busca (sem detalhes novamente! :)

No caminho, encontra um asteróide que lembra o B-612, mas tomado por arranha-céus, muito semelhante a uma grande metrópole. Curiosa, a nossa protagonista decide descer até lá. Tem a impressão de ter visto o Pequeno Príncipe no terraço de um dos prédios.
Logo percebe-se que se trata de um lugar onde não há crianças. Onde é proibido ser criança! Onde todos estão em seus carros para lá e para cá, de terno e gravata, apressados, ocupados demais.

Depois de ter sido abordada pelo Vaidoso trabalhando como policial, e ser atendida pelo Rei no elevador, chegou até o terraço do prédio para falar com o suposto Príncipe.

O mundo do homem de negócios

Qual a surpresa dela, e de todos nós no cinema, ao ver o Pequeno Príncipe adulto, trabalhando como um empregado ordinário qualquer, tendo seus horários controlados — está visão provavelmente é a que aqueles que odeiam a estória e tudo o que ela representa gostariam de ter –, e completamente esquecido tudo, até mesmo de todos os princípios que havia ensinado ao aviador.

O homem de negócios havia dominado aquele asteróide, incluindo as estrelas – presas em uma redoma! Transformou-o, simplesmente, no nosso mundo, onde “as estrelas não estão fora do alcance” (Bon Jovi – These Days). Um mundo onde se declarar criança é uma blasfêmia, que surpreendeu todos à volta! Compare, pois, o asteróide do filme com este nosso mundo, onde as crianças são obrigadas desde cedo a trocarem as brincadeiras de criança pela raiz quadrada, os brinquedos e jogos infantis por roupas, tênis e aparelhos “de marca” que as fazem se sentir “melhores” que as outras, e quererem sempre mais artigos de consumo e mais caros; a trocarem as roupas, músicas e danças ingênuas de criança por maquiagem, salto alto, músicas e danças com letras e poses com conteúdo puramente erótico.

Uma das mais valiosas lições que o livro “O Pequeno Príncipe” nos deixa é: “Só se vê bem com o coração. O essencial é invisível para os olhos”. O homem de negócios perverteu inclusive esta idéia para seu próprio proveito! Da mesma forma que as igrejas têm pervertido os ideais originais das religiões para seus próprios interesses, da mesma forma que os revolucionários franceses perverteram os ideais originais de Igualdade, Liberdade e Fraternidade, da mesma forma que os burocratas russos perverteram os ideais originais de Marx de que nenhum homem deve servir de meio para outro homem, assim também o homem de negócios perverteu completamente o sentido da palavra “essencial”.

Essencial agora era tudo que fazia os outros homens continuarem em sua rotina de trabalho, cada vez mais rápida e desumana, a fim de que os negócios continuassem fluindo. Amor, sonho, amizade, tudo o que não se tratasse de trabalho e dinheiro não era mais essencial.

Exatamente como o nosso mundo. Um mundo com “cento e onze reis, sete mil geógrafos, novecentos mil negociantes, sete milhões e meio de beberrões, trezentos e onze milhões de vaidosos”; e os acendedores de lampiões,  não mais necessários, agora são educados para desenvolver e corrigir sistemas de computador, vender carros e celulares, criar marcas e comerciais de televisão, propor e votar leis, pesquisar remédios de uso contínuo que aliviam mas não curam,… tudo para que os negócios continuem na mais perfeita ordem, e o homem de negócios continue cada vez mais rico e poderoso.

Conclusão

Então você me dirá: mas a vida é assim, e se você viver como O Pequeno Príncipe no mundo real, morrerá de fome.

Respondo eu: a vida é assim porque pessoas a fizeram assim, e pessoas a aceitaram assim. Alguns poucos, aqueles que se beneficiam da situação e que tem poder pra isso, criaram, moldaram e estão desenvolvendo esse sistema a cada dia mais. Pessoas que têm uma situação mediana, e/ou que não se importam com essa vida mecanizada e desumanizante, defendem este sistema e repetem que querer algo diferente do que temos é coisa de criança; um delírio rebelde e infantil. São essas pessoas que cometeram o grande erro denunciado no filme: se esquecer de manter a simplicidade, a curiosidade, a ingenuidade de uma criança dentro de si, mesmo depois de adulto.

Mas volta e meia aparecem pessoas como Saint Exupéry, Chaplin, Karl Marx, John Lennon, Raul Seixas, Adam Sandler (assistiram “Click”?) e muitos outros, para não nos deixar esquecer de que a vida deve ser mais do que esta corrida pela sobrevivência, essa vaidade e essa alienação em forma de consumismo.

Não é novidade alguma dizer que, no final do filme, o Pequeno Príncipe se salva da maldição.

Novidade mesmo será se, um dia, nos preocuparemos mais em educar nossos filhos para serem pessoas com valores humanos em sua alma, ao invés de somente profissionais bem sucedidos. E mais: novidade mesmo será se, um dia, nos libertamos da maldição que nos faz referirmos a uma pessoa como “aquela que tem uma casa de 600 contos…” ou “aquele que tem o carro tal…”. Da maldição que nos faz admirar mais o exemplo do grande homem de negócios — pelo simples fato de ter achado um jeito de ficar rico –, do que o médico que poderia estar ganhando milhões com plásticas e próteses de pessoas famosas, mas que escolheu uma especialidade mais essencial e dedica parte de seu expediente (quando não a própria vida) a pessoas que não teriam condições de pagar pelo tratamento, do que o professor que ganha uma miséria mas mesmo assim ensina seus alunos com carinho e dedicação, do que o bombeiro que arrisca (e às vezes perde) sua vida salvando outras, do que o policial que também arrisca sua vida protegendo inocentes.

Novidade será quando tivermos capacidade de criarmos um mundo onde possamos ter uma vida digna, sem precisar trocar todo o nosso tempo, os nossos sonhos, a nossa felicidade e a nossa liberdade por um punhado de papel para sobreviver.

“um ser pensante”