Blog Um Ser Pensante

expondo o que pensa e sente, enquanto vive...

fixo

O socialismo funciona sim!!! – Resposta ao professor de economia

O socialismo funciona? - aula de economia
O socialismo funciona? – aula de economia

Introdução: o experimento

Se você se interessa pelos temas capitalismo e socialismo, já deve ter visto a estória do professor de economia que quis provar que o socialismo não funciona, usando as notas dos alunos como teste. O professor propôs:

“Ok, vamos fazer um experimento socialista nesta classe. Ao invés de dinheiro, usaremos suas notas nas provas.” Todas as notas seriam concedidas com base na média da classe, e portanto seriam ‘justas’. Todos receberão as mesmas notas, o que significa que em teoria ninguém será reprovado, assim como também ninguém receberá um “A”.

Então, em resumo, as notas foram caindo bimestre a bimestre, porque os alunos que não eram dedicados continuaram não estudando, e aqueles que estudavam bastante, e tiravam as notas mais altas, iam desanimando ao terem sua nota final reduzida à média da sala. Com o desânimo, estudavam cada vez menos, reduzindo ainda mais a média da sala e a nota final de todos.

E assim, está “provado” que o “socialismo” não funciona.

Minha opinião

Me surpreende que um exemplo tão simplista seja adotado como “prova” de que o “socialismo” não funciona. Como já foi dito no artigo “Em busca do Comunismo perdido“:

O homem produtivo, livre, independente, capaz de amor — essa a visão que Marx tinha do homem.  […] não se preocupava fundamentalmente com a igualdade das rendas embora se opusesse à desigualdade que impede os homens de partilhar das mesmas experiências básicas da vida. A preocupação central de Marx era libertar o homem do tipo de trabalho que destrói sua individualidade, o transforma numa coisa […].
(Erich Fromm – A Sobrevivência da Humanidade)

Um professor de Economia deveria saber disso. Achar que “comunismo é todo mundo receber igual” é uma estupidez sem tamanho, e querer debater com base nesse argumento é coisa digna de um moleque batendo boca na rua.

A diferença básica entre capitalismo e Comunismo não está nos rendimentos do trabalho, e sim na posse do capital. E a grande maioria das pessoas imagina o capital como sinônimo de dinheiro, mas não é só isso. Capital é o dinheiro usado no ganho de mais dinheiro; pode ser materializado na forma de uma empresa e seus meios de produção (máquinas, computadores, veículos, estabelecimentos etc.), ou diretamente investido em um banco, por exemplo.

O capital na forma de uma empresa e meios de produção, por exemplo, permite que o proprietário obtenha ganhos utilizando-se do trabalho de seus empregados. Isto é capital. Mas o dinheiro que um empregado ganha como rendimento de seu próprio trabalho, e consome na sua própria sobrevivência (alimentação, roupas, moradia etc.) não é capital! É tão somente renda! As distorções causadas pelo capitalismo e que o Comunismo se propõe a eliminar não é com relação à renda do trabalho, e sim à posse e acumulação do capital!

A sala de aula do jeito que é, já é socialista!

Considerando o exposto acima, na minha visão, uma sala de aula normal se torna muito mais próxima do Comunismo / socialismo do que a babaquice feita pelo professor para “exemplificar” a sua visão limitada das idéias de Marx. Afinal, pode-se associar o trabalho com o estudo e dedicação dos alunos; as aulas, o próprio professor, os livros, os materiais, salas e laboratórios com o capital, que, em uma sala de aula normal, é acessível a todos os alunos de forma igualitária; e as notas são o salário, o rendimento recebido pelo trabalho.

Um conceito muito comum entre Comunistas e socialistas diz que, no socialismo, todos recebem de acordo com seu trabalho, e, no Comunismo, de acordo com suas necessidades. Eu diria, então, que uma sala de aula normal é como o socialismo: as notas são recebidas de acordo com o “trabalho” de cada aluno. Uma sala de aula Comunista seria aquela onde os alunos com dificuldades receberiam aulas de reforço, ou material didático extra, por exemplo, conforme a sua necessidade; assim, teriam maior possibilidade de passar de ano (entenderam a idéia?).

Pois bem: considerando isso, uma sala de aula socialista funciona do jeito que todo mundo conhece: cada aluno recebe notas de acordo com seu empenho (é claro que estou desconsiderando muita coisa aqui, pois a nota de um aluno não reflete somente o seu empenho, mas uma série de outros fatores. Mas vamos simplificar, ok?). Em uma sala de aula Comunista, os alunos com dificuldades receberiam atenção especial de forma a terem mais chance de passar de ano (aulas de reforço, materiais extras etc. – e não as notas “de graça”). Portanto, ambas “funcionariam”, não é verdade?

E o capitalismo? Funciona?

Mas agora vamos montar uma sala de aula capitalista. O capital da nossa sala só pode ser as aulas e os materiais de estudo relacionados. Utilizando-se desse capital, os alunos obtém seu salário, ou seja, a nota.

Então, com base nisso, vamos montar uma pirâmide social, baseada na crença dos capitalistas de que a desigualdade não só é natural como justa. Os 3 melhores alunos do vestibular (afinal, muitos capitalistas acreditam piamente que a nota do vestibular determina quem é mais inteligente e empenhado) serão os donos do capital. Eles não precisarão estudar: como donos das aulas e dos materiais, simplesmente receberão a soma das notas dos outros 18 alunos da turma, e pagarão de volta o salário devido aos que se utilizarem de seu capital.

Pois bem, no primeiro bimestre, todos muito empolgados com o sistema, se esforçam e tiram notas de acordo com seu empenho e capacidade. Assim, dos 18 alunos, como seria normal, 4 alunos tiram entre 8 e 10, 8 alunos tiram entre 6 e 8, e 6 alunos tiram entre 5 e 6. A soma daria em torno de 125 pontos de nota, ou seja, 41 pontos para cada um dos 3 capitalistas.

  • Um dos capitalistas, ganancioso, ficou com 10 pontos para sua nota, tirando nota 10, e distribuiu os outros 31 pontos entre seus 6 “empregados”, que ficaram todos com nota 5 (tudo bem, o que tinha tirado nota 9 com seu próprio esforço ficou com 6).
  • Outro capitalista, um pouco mais moderado, ficou com 9 pontos para sua nota, distribuindo os outros 32 pontos para seus “empregados”. Querendo premiar seus melhores alunos, deu 7 para os dois que tiraram as melhores notas (acima de 8), e só então percebeu que restaram apenas 14 pontos para distribuir entre os outros 4 alunos de sua “empresa” (que ficaram com 4,5 cada).
  • O terceiro capitalista, sendo ainda mais moderado que o segundo, ficou com 8 pontos para sua nota, restando para seus 6 empregados 33 pontos. Vendo que 4 alunos da empresa anterior tinham ficado insatisfeitos com a nota muito baixa (4,5, sendo que pelo menos 2 deles haviam), decidiu conceder nota 6 para os 3 melhores alunos e nota 5 para os outros 3.

Para o segundo bimestre, aconteceu uma coisa interessante: Háique, o aluno que havia tirado nota alta na primeira empresa, muito insatisfeito por ter tirado 9 e recebido apenas 6, pediu demissão e ingressou na empresa do segundo capitalista. Então, o que aconteceu foi o seguinte:

  • O primeiro capitalista continuou com sua política. Agora, tendo 5 empregados com notas entre 5 e 8, teve um rendimento de 33 pontos no total. Ele pegou o seu 10, crente de que o merecia (senão não seria dono do capital, oras), e distribuiu os outros 23 “normalmente”: 5 para o que tirou maior nota e 4,5 para os outros.
  • O segundo capitalista também continuou com sua política. Tendo 7 empregados (lembra do Háique?), com 3 tirando mais do que 8, conseguiu 55 pontos! Tirou o seu 10 e distribuiu os outros 45: 7 para seus 3 melhores e 6 para os outros 4 empregados. As coisas estavam indo bem por aqui!
  • O terceiro capitalista, vendo seus companheiros de classe tirando 10 neste bimestre, não quis se fazer de rogado (afinal, a competição move o mundo!), e também pegou o seu 10 dos 46 pontos que seus empregados somaram. Os outros 36 pontos, deu 7 para os 3 melhores e 5 para os 3 com nota mais baixa (quem se empenha mais, merece mais!).

O terceiro bimestre é uma época crucial. É aí que começa a se definir quem passa e quem não passa de ano. Os empregados da primeira empresa começaram a ficar preocupados. Por mais que se esforçassem e conseguissem suas notas 6 e 7 de vez em quando, nunca tiraram mais do que 5: então precisariam de 2 notas 7 para passar. Dois deles foram a seu patrão e pediram um aumento (enquanto os outros três pensavam: “ah, essa é a minha vida, estudar e reprovar, não adianta mesmo!”). Não querendo ficar para trás de seus concorrentes, o patrão ofereceu 6. Não seria suficiente. Então… os dois empregados pediram demissão. Foram procurar emprego na empresa dois, mas esse patrão já tinha 3 empregados de salário 7: falou para eles o procurarem no bimestre que vem… (risos).

Seguiram-se o terceiro e quarto bimestre sem muitas surpresas. Os 3 alunos donos de capital conseguiram passar com médias acima de 8, sendo que o primeiro teve um pouco de dificuldade nos últimos bimestres com apenas 3 empregados desmotivados. Os 4 melhores alunos conseguiram passar, com uma média um pouco inferior a 7 (embora tenham contribuído sempre com notas maiores que 8). 5 dos 8 alunos médios e 1 dos 6 mais fracos passaram raspando. Os dois alunos desempregados, três dos médios e cinco dos mais fracos reprovaram (quase metade da sala).

A verdade é que, com exceção dos alunos mais fracos, todos ficaram com a sensação de que receberam menos de nota anual do que contribuíram. Bom, isso é óbvio, visto que parte da nota vai sempre para o “dono” das aulas e dos materiais. Mas o motivo da indignação maior ainda estaria por vir.

Na última aula, todos os alunos estavam esperançosos de não precisarem passar pelo mesmo aperto ano que vem, sendo escolhidos por algum critério para serem donos do capital. Então, o professor de Economia revelou que, no ano seguinte, se valeria da mesma regra para definir os donos do capital: os três melhores alunos seriam os donos do capital novamente. Então, os desejosos de sair dessa vida, olhando as notas dos donos do capital – todas acima de 8 – perceberam que nunca poderiam ser um dos três, com suas médias inferiores a 7.

A conclusão óbvia

Pois eis que o capitalismo funciona sim: para uma minoria, funciona muito bem; às custas de uma população mediana que sustenta o sistema com seu trabalho (alguns desejosos de entrar para a minoria – um ou outro até consegue, e vira notícia e exemplo para todos os outros de que “o capitalismo funciona”); e excluindo de vez aqueles que, por uma razão ou por outra, não têm um “desempenho econômico” desejável pelo mercado.

3 comments
strikerhero77
strikerhero77

Muito bom artigo, vale a pena ler. 

Se puder gostaria que me ajudasse com uma dúvida: no comunismo, quem seria o detentor dos meios de produção? Eu pensava que era o Estado, mas li em um outro artigo aqui e ele deu a entender que não, seria então o proletariado? Qual seria então o papel do Estado no comunismo?

Se puder responder, agradeço, se for muito complexo, não tem problema em não responder.

valeu!

UmSerPensante
UmSerPensante moderator

@strikerhero77 olá! Respondo com toda a certeza que os meios de produção devem pertencer ao proletariado! Algo como uma cooperativa, uma autogestão. A Iugoslávia, de Josip Tito, seguiu este modelo, e não o modelo centralizado no Estado como foi o soviético.


Na verdade na verdade, o "Estado Comunista" tem como papel a transição do capitalismo para o Comunismo, que não tem Estado. Creio então que alguns dos papéis de um Estado Comunista é: efetuar a reforma agrária; desmontar a máquina capitalista feita de bancos, juros, bolsas etc.; efetuar a transição da propriedade privada dos meios de produção para a autogestão; e, principalmente, efetuar uma revolução educacional, em que não seríamos educados para servir de mão-de-obra somente, mas para sermos cidadãos: aulas de Política, de Psicologia, de Direito, de Economia, de Administração (por causa da autogestão), de Filosofia. Pois não há como o sistema evoluir sem que o ser humano evolua.

Tem um artigo meu aqui sobre Revolução Educacional tb, caso queira dar uma olhada: http://umserpensante.eu.org/revolucao-educacional-vamos-mudar-o-mundo/


Obrigado por se interessar pelo artigo e comentar :) 

Um abraço

"um ser pensante"

strikerhero77
strikerhero77

@UmSerPensante @strikerhero77 Obrigado @UmserPensante. Acho que estou começando a entender. De fato eu tinha uma definição de comunismo bem "senso comum". Vou ler o artigo indicado e posteriormente tirarei um tempo para ler as obras do Marx. Valeu!