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Jornalismo da grande mídia — pão e circo para a burguesia direitista

Eu prestei um concurso mês passado, onde o texto em inglês para interpretação falava sobre como o jornalismo está incorporando elementos do humor e entretenimento, e o humorismo, por sua vez, elementos do jornalismo. Pensei comigo: “e não é que é verdade?”. Cito como exemplos as incursões do Arnaldo Jabor no Jornal Nacional, da Rede Globo, e o Programa CQC, da TV Bandeirantes (“Band”).

Arnaldo Jabor - entretenimento para a burguesia de cabeça pequena
O cineasta frustrado Arnaldo Jabor, tentando ser comentarista político – jornalismo e entretenimento de quinta categoria para a burguesia de cabeça pequena

Isso não seria problema, se as consequências dessas abordagens não ultrapassem os limites do que é jornalismo e do que é entretenimento. Porém, os veículos jornalísticos da grande mídia nacional chegaram a um ponto de medíocridade tão absurdo, que é mais fácil obter um ponto de vista mais jornalístico e imparcial em programas como o CQC do que em revistas como a Veja e os telejornais da Globo.

Ok, muitos argumentam que é impossível a um veículo jornalístico privado ser totalmente imparcial, pois sempre refletirá, em maior ou menor grau, a visão de seu proprietário. Mas eu costumo dizer o seguinte: “não é porque a perfeição é impossível que a gente tem que avacalhar”.

Ora, apesar de terem apoiado a ditadura de forma descarada enquanto essa vigorava, quando o país voltou a ser uma democracia, os veículos jornalísticos faziam lá a sua oposição, mas de uma forma mais velada, até mesmo respeitando certos limites. Afinal, apesar de seus proprietários terem posições definidas, entre as pessoas que trabalhavam para eles certamente existiam aqueles que tinham princípios e zelavam pela imparcialidade e pelo jornalismo decente. Porém, com a subida de um partido de esquerda ao poder — a eleição de Luis Inácio Lula da Silva — e com a perda total do prestígio dos partidos de direita (PSDB, principalmente) e seus líderes, a parte da sociedade brasileira que segue o pensamento direitista (que inclui trabalhadores dos estados mais conservadores como SP, PR e SC) parece ter entrado em desespero. Sem uma representatividade política a altura dos adversários à esquerda, apelaram para a mídia.

Entre os simpatizantes de esquerda, é comum designarmos a grande mídia nacional como o PIG: Partido da Imprensa Golpista. Eis a definição do site “Conversa Afiada”, de Paulo Henrique Amorim:

Em nenhuma democracia séria do mundo jornais conservadores, de baixa qualidade técnica e até sensacionalistas, e uma única rede de televisão têm a importância que têm no Brasil. Eles se transformaram num partido político — o PiG, Partido da Imprensa Golpista

 

PIG - O Partido da Imprensa Golpista
PIG – O Partido da Imprensa Golpista

Bem, desde que a imprensa assumiu o papel de partido político de oposição, sua credibilidade arruinou-se. Isso se pode notar pela popularidade altíssima dos governos Lula e Dilma, mesmo com o combate incessante da grande mídia. Claro que algumas denúncias devem ser verdadeiras, mas já não se sabe quais, e nem até que ponto. Também não se sabe se existe alternativa melhor ao governo atual, já que a imprensa não é mais fonte de informação confiável, imparcial.

Assim, para manter as vendas e a audiência, revistas como a Veja, jornais como o Estadão e redes de televisão como a Globo estão apelando para o novo conceito de jornalismo: o jornalismo de entretenimento. Comentaristas caricatos, previsíveis, medíocres como Diogo Mainardi, Reinaldo Azevedo e Diogo Mainardi nada mais são que palhaços a serviço do circo que foi montado para entreter aqueles que ainda acreditam numa visão de mundo ultrapassada, onde os Estados Unidos são o exemplo a ser seguido, o capitalismo é a solução de todos os males do mundo, o Brasil vive constantemente ameaçado pela iminência de uma revolução bolchevique, São Paulo é o umbigo do país e aqueles que não concordam com tudo isso são ignorantes incapazes de enxergar a “verdade” que apregoam.

A imprensa da grande mídia tornou-se insuportável até mesmo para os direitistas sinceros — aqueles que acreditam que o capitalismo pode ser reformado e se tornar um sistema mais justo (eu não acredito nisso, mas respeito, por isso os cito aqui), que privatizações bem feitas e um Estado mínimo podem sim levar a um país melhor.

Lapso -- A quem Veja se dirige? Em nome de quê? A quem Veja quer convencer?
Lapso — A quem Veja se dirige? Em nome de quê? A quem Veja quer convencer?

A primeira capa foi à beira da eleição presidencial.
A segunda capa foi logo após a aprovação da PEC que
garante direitos às trabalhadoras domésticas.

Na primeira capa Veja lamenta o fato de a eleição estar na mão de gente assim:
mulher, pobre, negra, sem educação.

Na segunda capa Veja lamenta
uma lei que vai fazer o trabalho doméstico ser executado por gente assim:
homem, branco, classe média, engravatado.

Na primeira capa Veja diz “ela”.
Na segunda capa Veja diz “você”.
Fonte: perfil de Gabriel Oliveira no Facebook

Os veículos jornalísticos tornaram-se previsíveis. A única dúvida é quantas edições haverão entre uma edição da Veja falando mal do Lula e do governo Dilma, com uma “revelação bombástica” e uma capa digna de filme de terror, e a próxima. Já se sabe de antemão que a Miriam Leitão (belo sobrenome para uma comentarista do PIG) vai falar algo desastroso sobre o governo, seja verdade ou não; havendo coisas boas também a se dizer, ou não. Já se sabe que a matéria anunciada sobre Cuba não mostrará nenhuma conquista do país, que irá pintar o país como um inferno na Terra, mesmo que hajam países capitalistas fiéis ao modelo neoliberal e aos EUA em situação muito pior. Já se sabe que o próximo jornal virá recheado de denúncias contra membros dos partidos de esquerda, das quais muitas se verificarão mais tarde serem falsas — mas a inocência certamente não sairá em nenhuma manchete; e de comentários raivosos, apelidos e xingamentos como “esquerdopata”, “apedeuta” e “idiota” (como Reinaldo Azevedo sobre Oscar Niemeyer), vindos tanto dos comentaristas quanto de seus leitores.

É uma pena, pois assim não há debate. E, quando queremos ter uma visão um pouco mais neutra do cenário político, acabamos tendo de recorrer a programas humorísticos como o CQC ou MTV Comédia. Mesmo que ainda haja algo de tendencioso, é menos do que os próprios programas e publicações “jornalísticas”. Políticos e situações de ambos os lados são expostos, criticados e usados no humor.

Mônica Iozzi, do CQC -- humor político mais sério do que o jornalismo atual
Mônica Iozzi, do CQC — a musa do programa é a principal encarregada da cobertura política, fazendo do CQC uma fonte de informação mais imparcial do que o jornalismo do PIG

Marcelo Adnet, na MTV, ironizando Arnaldo Jabor e contribuindo mais para o debate político como humorista do que o próprio suposto comentarista político

Matéria do CQC, da Band, onde vários partidos são abordados, criticados e expostos. Mais imparcial do que os veículos jornalísticos, que tendem a criticar demasiadamente a esquerda e esconder os fatos negativos da direita.

Com esse material visual, vou ficando por aqui. Acho que já deu pra “pôr pra fora” o que vinha observando sobre o assunto, e o texto com que me deparei no concurso me fez refletir. Espero que o artigo tenha contribuído de alguma forma. Pelo menos mais do que os comentários do Diogo Mainardi e Arnaldo Jabor :-P

Abraços

Um ser pensante