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Syd-Barrett1

Pink Floyd – fase psicodélica: 1966 a 1972

Interpretação e tradução de “Poles Apart” em parceria com Pedrocker.

Poles Apart

Pólos Opostos

Did you know…
it was all going to go so wrong for you?
And did you see…
it was going to be so right for me?
Why did we tell you then
You were always the golden boy then
And that you’d never lose that light in your eyes
Você sabia…
que tudo estava dando tão errado pra você?
E você viu
que [as coisas] íam tão bem pra mim?
Por que dissemos a você então
Que você sempre fora o garoto de ouro
E que você nunca perderia aquele brilho no olhar?

“Poles Apart” é uma canção do último álbum de estúdio do Pink Floyd, “The Division Bell”, de 1994. É uma letra claramente escrita em primeira pessoa, referindo-se a mais alguém que, comparados, passariam a seguir caminhos diferentes. Mas, mesmo as coisas “dando tão errado” para um e “indo tão bem” para outro, o autor insiste em dizer ao outro que tudo continua como antes, que essa pessoa “sempre fora o garoto de ouro” e “nunca perderia aquele brilho no olhar”. E pergunta a si mesmo — como que lamentando — o porquê de ter agido dessa forma.

Syd Barrett, o Garoto de Ouro

Syd Barrett
Syd Barrett

Após várias tentativas e formações, finalmente o Pink Floyd surgiria para o mundo em 1966, com o festejado single “Arnold Layne” — segundo interpretações, a estória de um rapaz que furta roupas femininas para satisfazer sua fantasia de vestir-se com elas. Tanto a letra quando o nome da banda são obra de Syd Barrett, vocal, guitarra e o primeiro líder da banda.

Confesso eu que não sou profundo conhecedor do Pink Floyd com Syd Barrett, e na verdade eu fico muito irritado quando encontro algum material (documentário, vídeo, livro, revista) que diz ser sobre a história do Pink Floyd, mas dedica-se quase que exclusivamente a esse período que mal chega a 1968. Não quero desmerecer o trabalho dele, longe disso, mas acho que é exatamente isso — desmerecer — o que é feito com todos os outros mais de 40 anos de existência que a banda tem.

Ok. Meu primeiro contato com a “era Barrett” foi bem indireto: por meio da versão de “Astronomy Domine” no CD Pulse (1995). Então, claro, logo que pude, fui conferir a versão original pertencente ao primeiro álbum, “The Piper at the Gates of Dawn” (1967). Pra falar a verdade, esta é a única faixa deste álbum que realmente chama minha atenção.


Pink Floyd (com Syd) — Astronomy Domine

Mas essa não foi a opinião de muitas pessoas na época, assim como não é a opinião de muitas pessoas ainda hoje. “The Piper at the Gates of Dawn”, junto com “Dark Side of the Moon” e “The Wall”, forma a tríade dos álbuns do Pink Floyd mais aclamados pelos fãs da banda, do Rock e da Música, sendo considerado inclusive, junto com “Sgt. Peppers Lonely Hearts Club Band”, dos Beatles, o marco inicial do que se chama Rock Progressivo.

Syd era o principal responsável pelas composições da banda, o único na época com talento para compôr os chamados “singles” (canções gravadas em separado, seja para promover uma banda, um disco antes de seu lançamento, seja em resultado do sucesso em especial dessa canção após o lançamento do álbum), na época uma ferramenta muito poderosa para o sucesso de uma banda ou artista. Além de “Arnold Layne”, outro single muito famoso é “See Emily Play”, lançado pouco depois.

O ouro perde o brilho

Hey you…
did you ever realise what you’d become
And did you see…
that it wasn’t only me you were running from
Did you know all the time but
it never bothered you anyway
leading the blind
while I stared out the steel in your eyes
Ei você…
alguma vez se deu conta do que você se tornaria?
E você viu…
que não era só de mim que você estava fugindo?
Saberia você o tempo todo,
mas nunca se incomodara, de forma alguma
guiando os cegos
enquanto eu observava a frieza em seus olhos?

Tudo corria bem para a nova banda inglesa, até que seu admirado líder começa a apresentar comportamentos estranhos. Parecia e aparecia cada vez perdido e desligado, em meio a ensaios, shows, e mesmo programas de TV. Permanecia tocando apenas um acorde, perdia horários, apresentava-se sujo e desarrumado, não dava continuidade aos diálogos.

Se não se sabe ao certo quais dos outros membros do Pink Floyd usavam drogas ou quanto, em relação a Syd nunca houveram dúvidas: ele abusava. E começava a sentir os efeitos.

No segundo álbum do Pink Floyd, “A Saucerful of Secrets”, há somente uma música de Barrett. Em 1968 ele já não conseguia mais seguir rotinas de estúdio ou de shows, mas ainda parecia poder compôr. Então os outros membros da banda resolveram chamar David Gilmour para auxiliar, deixando ao gênio apenas a função da genialidade: compôr. Mas mesmo isso parece não ter dado certo, apesar de, com a ajuda ora de Waters, ora de Wright, ora de Gilmour, Syd ter lançado dois álbuns solo.


Syd Barrett – Bob Dylan Blues

O segundo destes álbuns, “Barrett”, inclui uma música que David Gilmour começou a tocar em suas apresentações a partir de 2000, que pode ser vista em seu acústico e nos seus shows mais recentes: “Dominoes”. Recomendo, tanto com Gilmour quanto a versão original!

Outra canção muito interesssante de Syd é “Bob Dylan Blues” que, como sugere o título, é uma sátira sobre Bob Dylan. Reza a lenda que Syd havia composto essa música ainda antes das atividades com o Pink Floyd, mas Gilmour (que havia sido seu professor de guitarra, vejam só) deveria conhecê-la e encorajou-o a fazer uma gravação. Porém, talvez para evitar polêmica com o grande ídolo na época, a faixa permaneceu guardada até 2001, 2002… quando então David Gilmour resolveu liberá-la ao público.

Depois disso, adeus Barrett. Não, ele não faleceu exatamente, mas sua mente sim. Apagou-se. Não era mais Syd que estava naquele corpo. A não ser por um “causo” de que em 1975, durante as gravações de “Wish You Were Here”, ele teria aparecido nos estúdios se dizendo “pronto”, Syd Barrett nunca mais se lembraria de quem ele era ou da banda que liderara. Fisicamente, Syd Barrett faleceu em 2006, com 60 anos de idade.

Por tudo isso, na segunda estrofe de “Poles Apart”, Gilmour pergunta-se, atônito, se Syd sabia o que estava lhe acontecendo. Teria ele apenas “deixado acontecer”? Estaria ele fugindo não só da fama, dos companheiros de banda, mas também de si mesmo? E, sabendo o que estava fazendo, sabendo das consequencias,… teria Syd seguindo propositalmente o caminho oposto ao de Gilmour, se entregado à perdição, aberto mão de sua própria alma?

Queda e renascimento do Pink Floyd

A perda de um líder costuma abalar e até mesmo acabar com bandas de rock. Assim foi com Jim Morrison e The Doors, Renato Russo e Legião Urbana, John Fogerty e Creedence, Freddie Mercury e Queen. E o Pink Floyd enfrentaria um dilema semelhante com a perda de Syd.

Em primeiro lugar, não havia mais singles. Ninguém na banda tinha o mesmo talento de Syd para compôr uma canção por si só surpreendente e arrebatadora. A solução foi entregar-se a longas composições, que poderiam ser executadas ao vivo na base do improviso. Assim, surgiram “A Saucerful of Secrets”, “The Narrow Way” (dividida em três partes), e a primeira a ter uma repercussão relevante: “Atom Heart Mother”, pertencente ao álbum de mesmo nome, conhecido como “disco da vaca” (se ainda não sabe o porquê, adivinhe que animal estampa a capa). Mesmo canções mais curtas como “Set the Controls for the Heart of the Sun”, eram “esticadas” ao vivo.

Não que as novas composições fossem ruins. O problema era a comparação com o revolucionário e cultuado primeiro álbum. O fantasma que perseguia os membros da banda: “sim, legal… mas,… não se compara ao Piper at the Gates, e os deixava confusos, irriquietos, preocupados. Todos sentiam falta de Syd Barrett.

Esse fantasma só começaria a ser exorcizado em 1971, com o álbum “Meddle”. A longa faixa de 23 minutos, “Echoes”, não é longa à toa. Embora ainda não tenha sido suficiente para equiparar o novo álbum ao primeiro, é nesta música que os membros do Pink Floyd encontram-se pela primeira vez com todo o seu potencial. Pra mim, é a melhor música de tudo o que já ouvi, mas não vou rasgar seda demais neste artigo pois já falei bastante dela na minha lista de 10 músicas com mais de 10 minutos :-)

E sim, lembro-me bem de David Gilmour comentando sobre “Echoes” em um documentário, dizendo que ela fora responsável por mostrar a eles mesmos do que eram capazes: “estamos prontos“. E provariam isso com o próximo álbum e o início de uma nova fase.

Polos opostos

The rain fell slow,
down on all the roofs of uncertainty
I thought of you
and the years and all the sadness fell away from me
And did you know…
I never thought that you’d lose

that light in your eyes
A chuva caiu lentamente,
sobre todos os telhados da incerteza
Eu pensei em você
e todos os anos e toda a tristeza me abandonaram
E você sabia…
Eu nunca achei que você fosse perder
aquela luz em seus olhos

Então, enquanto o Pink Floyd seguiria o caminho do sucesso com seu novo membro, Syd seguiu o caminho oposto. Se “Poles Apart” carrega em suas primeiras estrofes um certo ar de culpa por isso, nessa terceira estrofe David Gilmour se recompõe da tristeza após pensar sobre tudo… Afinal, nem David, nem os colegas de banda, nem os fãs, jamais acharam que Syd fosse perder aquela luz em seus olhos. Se existia alguém que pudesse saber o que aconteceria, infelizmente essa pessoa era somente Syd.

Bom, fechamos este artigo com um vídeo recente de Gilmour e Wright tocando, entre canções de outras épocas, “Arnold Layne” e “Dominoes”; e a frase que o caro colega Pedrocker me deixou ao final da interpretação que me enviou, e que mesclei aqui com um pouco da história do Pink Floyd com (e sem) seu primeiro líder:

A música está por toda a volta; basta ouvi-la!

Abraços e até a próxima :-)


Gilmour e Wright cantam músicas de Syd