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“Bullying” — série “A Vida de um Ser Pensante”

Continuando a série de artigos sobre temas que fizeram parte da minha vida, compartilho com vocês meu relato sobre “bullying”. Não para choramingar, pois estou praticamente curado das feridas; mas para informar, dar meu testemunho de que é um tema que deve ser levado a sério, ser solidário aos que sofreram e sofrem situações semelhantes, e dizer que há sim uma luz no fim do túnel.

Introdução

Bullying é uma situação que se caracteriza por agressões intencionais, verbais ou físicas, feitas de maneira repetitiva, por um ou mais alunos contra um ou mais colegas. O termo bullying tem origem na palavra inglesa bully, que significa valentão, brigão.

fonte: http://revistaescola.abril.com.br/crianca-e-adolescente/comportamento/bullying-escola-494973.shtml

Não me recordo exatamente quando foi que li essa palavra pela primeira vez… só sei que, apesar de ter ficado contente em ver esse tema estar merecendo a atenção da sociedade, me lembro daquela sensação de “puxa, agora é um pouco tarde…”.

Bullying
Bullying

Na própria fonte citada acima, pouco depois está escrito que “o bullying pode ocorrer em qualquer contexto social, como escolas, universidades, famílias, vizinhança e locais de trabalho.” No meu caso, ocorria em todos eles…

Por eu ser introvertido, minha infância pode ter começado um pouco diferente das outras crianças… mais quieto, mais “bobinho”, solitário… mas não me lembro de problemas ou tristeza. Eu tinha amigos, brincava, jogava bola na rua (muito!). Eu acho que as coisas começaram a mudar nos meus 8 anos de idade.

Foi quando descobriram na escola que eu tinha miopia. E há 20 anos atrás vocês podem imaginar o quanto era grossa uma lente para 2 graus de miopia, mais alguma coisa de astigmatismo. Logo vieram os apelidos básicos de “quatro-olho”, “fundo-de-garrafa” etc. Mas até aí tudo bem.

Começa o inferno

Hoje, entre nós adultos, é claro que as coisas não ganhariam tal proporção, mas lembrem-se, eu era apenas uma criança de 8, 9 anos… de uma geração anterior, e um pouco mais “ingênua” do que a média. Em um período onde a nossa auto-estima ainda está em formação, não é lá muito saudável que todos a sua volta comecem a repetir que você é “feio”, te apelidarem de “ET”, “bichinho” etc.

O problema não era nem os apelidos em si, mas as situações, a constância e a maldade nas vozes e nos olhares. E mesmo quando era só brincadeira… por que diabos exatamente essa brincadeira? É sempre a mesma? Sempre e só comigo? Por quê? Algumas frases são difíceis de esquecer. Não só pelo que foi dito, mas pela maldade gratuita que expressam, e na dor que causaram quando eu era mais jovem e frágil. Uma foi quando eu estava jogando bola com colegas na rua, eu deveria ter uns 10 ou 11 anos, e ouvi dois vizinhos comentarem: “esse moleque é feio mas tem um rabo hein… já pensou um cabo de vassoura ali?”; ou quando um conhecido da família chegou numa tarde em casa e disse pra minha mãe: “olha como esse seu filho é feio, você não tem vergonha de ter um filho feio assim?”. Nem isso foi capaz de mexer com a passividade dos meus pais… mas não entrarei nesse mérito.

Bom, quando chegou a pré-adolescência e adolescência, o estrago estava feito. Gostar de alguma menina era sofrimento na certa. Na minha mente atordoada, não havia nenhuma possibilidade dela retribuir. Em cursos, estágios, reuniões de família, a ladainha só aumentava. E até mesmo quando eu estava simplesmente caminhando na rua e passava por algum grupo de moleques desconhecidos, era só esperar pelo insulto. Dificilmente falhava. Cochichos, piadas, indiretas… ou diretas mesmo. Como uma vez em que um cara que eu nunca tinha visto na vida parou na minha frente e disse, com aquela maldade na voz que eu já estava acostumado: “cara, você não tem vergonha de ser feio desse jeito?”. Ainda se houvessem “manifestações em contrário”, uma menina se “aproximasse” de mim por exemplo, nem que fosse uma vez por ano, tudo bem, eu poderia achar que fosse implicância ou sei lá… mas isso não aconteceu. Ok, dizem que não se deve esperar ou exigir nada dos outros… mas fica aquela perguntinha básica: não se deve esperar nada de bom né, porque o mal ninguém pensa duas vezes pra fazer…

Cabeça baixa

Ir ao colégio, ao curso de informática, ou até mesmo sair na rua se tornou um suplício. Não tirava fotos em nenhuma ocasião. Com o tempo, comecei a tentar andar de cabeça baixa pra ver se ninguém olhava o meu rosto. Depois comecei a usar boné. Não adiantou muita coisa. Não adiantava tentar reagir também. Se eu reagisse verbalmente, todos sabiam como me atingir. Fisicamente então nem pensar, além dos motivos óbvios eu não era exatamente forte (geralmente era o mais magro da turma) e, mesmo que fosse, ainda tinha o óculos pra servir de desvantagem. O jeito era aguentar calado, chegar em casa e chorar…

Eu acho que a coisa só não foi pior porque haviam pessoas que gostavam de mim… adultos, professores, amigos de verdade que me admiravam e respeitavam. Eu era um bom aluno e, até por ser introvertido, muito comportado. Sempre me dei bem com os adultos. Se alguma coisa de mais grave acontecesse comigo, se a coisa partisse para a agressão física, certamente haveriam consequências; acho que foi o que me “salvou”.

Enfim, paz

O “bullying” só diminuiu aos 17 anos, último ano do antigo 2º grau. Os insultos se tornaram bem raros, até pararem de vez uns 3 ou 4 anos mais tarde. Mas aí eu já estava psicologicamente acabado. Minha auto-estima era zero. Me tornei deprimido, tímido, pessimista… com uma infância prejudicada e uma adolescência destruída. Nenhuma namorada, nenhuma “historinha” pra contar… nem um beijo sequer. Isso me magoou muito, muito mesmo. E… o que eu podia fazer? Alterar meu DNA?

O que senti que dava pra fazer, eu fiz. Comecei a me impôr. Eu tinha 19 anos quando estagiava numa escola de informática. Logo o filho do patrão começou com piadinhas. Um dia chamei ele para uma sala vazia, cerquei-o num canto e disse, olhando firme nos olhos dele, com raiva: “olha aqui, eu já tive muito problema na minha vida com esse tipo de brincadeirinha, eu não vou aceitar mais isso tá ouvindo? Você vai parar com essa palhaçada agora!”. A única coisa que ele respondeu foi: “tá, tá bom, não falo mais nada não, aff…”

Se o “bullying” parou quando eu tinha mais ou menos 20 anos de idade, das consequências — ao menos grande parte — eu só me livrei com psicoterapia, quase 10 anos mais tarde. Foi só assim que consegui reconstruir minha auto-estima, tijolinho por tijolinho. Terapia… nossa, finalmente alguém que me ouvia e não tentava diminuir meu sofrimento como se não fosse nada! Me lembro de quando minha terapeuta me pediu… fotos (!) desse período… pra ter uma noção melhor, talvez… só que meu álbum de fotografias parece a de um viciado em drogas que se recuperou depois de muitos anos: tem retratos até 8 anos de idade… depois um imenso vazio… só vai ter uma foto de quando participei de uma apresentação de um curso de música, já com 19 ou 20 anos. De uma forma ou de outra, o álbum de fotografias acabou sendo bem ilustrativo…

Conclusão

Exagero? Quando descobri que esse tipo de situação ganhou até um nome e estava sendo discutido com seriedade, parei de dar ouvidos às pessoas que estão sempre prontas a minimizar o sofrimento dos outros. Para os que ainda têm dúvidas do quanto foi ruim, basta lembrar que os insultos duraram anos, repetidamente, dos 9 aos 15 anos (o período de maior intensidade), nas mais diversas situações e formas. Sempre a aparência física, da mais sutil brincadeira de colega ao insulto mais maldoso de um adulto, sempre o mesmo alvo: eu.

Então, aqui estou eu, alertando para a importância de se estar atento sobre o “bullying”, pedindo para que se respeite o sofrimento daqueles que o sofreram ou ainda sofrem. Por outro lado, também deixo aqui a mensagem de que há saída. É possível reconstruir-se, senão sozinho, com a ajuda de amigos, familiares, pessoas que compreendam… e deixo meu testemunho de que a psicoterapia foi eficaz para mim.

Não irei menosprezar o sofrimento de ninguém só porque consegui sair dessa. De jeito nenhum. É uma situação grave sim e merece respeito e cuidados. Mas tente não deixar que matem a sua alma. No fim, você verá que o “bully” sim é uma pessoa fraca, covarde e estúpida, tão vazia que precisa rebaixar outra pessoa para se sentir “por cima”, precisa se alimentar da fragilidade alheia.

Aguente firme. Um dia o sol irá brilhar.

Abraço,

Um ser pensante