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Zeca Camargo e Cristiano Araújo – música em latas

Sabem aquela confusão do Zeca Camargo, que fez uma resenha crítica sobre a morte do cantor sertanejo Cristiano Araújo? A crítica dele, que inclui opiniões sobre o gosto musical do povo brasileiro, soou ofensiva para a família e os fãs do cantor, causando muita polêmica.
A verdade é que existe um quadro no nosso país (e não só aqui) que, apesar de agradar a maioria, desagrada uma minoria que não é tão pequena assim. Enquanto alguns ritmos e estilos de música, como o funk carioca e o sertanejo universitário (assim como o axé e “pagode” há um tempo atrás), inundam os programas de rádio e TV, notícias dos portais de internet, as festas de família, as baladas e os sons automotivos, todos os outros ritmos carecem de espaço e reconhecimento por estes mesmos veículos e ambientes.

Zeca Camargo e Cristiano Araújo: polêmica
Zeca Camargo e Cristiano Araújo: polêmica

Não se trata de estilo musical

Em primeiro lugar, que fique claro: ao menos neste artigo, não se trata de colocar um estilo musical “acima” de outro. Devemos ter a mente aberta e, apesar de termos nossos ritmos e artistas preferidos, no mínimo respeitar as culturas dos mais diversos espaços e tempos. Citando exemplos superficialmente, no Amazonas temos o boi-bumbá, em Pernambuco o frevo, a música sertaneja do norte do Paraná até Goiás, a música gaúcha dos Pampas, o samba carioca, assim como o rock teve seu centro em Brasília nos anos 80 e por aí vai. São expressões culturais autênticas de cada região do país e não faz nem sentido querer que seja diferente. Quando um gaúcho toca música gaúcha ou um goiano ouve música sertaneja, está sendo simplesmente autêntico, e isso não tem preço nem medida.

Em segundo lugar, se um estilo musical é uma expressão cultural de um tempo e de um lugar, ela também é expressão da individualidade de um artista. De seus sentimentos, pensamentos, emoções; de sua cultura, sua técnica e criatividade. O mesmo que vale para um poeta, um escritor, um cineasta, um pintor ou um arquiteto, também vale para o músico.

Estilos musicais - Expressões individuais e culturais
Estilos musicais – Expressões individuais e culturais

E, em terceiro lugar, devemos saber que existe música para os mais diversos fins. Música para animar, dançar, para viajar e para “viajar”; para festejar, para desabafar, para protestar; música ambiente, música para passar o tempo, música para praticar esporte. Música para se ouvir sozinho, com a família, com os amigos; para pensar, para paquerar, para amar. Música para crianças, jovens e adultos; para trilha sonora de filme, de jogos e seriados. É direito de cada um gostar de músicas para as atividades e ocasiões que lhe apetecem, e é dever saber que todos esses tipos de música são necessários e agradam audiências diferentes em situações diferentes.

Não se trata de preconceito

A música é uma combinação de diversos fatores e, assim como outros produtos da criatividade e trabalho humano, pode ser avaliada segundo esses fatores. E uma avaliação bem fundamentada não pode ser jamais taxada como simples preconceito. Não quero incorrer no erro aqui de querer “medir” algo incomensurável — como no filme “Sociedade dos Poetas Mortos”, onde o rígido professor segue um método de “avaliação de poemas” usando um plano cartesiano. Mas, ora, se vamos comprar um carro, nós olhamos desempenho, economia, design. Se vamos comprar uma casa, nos preocupamos com a localização, o tamanho, se tem quintal, o encanamento. Ao analisar uma pintura, observamos o uso das cores, a destreza nas pinceladas, se o estilo é original, as sombras e efeitos. Critérios análogos podem ser aplicados a uma escultura ou um livro. Por que então seria errado ao menos iniciar uma reflexão sobre as canções que ouvimos, ou somos obrigados a ouvir?

Um novo estilo musical é inconfundível pela sua assinatura de ritmo. Isso vale para a valsa, o tango, o blues, o rock’n’roll, o axé e a música eletrônica. Um novo ritmo quase sempre surpreende, marca, divide épocas, até mesmo escandaliza quando surge ao mundo. Os diversos instrumentos — incluindo o(s) vocal(is) — que formam uma orquestra, uma banda, ou mesmo alguém sozinho cantando ao violão, precisam emitir suas notas musicais em harmonia a cada instante, formando, conforme o tempo passa e as notas são tocadas em seqüência, a melodia. Uma boa letra pode divertir, criticar, desabafar, contar uma estória, ou fazer história.

Elvis Presley: expressão autêntica de uma época
Elvis Presley: expressão autêntica de uma época

Eu sempre admirei as bandas de rock por seus membros serem responsáveis, quase sempre, por todos os componentes da música: composição e execução; da harmonia/melodia e letra. Sempre prestei atenção na voz, na linha melódica, nas guitarras base e solo, baixo, bateria, teclados. Admiradores do jazz, de música clássica e outros estilos e ritmos também podem se deliciar com técnica e talento na composição e execução das canções.

E, mesmo não sendo responsáveis por toda a instrumentação, artistas solo não podem ser desqualificados. Vejamos, por exemplo, Elvis Presley. Acredito que ele tenha composto poucas músicas, mas não esqueçamos que a voz também é um instrumento. E que voz poderosa ele tinha! Basta ouvir sua versão de “My Way”. Além do mais, se observarmos a originalidade de seu estilo, é impossível se dizer que ele não cumpre os requisitos essenciais: o de ser a expressão autêntica de sua individualidade, e expressão cultural autêntica de um espaço e, principalmente, uma época.

Temos artistas solo com outras características marcantes: Jimi Hendrix, um guitarrista fenomenal e voz poderosa, poucos conseguem tocar frases tão complexas de guitarra e cantar ao mesmo tempo como ele; Almir Sater, boa voz, letras inspiradas, ótimo compositor, cantor e executor de melodias sertanejas; Bob Dylan e Chico Buarque, que não são notáveis como cantores mas letristas de primeira categoria. Eu, pessoalmente, considero Lulu Santos o artista mais capaz de encaixar a Língua Portuguesa em uma bela melodia.

Enfim, o objetivo desta parte do artigo é tentar passar uma idéia de como artistas dos mais diversos estilos podem se destacar por habilidades diversas uns dos outros. Lamartine Babo, Tom Jobim, Bezerra da Silva, John Lennon, John Coltrane, Raul Seixas, Cássia Eller, Dream Theatre, Anna Maria Jopek… todos eles têm suas qualidades notáveis, seus pontos fracos, seu estilo, e são expressões originais de sua individualidade, do seu tempo e/ou do seu espaço.

Mídia e mercado

E, como eu disse, também existem músicas que não foram feitas para causarem impacto por suas letras, nem para serem virtuosas na melodia, mas apenas para diversão e distração; para servirem de trilha sonora para festas e azaração. Que não são feitas para cérebros ávidos por estímulos, mas apenas para mexer com o corpo ou expressar os desejos de um coração simples, romântico e apaixonado. Ora, que seja! Estas músicas devem existir, assim como existem as ocasiões em que elas se encaixam. E se um artista tem talento para fazer músicas com estas finalidades e que agradem um público, então que as componha, toque e/ou cante. Se esse público está apenas esperando uma “onda do verão” para embalar as festas na praia, e daqui um ou dois verões, terá esquecido completamente esta onda para curtir a próxima, que seja! As músicas não têm obrigação de serem todas clássicas e eternas.

Música em latas

O que me incomoda, incomoda o Zeca Camargo e, provavelmente, incomoda aqueles que se importam verdadeiramente com a música é a desproporção entre o talento e relevância do artista e estilo, de um lado, e o espaço dado pela mídia e pelo mercado, de outro.

Uma parte do público da música no Brasil não tem um gosto musical definido. São pessoas que, por algum motivo (não entrarei neste mérito), agradam-se com qualquer coisa que a mídia diga que “é sucesso”, “está na moda”. E, se prestarmos atenção nas últimas “ondas” que varreram o país nas últimas 2 décadas (É o Tchan, Sandy e Jr, Latino e coisas do gênero), são artistas medianos com algum tipo de carisma e apelo popular, mas que dificilmente compõem uma letra ou melodia relevante, ou cantem ou toquem um instrumento de forma particularmente especial. Neste momento, temos aí uma infinidade de MC’s do funk e duplas de sertanejo universitário lotando os programas de TV, eventos e festas, baladas e barzinhos, sons de carro e de lojas de eletrodoméstico, notícias dos portais de internet e sugestões de vídeo do YouTube, numa histeria que, natural e compreensivamente, vai esgotar a paciência do mais dedicado monge budista.

Tenho a impressão que, antigamente, os ídolos é que alcançavam o sucesso e a mídia, com seu talento, sua arte, seu esforço e dedicação; e que, hoje, os ídolos são fabricados: pega-se uma música de sucesso no exterior, encomenda-se uma letra com um compositor qualquer, junta-se alguns músicos… e basta que o sortudo tenha uma voz razoável e algum carisma para fazer as jovens mocinhas gritarem e dançarem (isso se os gritinhos histéricos ao fundo do programa de TV também não forem gravados).

O grande erro

Ou seja, são apenas músicas para divertir e distrair, nada mais. E calma, não estou me contradizendo. Eu não estou querendo dizer que estas músicas não devam existir. Sustento tudo o que eu disse no início do artigo, todo tipo de música deve ter seu espaço. O que eu estou querendo dizer é que não há nada que justifique tamanha histeria a cada vez que a indústria fonográfica e a mídia inventam um novo fenômeno. É injusto que artistas tão ou mais talentosos, de outros estilos, tão ou mais autênticos, belos, alegres ou qualquer outra coisa, não tenham o mesmo espaço. É injusto que fãs de estilos que não foram feitos para as mocinhas gritarem histericamente e dançarem enlouquecidas tenham a cabeça bombardeada de forma tão impiedosa, muitas vezes até dificultando a vida social destas pessoas.

Este bombardeio intenso também vai causar reações negativas intensas. Se não se tem maturidade suficiente, acaba-se criando uma rivalidade entre os estilos e artistas, e este é o grande erro que não pode acontecer. Não se pode, como o Zeca Camargo fez, dirigir essa raiva para o estilo ou um artista em particular, desrespeitando-o e desrespeitando as pessoas. E muito menos em um momento trágico de um ser humano, de sua família e das pessoas que gostam do trabalho. Acrescento ainda que ele talvez tenha descarregado em cima do artista errado, já que, pelo pouco que sei sobre Cristiano Araújo, parece ser um cantor sertanejo autêntico que vez ou outra fez uma música mais “midiática” para conquistar mais espaço. Neste mérito também não me aprofundarei, deixo para que vocês completem.

Em todo caso, o problema não é o estilo musical, como tentei deixar claro desde o início do texto; e nem o artista, e muito menos o ser humano por trás do artista. E sim a “martelação” na nossa cabeça o tempo todo, como se o que está “na moda” é a melhor coisa que já surgiu na História da Humanidade.

Este é o parecer.

E você, o que acha?

Abraços,

Um ser pensante.