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Kamen Rider Black – um seriado (não tão) infantil

Imagine que a humanidade descobrisse que, ao invés do Deus de Amor e Justiça em que grande parte do mundo acredita, nosso destino estivesse a total mercê de uma entidade maligna, cuja única preocupação é expandir seu poder e dominar todo o Universo.

Tal ser, chamado de “O Grande Rei” por seus seguidores, na verdade está chegando ao fim de mais um ciclo de vida, e precisa escolher seu sucessor a tempo. Este sucessor virá de uma luta até a morte entre dois escolhidos que, ao terem implantadas em seu corpo as pedras do poder KingStone, poderão se transmutar em poderosas criaturas, meio humanas, meio inseto.

A estória

Certo dia, enquanto o Japão presencia um eclipse solar, duas crianças nascem exatamente na mesma hora: Issamu Minami e Nobuhiko Akizuki. Seus pais são amigos e trabalham juntos com pesquisa arqueológica. Porém, os pais de Issamu (Minami Kotaro, na versão original) morrem em um acidente de avião, fazendo com que o Dr. Akizuki o adotasse. Sendo assim, Nobuhiko e Issamu crescem como irmãos.

Logo após os dois jovens completarem 19 anos, o destino de ambos começa a ser selado. Issamu e Nobuhilko são sequestrados e levados para a base dos Gorgom (seita dos adoradores do Grande Rei), a fim de serem submetidos à cirurgia para implantação dos KingStones em seus corpos. O Dr. Akizuki, que havia sido coagido a entregar seus filhos e acompanhava o procedimento, apenas ali descobre que a memória deles seria apagada. Sua esperança de que pelo menos um de seus filhos sobrevivesse ao destino reservado a humanidade foi por água abaixo e, tomado pelo desespero, tenta salvá-los. Na confusão, Issamu consegue escapar, mas Nobuhiko não tem a mesma sorte: continua nas mãos dos Gorgom que, tendo seus planos interrompidos, o submete a uma espécie de coma induzido até que consigam recapturar o outro candidato a sucessão.

Issamu, que já havia perdido seus pais biológicos, logo também perderá seu pai adotivo, assassinado pelos Gorgom devido ao ato de traição. Tomado pela mágoa e pela raiva, pela primeira vez Issamu usa conscientemente seus poderes, transformando-se em Kamen Rider Black, e destrói ali mesmo as criaturas responsáveis pela morte de seu pai. E agora, ele é a única esperança de salvação para seu irmão Nobuhiko e… para a humanidade… Mas, ainda pior: Issamu sabia que, caso não houvesse como salvar seu irmão de criação — lembram-se do começo do texto? — Issamu seria então obrigado a enfrentar seu próprio irmão em um duelo até a morte!

Observação: no Brasil, a tradução alterou o nome para Black Kamen Rider, às vezes aparecendo até mesmo o nome “Blackman”. Mas o correto é Kamen Rider Black. Kamen Rider é a franquia, ou conjunto de heróis, cada um com sua história. Para diferenciá-los, é acrescentado mais um nome ou sigla, por exemplo: Kamen Rider Blade, Kamen Rider Kabuto… Decade, Faiz, Blade, J, X, W… e até mesmo Kamen Rider Black RX, uma continuação de Kamen Rider Black (o único Kamen Rider a ter uma continuação direta com o mesmo ator).

Infância

Kamen Rider Black
Kamen Rider Black – longe de ter um aspecto “galante”, o herói assemelha-se a um besouro

Quando criança, o seriado Kamen Rider Black sempre me chamou mais a atenção do que os outros seriados japoneses do gênero (Jaspion, Jiraya, Flashmen etc.) no final dos anos 80, por vários motivos. Primeiro, porque ele não tinha muitas das coisas previsíveis dos outros seriados, como os monstrinhos que sempre entravam no início das batalhas só pra apanhar, ou a ressurreição do monstro como um gigante apenas para que houvesse a luta com um robô também gigante dos heróis. E segundo porque o Sr. Black, ao contrário da grande maioria dos super-heróis, não tinha “aparência” de bonzinho. Sua índole, sim, era inquestionável. Mas colocando-se lado a lado Kamen Rider Black e seu arqui-inimigo Shadow Moon, uma pessoa que não conhecesse a estória facilmente poderia se enganar na hora de apontar quem é o mocinho da trama.

Falando nas coisas que se repetem, é claro que haviam os dois golpes fatais, o golpe Inseto e o golpe Louva-a-Deus (que no original têm nomes bem mais interessantes: Rider Punch e Rider Kick). Mas eles tinham de ser aplicados com cuidado, e nem sempre resolviam tudo. Já a partir do episódio 18 (são 51 ao todo), com o surgimento do Espadachim Taurus, Black já percebe que sua vida vai ser ainda mais complicada do que já era…

O episódio perdido e a redescoberta do herói

Eu não nasci na era do YouTube (como vocês já devem ter desconfiado), e naquele tempo não havia a facilidade de hoje para se encontrar vídeos de qualquer tipo. E algo muito esquisito aconteceu com as transmissões de Kamen Rider Black no Brasil: o último episódio nunca foi exibido na TV. Imagine a frustração que era acompanhar toda a trama e, quando se pensava que íamos descobrir finalmente o que aconteceria na luta decisiva entre Kamen Rider Black e Shadow Moon, a surpresa: no outro dia, era transmitido o primeiro capítulo de novo… A frustração era tão grande que, 15 anos depois, a lembrança ainda persistia. Então, chegada a era do YouTube, fui procurar o último capítulo na internet… e encontrei! Inclusive, ele nem está dublado — nunca foi: é o único episódio que só se encontra com legendas.

A motocicleta vivente, Battle Hopper

Passado tanto tempo, de primeira senti um impacto negativo: obviamente, por ser um seriado infantil de 20 anos atrás, existem coisas que podem decepcionar os adeptos da era da tecnologia no cinema, da computação gráfica: montagens visíveis, monstros de espuma, pedras e paredes de isopor. Então, caso você não conheça o seriado, não espere ver algo com a qualidade gráfica do Homem de Ferro ou Homem-Aranha, até porque nem mesmo os filmes do Super-Homem daquela época chegavam perto desses padrões. E, se você for justo nas comparações, alguns pontos altos saltarão aos seus olhos: cenas em altitudes improváveis sem montagem aparente, ótima trilha sonora… e, além do próprio Black, Shadow Moon está muito longe de ser um monstro de espuma. Até hoje, é considerado um dos melhores vilões já concebidos entre todos os seriados do gênero. Também não podemos deixar de falar da Battle Hopper (gafanhoto de batalha), a moto vivente de Black, metade máquina, metade inseto. Aliás, uma coisa que caracteriza o seriado são as motos: a usada pelo Issamu quando na sua forma humana, a Battle Hopper e a Road Sector, mais tecnológica.

E, além disso, a trama é fabulosa. A estória de Black também é considerada uma das melhores do gênero

Drama do início ao fim

Ao contrário dos super-heróis de padrão estadunidense, Kamen Rider Black não vive romances ridículos e também não vive atrás de rabo de saia (haja saco pra aguentar aquele Tony Stark, aquela baboseira do Clark Kent com a Louis Lane, ou ainda aquela interesseira da Mary Jane Watson). Convenhamos, um super-herói de verdade tem mais com que se preocupar.

Por ironia do destino, o herói da estória carrega a marca do inimigo em seu peito

Issamu não escolheu ser super-herói, e também não acha nenhuma graça em ter sido transformado em um ser mutante. Ao contrário, por exemplo, do Peter Parker, Issamu Minami (ou Minami Kotaro, no original em japonês) revolta-se ao perceber as mudanças decorrentes dos super-poderes; afinal, ele fora invadido em um dos aspectos mais íntimos de um ser humano: o próprio corpo! Há de se notar também que, ironicamente, Black havia sido concebido para servir ao Mal, e só escapou a essa parte do seu destino devido a intervenção de seu pai… que pagou com a vida. Falando nisso, não me lembro de outra história onde um personagem tenha perdido os pais biológicos E os pais adotivos…

Tudo o que resta a Minami a partir de agora é usar seus novos poderes para vingar seu pai, salvar seu irmão e, claro, lutar contra os Gorgom.

O desenrolar

Muitas águas rolarão até que Kamen Rider Black e Shadow Moon se enfrentem. Na verdade, eles lutam uma primeira vez, onde o “Grande Rei”, ao perceber que Black venceria, trapaceia e, momentaneamente, transforma Shadow Moon novamente em Nobuhiko. Tomado de grande alegria, Black vai ao encontro do irmão! Porém, ao aproximar-se, Nobuhiko dá novamente lugar a Shadow Moon, que aproveita-se da situação para ferir gravemente o adversário e, no fim, vencer a batalha. Porém, provavelmente pela confusão dentro de si pela troca repentina de personalidades, e vendo o corpo de seu irmão completamente desprotegido, Shadow Moon vacila em dar fim ao combate… e sob os protestos do seu deus, retira-se.

A cena da queda de Black é forte… e muito, muito triste. Um episódio memorável em todos os aspectos: roteiros, tomadas, ação, emoção! E o melhor ainda estaria por vir, depois que um terremoto atinge o cenário do combate e lança o corpo de Kamen Rider Black no mar.

Suas amigas, Satie (Katsumi, no original) e Kyoko, respectivamente namorada e irmã de Nobuhiko, são obrigadas a fugir do Japão, assim como toda a população do país que agora está abandonado a sua própria sorte. Enquanto choram pelo herói e amigo, do alto do navio deixam em sua homenagem um ramo de flores… No fundo do oceano, uma criatura marinha (o monstro Baleia) desertora do império Gorgom, que Black conhecera em outra oportunidade, tenta usar de seus conhecimentos milenares na esperança de conseguir algum resultado. Eis então que, por força do destino, o ramo de flores deixado por Satie e Kyoko vai parar na entrada de sua toca… O monstro Baleia então o recolhe… e o coloca sobre o corpo do herói.

Nesse instante, o KingStone de Black reage intensamente, e seu corpo começa a brilhar! É dessa forma que, devido a dedicação de seu amigo e ao carinho de suas amigas, Minami Kotaro volta a vida! E, logo, sai ao encontro da batalha final.

Então, um evento que me chama muito a atenção: quando retorna a superfície, Minami encontra um Japão arruinado!!! Construções destruídas, algumas pessoas se escondendo pelos cantos, e até mesmo um grupo orando desesperadamente por salvação! 8-O Fico pensando se esse seriado foi mesmo feito para crianças!!! Aliás, falando nelas, eis que também surge um grupinho de meninos “brincando de Kamen Rider”, mas aquele que faz o papel do Black na brincadeira cai e entrega-se pedindo misericórdia aos Gorgom. Issamu olha tudo isso com muita tristeza e, literalmente, sente o peso do mundo em suas costas… Então decide que, da próxima vez, não deixará o dilema Nobuhiko/Shadow Moon tomar conta de sua cabeça… e lutará pra vencer.

O fim (vídeos)

O restante da história você pode acompanhar aqui:

Bom, pelo menos no básico, a história tem seu final feliz: Black vence a segunda luta e salva o planeta Terra. Mas nem em sua vitória, Minami Kotaro encontra sua paz. Além do triste destino de seu amigo monstro Baleia e até mesmo de sua companheira Battle Hopper, ainda é obrigado a ouvir de Shadow Moon: “você vai se remoer pelo resto de sua vida, acredite em mim, porque você matou Nobuhiko…”

Quem disse que ser super-herói é legal?… Quem disse que vida de herói é fácil?… E mais uma vez me pergunto: isso é um seriado… infantil?

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Bom, aí está. Essa é a história do meu super-herói de infância (e idade adulta) favorito.

Kamen Rider Black, o guerreiro da liberdade!

Pra finalizar, a tradução do tema de abertura: um surpreendente hino ao amor, ao planeta Terra e à Vida.

De quebra, imagine só: a música… é cantada pelo próprio ator que interpreta Kamen Rider Black: Tetsuo Kurata!

Um abraço a você, caro amigo ser pensante :)