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Revolução Educacional: vamos mudar o mundo?

O primeiro passo para um novo Brasil — e um mundo melhor — com saúde, segurança, trabalho reconhecido e melhor qualidade de vida para todos, começa com EDUCAÇÃO. Mas não é qualquer educação. Estou falando de Educação para a Cidadania. O que não será alcançado com alguns ajustes, uma simples reforma. Nós precisamos de uma Revolução Educacional.

Como é de costume, sempre que vou falar sobre um assunto, gosto de expôr uma linha de raciocínio desde a ideia inicial que me levou a escrever o artigo. E eu cheguei na ideia dessa Revolução Educacional observando e refletindo sobre as manifestações que aconteceram nas ruas das maiores cidades do Brasil no ano passado.

Protestos - Manifestações populares de 2013: grandes demais pra ignorar
Manifestações populares de 2013: protestos grandes demais pra ignorar

Manifestações populares de 2013: “do jeito que está, não dá mais”

O que aconteceu com o Brasil ano passado hein? O país do futebol, conhecido pela acomodação política do seu povo, de repente está enfurecido em volta dos estádios, em plena Copa das Confederações, protestando contra tudo e todos. Reunidos aos milhares, gritando, cantando hino, andando horas e horas por avenidas e centros do poder público.

É claro que tinha muita bobagem ali no meio, mas no meio de milhares, dezenas ou centenas de milhares de pessoas, tem de tudo. Não dá pra generalizar toda a movimentação pelo perfil de pequenos grupos estúpidos: o que aconteceu foi grande demais para ser minimizado. O dever de todo ser pensante é observar, analisar e refletir sobre o que houve. E algumas coisas puderam ser claramente notadas.

Aumento aqui, aumento ali… uma hora cansa!

Primeiro que, se não me engano, tudo começou com o aumento no preço das passagens de ônibus – principalmente no Rio de Janeiro e em Porto Alegre. “Quem vê de fora” pode até pensar: mas tudo isso por causa de R$ 0,20? Eu, a única coisa que acho estranho é o povo não ter estourado mais cedo. Mas enfim, o fato é que a gente já está “por aqui” de aumento, e pra não sentir isso, só não sendo do povo. Uma hora é ônibus, outra hora é gasolina, depois é feijão, gás, água, …. e depois o ônibus de novo… Agora, o salário que é bom, quando sobe é aquela miséria. Então, nesse sentido, eu acho que a população sentiu necessidade de extravasar a raiva de tanto aumento que estava entalada na garganta.

Não é a Dilma: tem culpa todo mundo

Protestos de 2013 - Rede Globo não escapou
Protestos de 2013 – Rede Globo não escapou

A não ser pelos “anti-PT” – aquele tipo que ainda tem medo da revolução comunista -, eu senti que a manifestação não era especificamente direcionada à Dilma Rousseff. Claro que ela também era um alvo, mas as críticas dirigidas a ela eram mais reivindicações na saúde, educação, ou pra vetar a tal PEC 37; e menos para que ela saísse da presidência (se haviam cartazes “Fora Dilma”, estavam perdidos no meio de milhares de mensagens diferentes).

Nem mesmo os gastos com a Copa do Mundo, uma das maiores motivações para os protestos, foram colocados nas costas da presidenta. Pelo conteúdo dos cartazes e também pelo que NÃO estava neles, o que eu percebi foi um descontentamento da população com a política em geral, incluindo os poderes em torno dela. Ninguém foi poupado: prefeitos, governadores (sendo Sérgio Cabral, do RJ, o mais duramente criticado nas ruas), parlamentares; em capitais ou cidades médias. Oligarquias regionais, Rede Globo, bancos, partidos políticos, polícia. Era “o povo contra todos”.

Políticos e partidos: não nos representam
(jardim abandonado)

Um ponto curioso dos protestos foi a aversão aos partidos políticos — e é aqui que o desenvolvimento desse artigo avança um passo. Os manifestantes fizeram questão de que nenhuma bandeira de partido político estivesse em meio a movimentação. Queriam deixar claro o descontentamento com a classe política.

Por um lado isso é compreensível. Parece que nada de bom surge daquelas bandas. Para o povo, só aumentos de preço, de impostos e notícias de corrupção. Para eles, regalias (cartões disso e daquilo, viagens, hospedagens de luxo…), votações de reajuste dos próprios (altos) salários, dinheiro de desvios e bicheiros, pouco trabalho (em dias por semana, em anos para se aposentarem…), etc. Contato entre as duas classes, só em época de eleição. Então, por esse ponto de vista, nada mais justo do que a população manifestar-se enfurecidamente contra “os políticos”; na verdade, é estranho que isso não tenha acontecido alguns anos antes.

Até os ladrões já foram melhores — a política está morta

Eleições 1989: boas ou ruins, mais lideranças políticas que hoje
Eleições 1989: boas ou ruins, mais lideranças políticas que hoje

Além de afastada das necessidades e anseios do povo, a política nacional nas últimas décadas perdeu seu único ingrediente interessante: a graça.

Lembro-me ainda hoje das eleições de 1989. Bons ou ruins, a verdade é que os candidatos eram muitos e fortes: Collor, Lula, Brizola, Maluf, Ulysses, Mário Covas, até o Sílvio Santos tentou tirar uma casquinha. Nesta ou em outras eleições, ainda surgiam outros nomes com certa relevância – nacional, regional ou por serem “pitorescos” – como Afif Domingos, Espiridião Amin, Fernando Henrique, Itamar Franco, Enéas Carneiro. Os debates na TV eram, no mínimo, interessantes e divertidos. Chegavam a ser polêmicos em alguns momentos. Os partidos se equivaliam em força: PMDB, PDT, PSDB, PFL, PT, PTB, PSB e muitos outros.

Porém, depois do primeiro mandato FHC, a “democracia” brasileira ficou concentrada e CHATA ao extremo! O cenário nacional se resumiu ao PT e ao PSDB. Mais especificamente, a Luís Inácio Lula da Silva e Fernando Henrique Cardoso. E ficou pior depois do segundo mandato FHC, um fiasco do qual seu nome nunca mais conseguiu se reerguer. Desde então, o PSDB caminha para a irrelevância, já que nem José Serra, nem Aécio Neves possuem mais do que um grupinho de eleitores radicais anti-PT.

Lula governou o Brasil por duas vezes tendo apenas um opositor de peso: a imprensa, apelidada pelos simpatizantes da esquerda de PiG (Partido da Imprensa Golpista). E, passados dois mandatos, ninguém tinha a mínima ideia de quem o substituiria na disputa eleitoral pelo partido. Dilma Rousseff apareceu “do nada”; antes da indicação, o povo simplesmente nunca tinha ouvido nem falar.

Para este ano de 2014, só um desastre tira a vitória do PT, porque não surgiu nenhum partido, nenhuma liderança de peso na política nacional, na esquerda ou na direita, nenhum projeto, nenhuma polêmica cuja força se compare ao carisma de Lula — seja lá para quem ele decida emprestá-lo. Isso pode ser percebido pelo fato de que as principais “armas” usadas contra o governo petista são denúncias e suspeitas na tentativa de derrubá-los, e não questionamentos sobre o modo de governar e propostas de mudança (aliás, os opositores não tem nem ideia de O QUE mudar, quanto mais COMO). Só restou o PiG.

A política está morta.

Conquistas políticas… sem política? (jardim abandonado II)

Continuando o raciocínio: se por um lado é compreensível que população brasileira esteja descontente com a classe política, suas instituições e os poderes privados ao seu redor (incluindo por cima e por trás); por outro lado, porém, é… esquisito. Pois grandes conquistas políticas se dão por meio da atividade…. política, e não adianta o brasileiro vir agora negar isso.

Vejam bem: eu realmente concordo que os partidos políticos estão muito mais envolvidos em tomar o poder um dos outros, com cargos políticos, alianças, verbas e “currais eleitorais”, do que em realmente denunciar problemas, discutir soluções, propôr novas ideias.

O “desconfiômetro” que faltou para os manifestantes, a ficha que não “caiu”, é o fato de que os partidos e outras instituições políticas – e as estruturas de poder econômico que andam lado a lado com elas – são como um jardim por muito tempo abandonado. Não que este jardim tenha sido um mar de rosas alguma vez, mas é fato que foi tomado por ervas daninhas por falta de cuidados. E não vai melhorar sozinho. E esse “jardim” foi abandonado por quem?

Ora, por nós mesmos! Pelo povo! Eu já falei sobre isso no artigo “Pare de reclamar dos políticos corruptos: A CULPA É SUA!“, então não me repetirei muito aqui. Em um dos vídeos daquele artigo, o humorista George Carlin começa dizendo que não reclama dos políticos. E prossegue com a ideia de que nós reclamamos que “os políticos” isso, “os políticos” aquilo, como se “os políticos” fossem um negócio que surgiu de algum planeta distante, que apareceu de repente, uma espécie separada, um fenômeno paranormal. Como se “os políticos” não fossem pessoas como nós, que respiram, vão ao banheiro, que nasceram de uma mãe como nós.

A verdade é que nós temos a visão muito limitada e equivocada de que nosso único dever político é o voto. De que, votando, estamos “exercendo nossa plena cidadania” e que já fizemos nossa parte, bastando sentar o rabo na frente da TV ou do facebook, ir à igreja, ao shopping e à balada e esperar que “os políticos” façam tudo lindo, certo e perfeito. BALELA! Já está mais do que claro que esse sistema não funciona.

Eu acho que ninguém para pra pensar que a política mesmo é feita pelos caras do outro lado do voto. São pessoas que, bem ou mal, e ao contrário dos outros, resolveram participar DE VERDADE da política partidária. E se a maioria participa mal, é porque: 1) ou não tem ninguém que possa participar bem, ou 2) tem e está dormindo.

Então, se na seção anterior eu disse que a política brasileira está morta, aqui eu explico o porquê. Não surgiram novas lideranças políticas porque… de onde elas viriam? De Marte? Da quarta dimensão? Não, queridos. Elas deveriam ter vindo do nosso povo. De nossas cidades, universidades, favelas, escolas, igrejas, movimentos populares, sindicatos e outras associações de trabalhadores, dentre nossos intelectuais, jornalistas. De nossas cidades, bairros, famílias.

Vovó já dizia: “se você quer algo bem feito, faça-o você mesmo”. Então, ou a gente entra no jogo pra valer, ou admite que não é melhor do que os que estão lá e cala a boca. Falar, papagaio (e político ruim) também fala.

Poder e ignorância: círculo vicioso

Por outro lado, meu caro, esta “bronca” que dou no povo do qual faço parte também se aplica a mim, e é claro que eu refleti sobre por que não participo eu mesmo da política também. E aqui o artigo evolui mais um passo.

Infância bombardeada pela mídia e marketing
Infância bombardeada pela mídia e marketing

A verdade é que o nosso país não favorece o amadurecimento da consciência política. Quando o conteúdo escolar avança para os conteúdos que deveriam despertar nos adolescentes o interesse pela História e a Geopolítica do Brasil e do mundo, no geral:

  • eles já foram bombardeados desde a infância com uma mídia e um marketing inescrupulosos, que incitam o consumismo, o egoísmo, formando a personalidade do jovem de modo a preocupar-se com futilidades (convenientes aos lucros), não sobrando nenhum “espaço” para o que seria realmente construtivo; (recomendo o documentário “Criança, A Alma do Negócio” para uma noção melhor do que estou falando);
  • Educação - descaso
    Educação – descaso

    apesar do esforço de bons professores, o engessamento do conteúdo, a falta de condições para a preparação de aulas interessantes e instigantes, e a desmotivação por não serem valorizados (incluindo os baixos salários), faz a escola transformar-se numa obrigação chata – para professores e alunos – ao invés de ferramenta de formação;

  • tanto o currículo escolar como a estrutura, física e operacional, como um todo, faz da educação escolar apenas ferramenta de formação de mão-de-obra e consumidores, não de formação de seres humanos e de cidadãos politicamente ativos. Para citar apenas uma consequência, os alunos têm seu tempo e mente totalmente ocupados por fórmulas da Física, reações químicas, e trigonometria para a semana de provas, sem saber para que esse conteúdo vai servir. Assim, nem desconfiam do quanto o país precisa deles como cidadãos, conhecedores das leis, da Economia, do contexto histórico e geopolítico do país, ativos na vida política, tornando-se os novos partidos, candidatos, lideranças.

Este terceiro item ainda irá se estender, infelizmente, ao ensino superior. É uma covardia profundamente lamentável que alguém se “forme” em uma faculdade sem o mínimo conhecimento de Direito, Economia, Psicologia e outras ciências que lhe permitiriam exercer a sua profissão específica com uma visão ampla de mundo, do Brasil e de si mesmo; ao invés de se tornar simplesmente uma peça do sistema, em que o dinheiro para a sobrevivência, ou manutenção do seu estilo de vida classe média, será sua única preocupação até o fim da vida; ignorantes e alguns até mesmo arrogantes quanto as áreas de conhecimento que não aquela em que se formou — recomendação de leitura para melhor compreender este problema, artigo “O Perigo do Especialista”, Ortega y Gasset.

Então, eu mesmo estou em processo de correr atrás daquilo que não me foi dado. Pois, agora que cheguei à conclusão de que os problemas do Brasil também são minha responsabilidade, vejo também que me falta base para participar. Eu nem sei direito como se faz para montar um partido político, entre outras coisas. Foi assim que percebi o quanto o nosso sistema educacional é falho, já que ele não nos provê da menor base de informação para que possamos exercer nossa cidadania e participarmos ativamente na vida política do país.

Trabalho, rotina alienante
Trabalho, rotina alienante

E eu ainda não falei sobre a nossa alienante vida adulta, onde, de 24 horas por dia, no mínimo 10 (8+2) horas são gastas em um trabalho sem graça e sem objetivo a não ser encher o bolso do patrão, 2 horas de deslocamento, mais algumas horas pra uma refeição, dentes, banho, … e o sono né…. que deveria ser de 8 horas em média, mas nós podemos viver como zumbis dormindo 6.. é o suficiente a rotina de trabalho ; mal sobra tempo pra falar com a família ou assistir alguma bobagem na TV. No final de semana, apenas o tempo pra repôr as energias para mais uma semana chata. Como é que alguém vai se dedicar a estudar sobre leis, decretos, medidas provisórias, impostos, índices econômicos, taxas de juros, instâncias, invasões, conspirações, mídia, culturas, zonas de influência, protecionismo, globalização, enfim, toda a complicação que é a política nacional e internacional, seus problemas, como nos afetam… É claro que existem aqueles com um interesse natural em tais assuntos e que se sobressaem mesmo com todas as dificuldades, e parabéns a estes. Mas não é suficiente. A História já nos ensinou que nenhuma grande mudança ocorre sem a participação popular, em peso!

Porém, a meu ver, não dá pra jogar toda a culpa da falta de conhecimento e interesse político do nosso povo no próprio povo. Nós não fomos educados para isso, não fomos incentivados, não fomos instruídos sobre as melhores formas e fontes para obter esse conhecimento, sequer sabemos da importância de tudo isso e, na verdade, somos é encorajados a nos mantermos afastados, nos mantendo à mercê dos comentários passados rapidamente nas redes de televisão, jornais e revistas… cujos donos têm seus próprios interesses (diferentes dos nossos).

Assim, chegando a hora das eleições, continuamos insatisfeitos, desiludidos ou nos contentando com pouco, sem opções, e achando que estamos fazendo tudo o que podemos simplesmente votando. Mas agora vocês sabem, espero, a verdade por trás dessa nossa sensação de impotência e de que “algo está errado”.

Solução?

Revolução Educacional – formando seres humanos conscientes e cidadãos plenos

Eu não sou o primeiro nem o último a dizer que a solução dos problemas de qualquer país começa por uma boa educação. Porém, geralmente o debate para por aí. Quase ninguém se aprofunda na questão, para dizer realmente o que precisa ser mudado. Algumas pistas eu já deixei durante as seções anteriores.

Ensino superior

O ensino superior precisa ser completamente reformulado. É inconcebível que alguém possa sair de uma universidade dizendo-se formado, sem um conhecimento em áreas como Direito, Economia, Filosofia, Psicologia, Sociologia, Geopolítica e História, INDEPENDENTEMENTE se o curso específico de sua formação seja Administração, Ciência da Computação, Música, Arqueologia, Medicina ou Engenharia Civil. Por quê?

Porque é o Direito que nos ensina sobre nossos direitos e deveres, a respeitar o direito do outro e a procurar os nossos, a nos proteger dos abusos vindos tanto do nosso vizinho, dos “superiores” no profissional, quanto das empresas e do Governo. Porque é a Economia que nos permite entendermos as distorções nos ganhos de um professor, de um deputado e de um jogador de futebol, deixarmos de ser reféns de índices, taxas, impostos, bolsas, capital estrangeiro e incentivos fiscais “suspeitos”. Sociologia, Geopolítica e História nos dão uma visão global, no tempo e no espaço, para que possamos comparar situações atuais com outras já vividas no passado e evitarmos cair nos mesmos erros. Nos permitem compreender como se formou esse sistema que beneficia alguns e transforma a vida da grande maioria num lixo. E, o mais importante, como devemos agir para melhorar e mudar tudo isso.

Ainda, é a Psicologia que ajuda a compreender a nós mesmos e ao próximo em um nível mais pessoal, aceitarmos melhor nossas diferenças, administrarmos nossos altos e baixos, nos tornarmos pessoas melhores a cada dia sabendo como funciona a personalidade humana, para que assim possamos trabalhar juntos, em harmonia, na construção de um mundo melhor. E a Filosofia é a ciência das ideias, que nos permite aprender com os grandes sábios do passado verdades simples que temos esquecido no meio de tanta correria e futilidade, e que nos proverá do senso crítico e dos argumentos para o debate das novas ideias que com certeza surgirão entre nós, no esforço de construir uma sociedade melhor.

Agora, me respondam, como alguém “formado” em qualquer ciência pode se dizer formado sem tudo isso? Que tipo de sociedade estamos formando com esses cursos “superiores” de dois anos de duração, que visam apenas “suprir as necessidades do mercado”?

Ensino médio

Também para o ensino médio eu já deixei algumas pistas. Talvez seja o período escolar que mais precise de ajustes… ou melhor, de uma revolução. O ensino médio hoje, desculpem-me o trocadilho, é medíocre.

Música, esportes, arte: disponível para todos
Música, esportes, arte: disponível para todos

Pra começar, é inconcebível que existam escolas sem período integral. No período extra, haveria toda a espécie de atividades culturais. Eu diria ainda que a TODO aluno de ensino médio deveria ser dada a oportunidade de aprender PELO MENOS:

  • um instrumento musical: seja guitarra, piano, violino ou oboé, até mesmo a própria voz; E;
  • uma atividade artística: uma dança; pintura, escultura, artesanato, teatro, enfim, qualquer atividade artística que puder ser disponibilizada; E;
  • uma atividade esportiva: seja xadrez, futebol ou kart; ginástica artística, tênis ou karatê;

Claro que existem as atividades mais difíceis de disponibilizar, mas isso pode ser amenizado com uma boa política de seleção e bolsas de estudo. Tenho certeza que essas atividades culturais e esportivas serão importantes no desenvolvimento de uma personalidade mais sensível, mais aberta, mais culta, mais disciplinada, com mais espírito de equipe e ao mesmo tempo com uma maior autoestima e consciência de suas potencialidades individuais. Sendo obrigação do ensino público, os jovens de todas as camadas sociais terão o mesmo acesso, o que só poderá proporcionar um futuro mais justo construído por todos para todos. Além de efeitos positivos secundários, por exemplo: dando oportunidade para que os jovens gastem sua energia e exerçam sua atração por velocidade e competição em um ambiente apropriado, por meio de esportes como o kart, do ciclismo etc. nas escolas poderá diminuir a exposição deles no trânsito (falando nisso, que a CNH faça parte do currículo escolar também :-).

Aliás, vejam que aqui o conceito de educação se expande. Quando se fala que o povo precisa de educação, não se deve pensar só em matemática, português e química. Por exemplo, uma educação que nem a maioria dos pais tem – que dirá os filhos – é sobre psicologia. Como é que um adolescente vai enfrentar as complicações da sua fase sem o conhecimento mínimo de psicologia? Sem saber o que é id, ego, alter-ego, dinâmica dos grupos, bullying, a diferença entre introvertidos e extrovertidos, entre o comportamento masculino e feminino? De onde vem e como lidar com a raiva, a tristeza, o prazer, a paixão? Muito se fala de educação sexual, mas surpreendentemente nada se discute com nossos jovens sobre os sentimentos e o Amor. Quantos suicídios e “fugas das casas dos pais” poderiam ter sido evitados se nossos jovens tivessem sido melhor preparados para enfrentar a enchente de crises, hormônios, emoções, conflitos e instintos que faz parte da fase?

Eu também acho que todo jovem deveria ter oportunidade, já no ensino médio, de conhecer os povos indígenas mais próximos de sua cidade. A maior cidade da região, e/ou o campo (conforme o caso). Fazer visitas a uma grande empresa, à câmara legislativa de sua cidade, um orfanato, um hospital, um asilo, uma fronteira do país, um estado de uma região diferente da sua. Em suma, realmente integrar o adolescente à sociedade, dar-lhe oportunidade de conhecer suas faces, seus contrastes, suas necessidades.

Todas aquelas disciplinas que eu destaquei para o ensino superior deveriam ser iniciadas já aqui no ensino médio. Especialmente noções de Direito e Economia. Eu acho uma covardia deixar o jovem solto na sociedade sem a mínima orientação em Direito e Economia. Sem saber como reagir a uma abordagem policial irresponsável, quais são os direitos básicos que ele já possui e de repente nem faz ideia, e como se organizar para exigi-los. Sem saber o verdadeiro impacto da inflação, da alta do petróleo, de uma nova lei ou de uma guerra sobre a sua vida, seu salário, sua qualidade de vida.

Revolução educacional - O mundo é um grande jogo, e conhecer História e Geopolítica nos permitirá sermos mais que peões deste xadrez
Revolução educacional – O mundo é um grande jogo, e conhecer História e Geopolítica nos permitirá sermos mais que peões deste xadrez

E sem Geopolítica e História, como entender o que levou nosso país a ser do jeito que é, como compará-lo com nossos vizinhos, com a China, com os Estados Unidos, com a Europa? Como entender se e por que uma ditadura militar seria uma boa opção? Se é melhor mesmo deixar o país e ir lavar pratos na Austrália? Se o que o Arnaldo Jabor falou ontem no jornal é mesmo verdade? Eu vejo muitos jovens se deixando levar politicamente pelo “raciocínio” mais fácil, sem o mínimo questionamento, sem a mínima vontade de considerar outras ideias. Como se “escolher um lado e defendê-lo” na política fosse o mesmo que no futebol. Este problema seria diminuído, aos poucos, com um ensino médio verdadeiro em Geopolítica e História, com professores bem preparados, bem remunerados (leia-se “sendo uma das categorias mais bem remuneradas, independentemente de qualquer merda relativa a mercado”), com condições de exercer um grande trabalho. Com tempo para explorar detalhes, passar e debater filmes e documentários, e construir uma juventude politicamente consciente e ativa: com VONTADE de agir e mudar.

Em resumo, eis a minha proposta para o ensino médio. Não entrarei em detalhes menores que estes, pois acredito que a reformulação da grade curricular e das ementas , das metodologias e da estrutura física das escolas seriam apenas consequência da mudança no próprio conceito e nos objetivos da escola e da Educação. E, como eu disse, esse objetivo deixará de ser formar mão-de-obra para suprir as necessidades dos donos do mercado. A prioridade deve ser agora formar seres humanos conscientes e cidadãos preparados para (e desejosos de) uma vida política ativa e a construção de uma sociedade melhor. Para suprir as necessidades da Nação.

Se o ensino médio deverá ter 10, 12 anos pra comportar tudo isso? Que deverá ser dividido ainda em duas partes, somando 15 anos as duas? Por um mundo melhor, que seja!

Ensino fundamental

Embora não seja o foco dessa revolução educacional, imagino que o ensino fundamental também deverá passar por ajustes, a fim de preparar as crianças para o novo ensino médio, que terá mudado tanto.

Muitas das novas atividades, como as artísticas e culturais, deverão obviamente começar a serem ministradas já no ensino fundamental. Mas creio que deve-se tomar cuidado para não “roubar” a infância das crianças. Pelo contrário, devemos proteger essa infância do constante ataque da mídia e do marketing, que vem transformando os pequenos em consumidores vorazes e erotizando-os precocemente, sem que possamos defendê-los adequadamente deste assalto.

Por outro lado, que nossas crianças aprendam desde cedo a dar bom dia, a ceder lugar no ônibus para os mais velhos e, o que será muito importante para o ensino médio, a ver o professor como alguém que deve ser respeitado. Na ânsia de evitar os abusos do passado, tenho a impressão que abrimos mão totalmente da disciplina, e as consequências disso podem ser vistas nos jornais quase todos os dias. Precisamos encontrar o meio termo, porque sem uma base de respeito construída agora no ensino fundamental, as mudanças para o ensino médio e superior surtirão muito pouco efeito.

E agora?

Bem, espero que concordemos, ao menos em grande parte, com o que deve ser feito. Resta saber quem e como. O Estado? Duvido muito. O primeiro que aparecer com uma ideia dessas no seu programa de governo, ou não será ouvido, ou terá seu trabalho inviabilizado pelos seus “colegas” políticos, ou levará uma bala na cabeça.

Me passou pela cabeça que a revolução educacional comece como um trabalho completamente voluntário. Que aqueles que acreditarem nessa ideia, provavelmente pessoas que tenham algum conhecimento para compartilhar (curiosos em geral, professores e formados nas respectivas áreas, aposentados etc.); que se organizem, comecem a atrair outras pessoas para participar. E depois comecem a atrair jovens aos poucos para aulas suplementares. Quem sabe esse trabalho não dê origem a uma ONG ou algo do tipo… até que um dia o número de pessoas atingidas por esse trabalho seja tal que fique impossível parar a ideia com um tiro na cabeça de apenas um.

A partir daí, acho que ninguém segura mais. Novas pessoas com novas ideias virão. Fatalmente elegeremos deputados, senadores dentre nós, que terão e darão suporte para mais mudanças; a ideia ganhará força e, daí sim, ser adotada pelo Estado. Sob nossa constante vigilância, claro.

Será um caminho difícil e muito longo. Mas como já dizia o sábio: uma grande caminhada começou com o primeiro passo.

Bem, é isso… por aqui, vou fazendo a minha parte.

Abraços,

um ser pensante