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O Mundo de Sofia: pensar, pra quê?

O Mundo de Sofia -- quem responderá o chamado de Alberto Knox?
O Mundo de Sofia — quem responderá ao chamado de Alberto Knox?

Este blog é um espaço não só para compartilhar meus pensamentos, mas também para incentivar as pessoas a refletirem, questionarem, filosofarem. E, por causa desse segundo objetivo, o tema desse artigo será exatamente o pensar: por que alguém deveria deixar o conforto dos problemas cotidianos, das conversas superficiais sobre TV, carro, cerveja, fim de semana, para se aventurar no mundo da compreensão de si mesmo, das pessoas, da sociedade, da história e do universo?

Esta semana estou assistindo o filme “O Mundo de Sofia”, baseado, obviamente, no livro de mesmo nome escrito por Jostein Gaarder. Corajosa e admirável a iniciativa de Alberto Knox, e de grande sensibilidade a abordagem usada por ele para instigar em Sofia a curiosidade pelo mundo da filosofia — assim como, ao mesmo tempo, Gaarder faz o mesmo conosco.

Mitologia, o início de tudo

Tanto no livro quanto no filme, Alberto “provoca” Sofia enviando-lhe cartas anônimas com questões existenciais: “quem é você”, “de onde vem o mundo”. Pouco depois, nos é lembrado que os mitos foram a primeira forma de filosofia criada pelo ser humano.

Hórus e Set - alternância entre dias e noites
Hórus e Set – a primeira forma de ‘filosofia’ foram os mitos; no caso, a explicação dos dias e noites

Não sei se as pessoas daquela época, ou quais, ou quantas, ou de que forma realmente acreditavam nos mitos. Mas uma coisa é certa: em cada lugar de onde se originou um povo no mundo, alguém parou para pensar na importância da luz e do calor do Sol, na origem das estrelas, do mundo e dos homens; no porquê dos dias, das noites e das estações; na diferença entre as plantas, os animais e o ser humano; nos males, na alma, na vida e na morte.

Dessa forma surgiram os mitos de Hórus e Set, no Egito,  e a alternância dos dias e noites; de Anu, Marduk e Tiamat, na Suméria, sobre a origem do Universo e da Terra; de Pandora, na Grécia, sobre os males do mundo. Religiões e culturas inteiras foram criadas desenvolvendo-se a partir dessas reflexões “básicas” — um exemplo que me fascina é o livro “A Cidade Antiga” (Fustel de Coulanges), onde toda uma cultura foi formada basicamente a partir das reflexões sobre a morte, e do desejo de se dar um “sentido” à ela; desejo que levou ao culto dos antepassados e assim por diante.

Mas, fico pensando, de quantas pessoas que conheço Alberto Knox conseguiria chamar a atenção?

No mundo de hoje, onde muita coisa já tem explicação científica, e os mitos deram lugar aos resultados de uma busca no Google feita num segundo, qual a importância de pensar? O que deveria suscitar a nossa curiosidade e despertar questionamentos, a ponto de ocupar nossas mentes na busca de uma resposta.

Ora, e por acaso seria perfeito o nosso mundo, para que não tenhamos com o que nos preocupar?

Ainda que a situação social do país esteja melhorando, ainda há muito problema para resolvermos antes de podermos nos dar ao luxo de dizer que pensar é perda de tempo e coisa de quem não tem o que fazer. Saúde pública, qualidade da educação, violência, trânsito, acesso à cultura, e até mesmo nossa própria cultura e o nosso comportamento deveriam ser objeto de longas reflexões. Sua vida e a das pessoas com quem você se importa é realmente satisfatória? Você tem sonhos? Vai conseguir realizá-los? Vai conseguir trabalhar com o que gosta? A que custo? Vai conseguir viver bem — com um conforto razoável? Tem ou terá tempo para a sua família? Consegue ou vai conseguir acompanhar o crescimento dos seus filhos?

Se você respondeu ‘não’ ou ‘talvez’ a pelo menos uma dessas perguntas, com relação a você ou alguém próximo, então gostaria de convidá-lo a refletir sobre uma solução. E dificilmente se soluciona uma situação sem compreender as causas de sua origem. E se para você e seus próximos tudo está bem ou ao menos encaminhado, convido-o a olhar ao seu redor: por acaso temos uma cidade, um país, um mundo onde tudo é perfeito, onde todos estão bem e não temos nada com que nos preocupar? Nossos irmãos na América Latina? A sofrida África e algumas regiões da Ásia? O conturbado Oriente Médio? Mesmo em países considerados ricos como os EUA e parte da Europa existem muitas pessoas em dificuldades, quando não o país inteiro.

Volta e meia temos uma guerra, uma invasão internacional (geralmente os EUA invadindo outro país), um conflito armado onde morrem milhares, milhões de pessoas. Enfim, temos um mundo cheio de problemas reais, sérios, afetando a vida de muitas pessoas e não dá pra ficar perdendo tempo se preocupando com a baladinha do final de semana, com dois ou três dias de ressaca, com notícias sobre pseudo-celebridades, compras inúteis e programas, músicas, danças e filmes estúpidos na TV.

Ah você não tem tempo? E você já parou pra pensar por quê? Não? Eu sei, eu sei que as coisas são assim, você tem que trabalhar e estudar. Mas por que o dia inteiro, a semana inteira? Já parou pra pensar nisso? Você acha que sempre foi assim? Você acha que não poderia ser diferente? Tem certeza? Será que já não fizeram o “sistema” assim para você não ter tempo pra nada mesmo? Já parou pra pensar em quantas pessoas no mundo, no país, na sua cidade, na sua família cometem suicídio, tomam anti-depressivos, usam drogas, bebem, se entregam a alguma compulsão? Você ainda acha que está tudo normal, lindo e maravilhoso e você pode desperdiçar mais um final de semana bebendo e conversando besteira?

É claro, todo mundo precisa se divertir e fazer coisas estúpidas. Mas não o tempo todo.

Downloads

Livro (ebook) – O Mundo de Sofia
Idioma: pt-br
Formato: PDF – Tamanho: 1,68 MB

Vídeo – O Mundo de Sofia (parte 1)
Idioma: sueco, legenda (embutida) pt-br
Formato: AVI – Tamanho: 616 MB

Vídeo – O Mundo de Sofia (parte 2)
Idioma: sueco, legenda (embutida) pt-br
Formato: AVI – Tamanho: 633 MB

Conclusão

As pessoas precisam entender que por trás de uma discussão ou uma reflexão sobre política, sobre capitalismo, sobre Cuba ou a Palestina não é somente uma discussão a ser ganha ou uma reflexão teórica sobre um tema distante. Bom, eu pelo menos quando discuto ou reflito sobre temas assim, estou efetivamente preocupado com as pessoas envolvidas no tema, quero compreender o problema, quero encontrar uma forma de ajudar.

Diz a Angelina Jolie que opiniões não mudam o mundo, e sim atitudes. Bom, claro, se eu tivesse a grana dela eu poderia sair por aí adotando crianças e distribuindo comida por aí também. Mas não, eu não tenho. Então, o que eu posso fazer é contribuir para solucionar os problemas, não apenas remediá-los (que também é importante, claro).

Porém, para solucionar um problema, principalmente um problema complexo que envolve muitas pessoas, eu preciso entender sua estrutura, suas causas, sua história. Pra isso, eu preciso pensar. Pensar e planejar uma ação… e então, agir.

E o que estou fazendo aqui é pedindo a sua ajuda, e dando-lhe motivos para ajudar. Pensar não precisa ser uma atividade solitária ou monótona. Também não é necessário que você deixe de fazer todo o resto… não, um pouquinho, uma contribuiçãozinha mínima, uma pergunta, uma leitura pode ajudar mais do que você imagina. E, no final, eu acredito que exercer essa habilidade de refletir sobre o mundo, sobre o nosso tempo, sobre a sociedade e sobre nós mesmos acabará sendo tão natural que você o fará naturalmente.

Em uma passagem do filme, Alberto Knox dá de bandeja uma resposta a sua aluna. Sofia já havia se tocado que não era apenas um corpo e um nome, mas ainda faltava algo para responder a pergunta “quem é você”. Um pouco mais tarde, ela aprende a hierarquia dos seres que coloca uma pedra no nível mais baixo, a seguir uma planta, depois o gato Sherekan, e depois ela mesma, Sofia.

É isso mesmo. Você é capaz de pensar, de filosofar. É isso que nos faz diferentes de uma pedra, uma planta, um gato.

É isso que nos faz humanos.

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