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Série A vida de Um Ser Pensante — saudades, Aryen

Dias de hoje

Já fazem uns 3 anos que minha vida se alterna basicamente entre o tédio e a tristeza… no último ano e meio então, nem mesmo na área acadêmica e profissional, que sempre fora meu forte, tenho tido muito sucesso. E… claro que venho tentando descobrir porquê.

E nessas reflexões, vejo que entre as razões para o meu desânimo se misturam fatores “internos” e “externos”. Sou um rascunho de filósofo-cientista clássico, perdido numa cidade medíocre do interior do Brasil, sem nenhuma vocação para me adaptar à rotina estúpida de trabalho-carro-balada-bebida que faz a felicidade de 95% das pessoas da minha faixa etária. Minha vida online é até divertida, conheço muita gente interessante Brasil (e mundo!) afora, que um dia quero encontrar pessoalmente, mas além disso eu não tenho praticamente nada. E cansei de paliativos. Caminhar e meditar definitivamente não vai mudar a minha vida.

Ah Deus… tudo o que sei é que nem sempre foi assim…

Aryen

Ainda me lembro bem, eram os primeiros dias da faculdade. Eu estava em uma das carteiras da sala, esperando pelo início da aula, e entra uma moça… de uma beleza diferente… Havia algo de intrigante, diferente… ela foi direto para a carteira dela, ao lado da parede. Minha timidez acabou sucumbindo à curiosidade, e acabei puxando conversa. Pra preservar a identidade da moça, irei chamá-la aqui apenas de “Aryen”.

Com o passar dos dias, pouco a pouco, fui descobrindo mais sobre ela: dois anos mais velha, gostava de rock (especialmente Guns n’Roses), era casada, morava numa cidade vizinha, nasceu em um estado distante. Deus meu, mal sabia eu o abençoado terremoto que passaria a fazer parte da minha vida.

Eu nunca conheci pessoa mais “densa”. Todos que conheço que também tiveram um contato razoável com ela também têm histórias pra contar. Então, por mais que eu tenha muitas, é bem provável que eu não seja nem de longe uma das mais importantes pra ela… mas… enfim…

Tão bem e tão mal

É muito pra contar. Nós brigamos várias vezes, de ficarmos meses, anos sem nos falarmos. Trabalhamos juntos, a pedido dela inclusive. Fizemos muitos trabalhos juntos, nos dávamos bem e mal ao mesmo tempo. Lembro-me de uma vez que achei melhor fazermos nossos trabalhos separados, mas um ao lado do outro; assim, podíamos fazer o que achássemos melhor em separado, e ao mesmo tempo aproveitarmos a sinergia gostosa que havia entre a gente — quando não havia conflito. Sim, era muito confuso…

Alguns dos primeiros desentendimentos, como não poderia deixar de ser, foram sobre eu ter me apaixonado e ela não. Ambos ficamos muito chateados, cada um pelo seu motivo… mas depois de alguns anos isso acabou virando só um detalhe, inclusive para mim. A paixonite passou.

Mas a nossa ligação, não. Os namorados e paixonites dela passavam, mas nossa relação permanecia. Música, religião, cinema, trabalho, família, psicologia, filosofia, história, política, livros… nossas próprias vidas e sentimentos, as outras pessoas que faziam parte de nossas vidas, tudo, tudo era assunto para horas e horas intermináveis de conversa e reflexão, e-mails, caminhadas.

Conversando e caminhando... Aryen e eu
Conversando e caminhando… Aryen e eu

Sem frescura

Eram tantas coisas incríveis e situações inimagináveis… em tempos de mulheres interesseiras e marias-gasolina, essa mulher que nem era minha namorada saía do apartamento onde vivia, perto da faculdade, descia até a avenida, pegava o ônibus do meu bairro, ía até minha casa… depois fazia o trajeto de volta, tarde da noite, quando os horários de ônibus são mais raros e as ruas mais perigosas.

A vontade de aproveitarmos cada segundo da presença um do outro era tão grande que nos dávamos o direito (eu com alguma reserva, mas…) de ignorarmos certas convenções. À convite dela (até hoje me lembro do espanto de ter ouvido o convite), dormi muitas noites em sua kitnet, num colchãozinho no chão, ao lado de sua cama. Assim tínhamos mais tempo para as longas conversas, brincadeiras, partidas de xadrez. Quando ela se mudou para fazer mestrado e precisava voltar à minha cidade por uns dias para resolver compromissos pendentes, era a vez dela de dormir no chão, ao lado da minha cama.

Nunca nos preocupamos em “sair” todo sábado à noite, não precisávamos de cerveja, de maconha, de carro ou o que quer que fosse. Qualquer lugar onde pudéssemos sentar e conversar, era lugar. Bastava que estivéssemos juntos. Poderia ser uma simples caminhada para olhar as casas, poderia ser um cinema ou até mesmo ver uma banda cover de rock. Mas nada era obrigatório, nada era mais importante do que o “estarmos juntos”.

Saudade

Que saudade desses tempos onde todo dia era dia de crescer mais um pouquinho. Às vezes a base de muita raiva rsrsrs! mas… Aryen, que culpa tenho se não estava à sua altura…

Hoje, nesses dias de tédio absoluto, onde a forma mais fácil de conseguir fazer contato com pessoas inteligentes é pela internet, sinto muita falta, muita saudade da minha amiga Aryen. Pouco me importa se ela gosta de punk e eu de progressivo, se ela prefere Adam Smith e eu Karl Marx, se ela é cristã e eu agnóstico raulseixista. Infelizmente, para ela algumas dessas diferenças importam, e ela não quis reestabelecer contato de onde ela está. Eu tentei…

Mas quem sabe um dia ela encontre esse texto no Google e reflita…

Ainda que eu talvez não seja mais a mesma pessoa que você considerava seu amigo, eu sinto sua falta, Aryen…

Sinto muito sua falta…

Com saudades,

um ser pensante