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Capitalismo, um incentivo para a escravidão

Tempos modernos...
Tempos modernos…

Será que só eu me sinto preso pelo capitalismo? Ninguém mais sente o saco que é ter que acordar 6, 7 da manhã, chegar às 8 no trabalho, sair às 18, chegar em casa 19 ou 20h, isso pra quem ainda não tem que ir a faculdade ou fazer algum curso pra ver se consegue um salário um pouco melhor… e aí só irá ver a sua casa, seu esposo ou esposa, filhos, pais… no final da noite? Mesmo pra quem pode chegar já às 19h ou 20h, é tomar um banho, jantar, dar uma arrumada no quarto, assistir um jornal e pronto, 23, 0, 1h da manhã, hora de dormir e começar tudo de novo. De segunda à sexta, ou sábado… apenas o final de semana para repôr as energias e começar mais uma semana chata… isso até o próximo feriadão ou as próximas férias.

Em uma entrevista (publicada a poucos dias aqui no blog) de Erich Fromm aqui no blog, ele diz que

[trabalhar para garantir sua sobrevivência] não é o suficiente para fazer alguém feliz se esse alguém gasta 8 horas por dia em algo que, em si mesmo, não tem nenhum sentido (…) exceto ganhar dinheiro.

Afinal, são poucos os que podem se dar ao luxo de trabalhar com aquilo que gostam. E mesmo assim, eu acho que 40 horas por semana, mais os deslocamentos, é muita coisa.

Quem me conhece e/ou acompanha o blog sabe que eu sou um crítico do uso do álcool como fuga. Mas, por outro lado, restando tão pouco tempo pra se fazer outras coisas, eu compreendo (compreendo mesmo!) porque tanta gente opta por fazer da noite, da bebida e da ressaca no dia seguinte um ritual sagrado. Como diz a música do Chico Buarque, “a gente vai tomando que também sem a cachaça, ninguém segura esse rojão” — troque por cerveja, se preferir.

Por muitos e muitos anos, eu desconfiei que havia algo de muito errado com “o jeito que a vida é”. E, como eu sempre digo, sou um péssimo “aceitador-das-coisas-como-elas-são”. E antes que digam “pow, esse cara é só um vagabundo, não gosta de trabalhar”, reproduzo aqui um pensamento que consegui sintetizar numa pequena conversa sobre a tal teoria revolucionária do ócio criativo:

Na verdade, esse sistema é tão do avesso que quando nós estamos sendo mais humanos, quando estamos nas mais valiosas de todas as nossas atividades, pensando, refletindo, criando, planejando, escrevendo, compondo, nos ouvindo, nos construindo… eles chamam de ócio. E quem se dedica a isso é vagabundo.

Compensação
Compensação

Eu nunca senti o dinheiro como incentivo. Soa mais como uma compensação. Isso pode ficar mais claro quando se pensa na remuneração da hora extra: por que ela vale mais? Pra mim, os 50 ou 100% a mais é o reconhecimento de que este é um tempo precioso, que dedicamos a nós mesmos (e olhe lá)  e que nos está sendo usurpado. Pagar um pouco mais não é bondade do sistema: é o mínimo que se pode fazer por roubarem mais um pouco da nossa vida, que não tem preço.

Um workaholic (pessoa viciada em trabalho, “trabalhólatra”) ou qualquer pessoa que não compartilha da minha visão pode estar se perguntando: mas se você não trabalhar, vai fazer o quê? Vai ficar coçando o saco?

Hmm! Ha 5 ou 6 anos atrás eu encararia essa pergunta como algo para refletir e continuar a mesma vidinha de sempre no outro dia. Hoje a resposta está na ponta da língua. Por exemplo, quando eu disse a um amigo que eu não estava trabalhando (em um emprego), ele me perguntou o que eu estava fazendo então (sem maldade, mas a resposta se aplicaria ao workaholic acima). Respondi:

ah.. cuidando da saúde, estudando mitologia antiga, economia, C++, edição de vídeo, computação gráfica, história do oriente médio, Qt (bibliteca C++ da Nokia), lendo livro (e tentando escrever os meus), assistindo filme, escrevendo no blog… lendo sobre política, religião, psicologia…

Isso porque resolvi dar um tempo no violão e não lembrei de falar dos meus projetos pessoais. Ele teve de concordar: “tu tá cheio de coisas heim!!!” Pois é ;-D

Mais uma vez, repito que dinheiro não é O incentivo. Talvez no capitalismo seja o principal, por sermos forçados a tê-lo, mas digo com certeza que, pelo menos eu, não preciso estar ameaçado de morrer de fome para ter vontade de fazer coisas! Na verdade, considero seriamente a hipótese da fome como incentivo ser uma exceção. Considere o texto (*) abaixo:

O sistema monetário é há muito tempo considerado uma força positiva na nossa sociedade graças à sua alegação de que produz incentivos e progresso. (…) em seu núcleo estão as suposições de que

(1) Devemos lutar uns com os outros para sobreviver
(2) Seres humanos precisam de um “estímulo” recompensador para fazer coisas significativas.

(…) Quanto ao Número 2 (“Seres humanos precisam de um ‘estímulo’ recompensador para fazer coisas significativas”), essa é uma perspectiva triste e incrivelmente negativa do ser humano. Supor que uma pessoa precise ser “motivada estruturalmente” ou “forçada” a fazer algo é simplesmente absurdo.

Por quê? Porque você queria!!!

Lembre-se de quando você era criança e não tinha a menor idéia do que fosse dinheiro. Você brincava, era curioso e fazia muitas coisas… Por quê? Porque você queria. No entanto, conforme o tempo passa em nosso sistema, a curiosidade e auto-motivação naturais são extirpadas das pessoas, pois elas são forçadas a se ajustar a um sistema de trabalho especializado, fragmentado, quase predefinido para poderem sobreviver. Por sua vez, isso costuma criar uma revolta interior natural nas pessoas devido à obrigação e foi assim que separamos os momentos de “lazer” e de “trabalho”. A preguiça que aqueles que defendem o sistema monetário (por alegar que ele cria estímulo) não reconhecem este fato.

Não é à toa que o capitalismo precise oferecer um pouco de dinheiro em compensação a tudo o que nos tira.

Eu sempre desconfiei que havia algo de errado com o sistema. Este texto e outros materiais semelhantes me fizeram ver que não só há algo errado, como todo o sistema é uma grande porcaria, em termos humanistas.

O erro É o sistema.

Um abraço.

(*) Esse texto é parte de uma publicação (http://movimentozeitgeist.com.br/objetivo) do Movimento Zeitgeist , que propõe um novo sistema sócio-econômico para substituir o capitalismo. Eu não participo oficialmente do movimento (ainda), mas simpatizo muito e contribuo sempre que posso.