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Em busca do Comunismo perdido

Comunismo e União Soviética - fim de uma ideologia?
Comunismo e União Soviética – fim de uma ideologia?

Comunismo: alguns dizem que morreu com a União Soviética, que está “fora de moda”; que é um sonho impossível ou uma utopia hipócrita que sempre esconde um pesadelo totalitário. Outros ainda acreditam na sua viabilidade, e, não apenas isso, que seja a única saída para uma sociedade justa onde todos, onde cada um tem a chance de uma vida decente.

Eu faço parte do segundo grupo, mas o caminho que percorro é longo. Percorro-o desde a adolescência. São tantas as correntes, distorções e mal-entendidos que, por algum tempo, ao ser perguntado eu respondia que “minha razão está confusa, mas meu coração é Comunista”. Mas, enfim, o Comunismo é viável? Como funcionaria? Como seriam nossas vidas? Já houve mesmo um país ou bloco Comunista, de onde possamos tirar conclusões? As distorções, como e quando a ideia original se desvirtuou? E, a maior pergunta de todas:

Afinal, o que é Comunismo?

Introdução: paixão e ódio

Se existe uma palavra carregada de paixões e ódios, capaz de causar desentendimentos, de unir estranhos e fazer amigos brigarem; se existe uma palavra cujo significado é objeto de intermináveis estudos e debates, de levar pessoas, grupos e exércitos à lutarem contra e a favor da ideia que expressa; se existe uma palavra mal compreendida e com diversas interpretações, essa palavra é “comunismo“.

Eu acho incrível como muitos (desde colegas de trabalho a pensadores e estudiosos) se empenham com tanta dedicação a dizer que o Comunismo é uma ideia morta e uma causa perdida, que fica difícil acreditar que se trata de uma ideia realmente morta. Por que tantas pessoas ao redor do mundo se dedicariam com tanto afinco ao combate de algo “morto”? Ora, uma coisa é discordar de uma ideia, outra é ser inimigo mortal dela…

A primeira ideia que vem a cabeça quando se fala em Comunismo é ideologia (“-ismo”). Quando se pensa em Comunismo, pensa-se também em nazismo, anarquismo, capitalismo, que também são ideologias políticas, e é comum entre os que não gostam do Comunismo associá-lo ao nazismo. Mas, diferentemente deste, cuja aversão é praticamente uma unanimidade, o Comunismo tem defensores, seguidores, simpatizantes, organizações políticas legais e declaradamente comunistas (embora muitas vezes se limitem à declaração formal).

A segunda ideia associada ao Comunismo, derivada da própria palavra, é a de propriedade comum. Essa, por sua vez, se contrapõe a propriedade privada, particular, característica do sistema econômico em que vivemos: o capitalismo; e eu acho que essa associação é que desperta raiva até mesmo em pessoas que não tem nada mais de propriedade particular do que um carro comprado a prestações a perder de vista e, no máximo, uma casa. A noção de propriedade comum, e da igualdade social que ela pressupõe, eu sinto que ofende muitas pessoas; a ponto delas transformarem um simples bate-papo em uma briga, como se você tivesse xingado a mãe delas ao insinuar alguma simpatia pelas propostas comunistas.

Autoritarismo e dificuldades econômicas: em busca do Comunismo perdido

Em terceiro lugar, estão associados ao Comunismo a rigidez, o autoritarismo, a restrição de liberdades individuais em detrimento de conquistas sociais (especialmente saúde e educação), diretrizes de um Estado centralizador que controla a economia, a política e a sociedade, e isola o país do resto do mundo. Essa associação tem lá a sua razão de ser, afinal, Estados que se declaram comunistas atualmente, como Cuba, China e Coreia do Norte funcionam mais ou menos dessa forma (ou ao menos as fontes disponíveis, como a mídia, dizem isso — e muita gente repete). E, claro, não podemos esquecer da maior e mais poderosa iniciativa “comunista” da história moderna: a União Soviética.

Porém, partindo do pressuposto de que o objetivo do Comunismo é construir uma sociedade onde todos tenham condições de vida favoráveis, sem as distorções que vemos no nosso mundo capitalista onde bilionários donos do mundo “convivem” com milhões de pessoas morrendo de fome (literalmente) em um mesmo mundo e época, várias perguntas vêm a mente:

— O comunismo precisa ser uma ditadura, com restrição de liberdades e fechamento para o exterior, entre outras características? Por quê?

— Por que a União Soviética e outros países “não deram certo”? Por que as pessoas vivem em dificuldades econômicas em países comunistas como Cuba e Coreia do Norte?

— Se o comunismo surgiu inicialmente como um ideal de um mundo melhor, como ele mudou dessa forma, para um sistema que dá origem a Estados centralizadores e ditatoriais? Onde o ideal Comunista se perdeu?

Neste artigo tentarei colocar um pouco de luz nessa discussão, podendo argumentar, citar fontes e estruturar o que penso sobre o assunto, especialmente a última pergunta. É dela que surgiu o título: “em busca do Comunismo perdido”.

Karl Marx e Friedrich Engels, fundadores do Comunismo moderno
Karl Marx e Friedrich Engels, fundadores do Comunismo moderno

O início e ideias básicas

Se a história do Comunismo não começa com o filósofo alemão Karl Marx, então se divide em antes e depois dele. Uma das obras essenciais para a compreensão do Comunismo, escrita por Marx e seu companheiro Friedrich Engels, é o “Manifesto do Partido Comunista”, também chamado “Manifesto Comunista” (ou, para os mais íntimos, o “Manifesto”), de 1848. Ou seja, décadas após a Revolução Francesa, em plena Revolução Industrial, época em que os trabalhadores (ou “proletariado”) começavam a conquistar suas primeiras vitórias contra as condições horríveis de trabalho que enfrentavam (como a redução da jornada diária para 10 horas).

Mas antes de prosseguir, farei um parêntese:

Comunismo e Socialismo

Dois termos que costumam aparecer associados, e muitas vezes como sinônimos, são “Socialismo” e “Comunismo”. Eu tenho para mim que o Comunismo é um movimento, uma ideologia e um sistema com características específicas — mesmo que com alguma flexibilidade — em torno das ideias de Marx, enquanto Socialismo compreende quaisquer movimentos, pensamentos, sistemas e orientações políticas que priorizam a melhora das condições sociais de vida da população. Logo, o Comunismo é um pensamento socialista, mas nem toda orientação socialista é também Comunista. Vejam este trecho do prefácio do Manifesto Comunista

Contudo, quando [o Manifesto] foi escrito não lhe podíamos ter chamado um Manifesto Socialista. Em 1847 entendia-se por socialistas, de um lado, os aderentes aos vários sistemas utópicos (…); do outro lado, os mais variados charlatães sociais,  (…) [ambos] homens que estavam fora do movimento da classe operária (…).

Todo e qualquer setor da classe operária (…) chamava-se a si próprio comunista. (…) Assim, em 1847, o socialismo era um movimento da classe média, e o comunismo um movimento da classe operária. O socialismo era, pelo menos no Continente, “respeitável”; o comunismo era precisamente o oposto. E como a ideia que tínhamos desde o princípio era de que “a emancipação da classe operária tem de ser obra da própria classe operária”, não podia haver dúvidas sobre qual dos dois nomes tínhamos de adoptar.

Na época em que o Manifesto foi lançado, era importante essa distinção por existirem correntes socialistas às quais o Comunismo se opunha. Hoje em dia, em um mundo onde o capitalismo é dominante não só como sistema implementado quanto como “ideologia”, qualquer iniciativa socialista é um passo na direção do Comunismo, e a distinção perde muito da razão de ser. Dessa forma, usarei o termo Comunismo para me referir especificamente a ideologia de Marx, e socialismo para uma ideia mais geral; mas isso não significa que esses conceitos sejam opostos ou consideravelmente divergentes entre si — pelo menos para o propósito deste artigo!

Entre outras coisas, o Manifesto Comunista enumera alguns pontos chave do pensamento comunista, por exemplo:

  1. “O objetivo imediato dos comunistas é o mesmo que o de todos os demais partidos proletários: constituição dos proletários em classe, derrubada da supremacia burguesa, conquista do poder político pelo proletariado.”
  2. “O que caracteriza o comunismo não é a abolição da propriedade geral, mas a abolição da propriedade burguesa.”

Sobre abolição da propriedade, é muito comum que as pessoas (incluindo líderes políticos que implementaram o comunismo em seus países) interpretarem mal essa ideia. Por isso, é importante destacar que, no Manifesto, Karl Marx diz:

Comunismo -- Marx sobre abolição da propriedade no Manifesto
Comunismo — Marx sobre abolição da propriedade no Manifesto

Ou seja, não necessariamente “quem possui dois carros ou duas casas terá que doar uma” no caso de uma “revolução comunista”. Ao menos não que eu saiba. Os meios de produção, como indústrias, bancos e terras, estes sim passariam para o controle do Estado, ou de cooperativas. Ou ainda qualquer outro meio que pudesse vir a ser criado: o importante é que os meios de produção não sirvam para que alguns poucos ganhem com o trabalho de muitos. Mas é ridículo pensar que todo mundo seria obrigado a compartilhar a mesma escova de dentes ou usar a mesma cor de calcinha em nome da “igualdade”.

União Soviética — a revolução traída

A história oficial tem na União das Repúblicas Socialistas Soviéticas a principal referência no que diz respeito a implementação de um sistema comunista. E, na verdade, acredito ter sido este o objetivo no início sim; mas, principalmente após a subida de Stálin ao poder, pouco restou de Comunismo na URSS.

Hoje é mais fácil falar que a União Soviética não era Comunista, mas, entre os anos 1920 e 1990, essa afirmação seria um absurdo. Vai ser difícil, para mim, descrever essa confusão por escrito. Acho melhor deixar alguém mais capacitado que eu fazer isso, e por vídeo. É curtinho, de Noam Chomsky — renomado pensador socialista da atualidade –, respondendo a uma pessoa da platéia sobre Lênin já ser responsável por alguns desvios do ideal original de Marx.

Vejam que Chomsky é bem rígido na sua crítica a concepção de que a União Soviética era Comunista (ou Socialista). Para ele, o fato dessa ideia ser tão difundida aconteceu pela coincidência de interesses entre a propaganda soviética e estadunidense: a soviética para enganar seu próprio povo, fazendo com que ele apoiasse um regime diferente daquele que desejava para si, e a estadunidense para associar o Comunismo com a tirania do falso socialismo soviético para melhor combatê-lo.

(reparem que uso Comunismo e Socialismo em letra maiúscula quando estou falando de uma concepção verdadeira de Comunismo / Socialismo, e minúscula para me referir a elas de forma geral, ou a uma forma deturpada da ideia original)

É mais comum entre os simpatizantes da esquerda associar a deformação do comunismo na URSS à Josef Stalin, que, após a morte de Lênin em 1924, exilou Trótsky e assumiu o poder, iniciando um tempo de terror que durou décadas. Da mesma forma, é comum entre os que odeiam o Comunismo não saberem separar a loucura de um homem que nasceu na hora certa (para ele) e lugar errado (para os Comunistas) do ideal em si. Tivesse Stálin tomado o poder em qualquer lugar, época e sistema, seria responsável por uma ditadura onde morreram milhões de pessoas: não foi “culpa do comunismo” aquilo!

Mas enfim, para o propósito desse artigo, basta saber que houve um grande desvio do ideal original já no início da União Soviética, independente se sob o comando de Lênin ou Stálin. Portanto, só usa a URSS como exemplo de que “o comunismo não funciona” quem quer, quem não se interessa em saber a respeito da história ou quem está mais interessado em sair vencedor de um bate-boca do que procurar uma solução para um mundo melhor.

Não foi por não avisar

Nas minhas pesquisas, achei interessante e até me surpreendi em ver quantos Socialistas / Comunistas criticavam as idéias e ações de Lênin antes e após a tomada do poder em 1917. E não só criticavam, como previram o que iria acontecer. Até mesmo entre os bolcheviques (partido de Lênin) havia quem discordasse de tudo, vejam:

Vocês transformam os membros do partido num obediente gramofone, com líderes que determinam tudo. [Para o Comitê Central do Partido Comunista] também poderá ser nomeado um único comandante, e aí a revolução toda terá perdido o seu sentido — Sapronov

O socialismo e a organização socialista devem ser construídos pelo próprio proletariado, caso contrário (…) será construída uma outra coisa: um capitalismo estatal — Ossinski

E a maior de todos os opositores, Rosa Luxemburgo:

Rosa Luxemburgo -- a proposta inicial do Comunismo
Rosa Luxemburgo — a proposta inicial do Comunismo não é autoritária

Através do sufucamento da vida política no país todo, a vida dos sovietes também irá paralizar-se cada vez mais. Sem eleições gerais, sem liberdade irrestrita de reunião e de imprensa, sem a luta livre de opiniões, desaparece a vida em qualquer instituição pública, torna-se uma vida aparente, na qual unicamente a burocracia continuará como elemento ativo. A vida pública adormece aos poucos; algumas dúzias de pessoas especiais e uma elite do operariado serão convocadas de tempos em tempos a participar de assembléias, para aplaudir os discursos dos oradores, para concordar unanimemente com as resoluções apresentadas. — Rosa Luxemburgo em “A Revolução Russa”, de 1918

Apesar de ter cometido muitos excessos, o pior não aconteceu sob o comando de Lênin. Este até mesmo quis amenizar um pouco as coisas, deixando por escrito seu desejo de aumentar o número de pessoas no Comitê Central e outras medidas no sentido de democratizar a União Soviética após a Guerra Civil. Porém, ficamos sem saber se essa democratização realmente ocorreria, pois Lênin morre logo depois, assumindo o poder o homem que tornaria realidade todos os pesadelos de Rosa, Ossinski, Sapronov e outros Comunistas de verdade.

Stálin: estelionato ideológico

Josef Stálin assume na metade da década de 20 após costurar uma imensa teia de intrigas e interesses que, após a morte de Lênin, usou para o seu objetivo. Stálin nunca foi Comunista. Nunca escreveu nada de relevante para a teoria Comunista, nunca fez nada que um assassino ou um burocrata não teria feito em favor de outro sistema, governo ou país. Ser Comunista implicaria colocar o Estado a serviço do bem-estar da população, e isso ele nunca fez e nunca faria. Sob seu comando, a União Soviética se tornou um inferno terrorista, ainda que tenha se transformado de um país pobre, atrasado e arrasado por guerras e conflitos internos em uma potência econômica que, mais tarde, rivalizaria com os Estados Unidos pela supremacia mundial.

Chamar a União Soviética de Comunista sob o comando de Stálin, e colocar nas costas da ideologia as mortes causadas por esse assassino é absurdo! Stálin fez com o Comunismo o mesmo que líderes “religiosos” fazem com as religiões que dizem representar: se aproveitam da complexidade da ideia e da ignorância da população para distorcer a ideologia em benefício próprio (político, financeiro ou ambos). As pessoas passam a seguir o enganador, achando que estão obedecendo e seguindo um ideal.

A propaganda stalinista associava Stalin a Lenin, Marx e Engels
A propaganda associava Stalin a Lenin, Marx e Engels, enquanto o stalinismo nada tinha em comum com os três pensadores.

Não é difícil imaginar o que levou Stálin a fazer isso. Ele queria tomar e permanecer no poder, porém, não implementaria um Estado Comunista pois, como dito anteriormente, isso implicaria em trabalho e dedicação à população, em responsabilidades e não em poder. Ele também não poderia chegar do nada dizendo que implementaria um capitalismo de Estado, pois a população, por mais inculta que fosse, não se submeteria a tal disparate sem reagir: o Comunismo, Lênin e a revolução ainda tinham prestígio, mesmo com os erros. Além do mais, ainda haviam líderes fiéis ao Comunismo verdadeiro, e seria preciso enganá-los ainda por um bom tempo.

Então, qual foi a solução senão “disfarçar” o seu projeto de poder de Socialismo? Foi isso que Stálin fez por décadas, fazendo citações, usando retórica, alterando a teoria aqui e ali e descartando aquilo que atrapalhasse. E quem ousasse discordar era preso, exilado ou assassinado.

Erich Fromm: o que Marx diria da URSS?

Depois da morte de Stálin, quem assumiu foi Nikita Khruschev, que denunciou o uso do terrorismo de Estado por Stálin e reduziu-o drasticamente — embora não o tenha eliminado por completo. Ainda assim, o regime político soviético continuou tendo muito pouco de Comunismo.

Segundo o filósofo humanista Erich Fromm, o grande problema dos soviéticos, e de todos os políticos que implementariam sistemas supostamente comunistas em seus países, é que se esqueceram que Marx concebeu o Comunismo não como um mero sistema econômico, mas como uma nova maneira de pensar o mundo, que tem sim consequências na estrutura da economia e da sociedade, mas que transcende, vai além da discussão econômica.

O Comunismo não se mede por conceitos capitalistas, pois é maior do que eles. Quando se pensa nas ideias de Marx focando apenas em questões econômicas, cai-se no erro grosseiro que o próprio Marx denunciou:

O pensamento de toda propriedade privada individual é, pelo menos, dirigido contra qualquer propriedade individual mais rica, na forma de inveja e desejo de reduzir tudo a um nível comum; de modo que essa inveja e esse nivelamento constituem de fato a essência da competição. [Esse tipo de] comunismo grosseiro é apenas a culminação dessa inveja e desse nivelamento por baixo, na base de um mínimo preconcebido. Essa abolição da propriedade privada não representa uma apropriação autêntica, o que se revela pela negação abstrata de todo o mundo da cultura e da civilização, e a regressão a uma simplicidade não natural do indivíduo pobre e sem desejos que não só superou a propriedade privada, mas também ainda não chegou mesmo a alcançá-la. A comunidade é apenas uma comunidade de trabalho e de igualdade de salários pagos pelo capital comum, pela comunidade como um capitalista universal. Os dois lados da relação são elevados a uma suposta universalidade; o trabalho, como condição a que todos estão sujeitos, e o capital, como a universalidade e o poder da comunidade devidamente aceitos. — Protestantische Vision, de Paul Tillich, citado por Erich Fromm em “A Sobrevivência da Humanidade”

E, para deixar mais claro que todo o pensamento econômico de Marx estava à serviço da parte humanista de seu pensamento, nas palavras de Fromm:

O homem produtivo, livre, independente, capaz de amor — essa a visão que Marx tinha do homem. Não se preocupava com a produção e o consumo máximos, embora desejasse possibilitar a todos a obtenção de um nível econômico que é a base de uma vida humanamente dignificada. Também não se preocupava fundamentalmente com a igualdade das rendas embora se opusesse à desigualdade que impede os homens de partilhar das mesmas experiências básicas da vida. A preocupação central de Marx era libertar o homem do tipo de trabalho que destrói sua individualidade, o transforma numa coisa, e o escraviza às coisas por ele mesmo criadas.

Para ver mais um pouco do pensamento de Erich Fromm sobre as diferenças entre Marx e o sistema soviético, recomendo a entrevista concedida a uma TV estadunidense, neste link.

O grande favor de Khruschev aos críticos do “comunismo”

Há ainda o grande problema da exportação da enganação. A União Soviética, com medo de que sua farsa fosse desmascarada por uma implementação decente das ideias de Marx, não só não auxiliou, como impediu e deturpou reformas e levantes verdadeiramente Comunistas em outros países.  Se um país quisesse se declarar comunista, deveria seguir as diretrizes soviéticas, ou seria invadido pelo seu poderoso exército. Como exemplos, posso citar a Primavera de Praga (antiga Tchecoslováquia), invasão da Hungria e a relação tumultuada entre URSS e Iugoslávia, de Josip Tito, que adotou o sistema de autogestão das fábricas (em vez do controle estatal como na URSS) e outras medidas e ações contrárias ao interesse soviético.

Com isso, todos os países “comunistas” (e bota aspas nisso) acabaram adotando o controle centralizado e ditatorial, a propriedade estatal, o sistema burocratizado, a deturpação ideológica e a falta de compromisso com o bem-estar (não só material, como espiritual) da população em sua política. Isso dá a errônea impressão de que o “comunismo” é assim, ou sempre levará a isso. Não, não é bem assim.

Com a sua falta de compromisso com o verdadeiro pensamento marxista, Nikita Khruschev prestou um grande desserviço a história do Comunismo e à Humanidade, e, por causa disso, pode levar muito tempo até que consigamos reunir coragem para uma nova tentativa de revolução.

Conclusão

Acredito que as três perguntas colocadas no início desse artigo tenham sido respondidas. Quanto a “o que é Comunismo?”, também foi razoavelmente respondida, embora não completamente. Mas muitos mal-entendidos foram, ao menos, colocados em discussão. Há muito, muito mesmo ainda a se falar sobre esse assunto, mas se eu colocasse tudo aqui, o artigo ficaria ainda mais extenso. Melhor dividir em partes, como já fiz com outros temas.

Espero causar algumas reflexões e debates por aí. Fiquem à vontade para comentar.

Abraços

um ser pensante