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Demi Moore e David Duchovny em "The Joneses"

Parecer, ter ou ser? — Adam Smith, Erich Fromm e Demi Moore

Ter ou Ser?

Erich Fromm: Ter ou Ser?
O tema do artigo é objeto de reflexão para muitos pensadores, inclusive dando título ao livro de Erich Fromm: “Ter ou Ser?”

Hoje, aparentar ser um profissional competente, uma pessoa sábia, um político honesto ou qualquer outra coisa, é quase, tão ou mais importante do que realmente ser — no mercado de trabalho, na formação de opinião, na política ou qualquer outra atividade, respectivamente.

Vivemos em uma sociedade onde as aparências, que poderiam até ter a utilidade de servir de “prévia” para uma visão definitiva, são mais valorizadas do que o próprio ser. É importante ter em mente que, em uma sociedade consumista como a nossa, essas aparências são sustentadas pelo “ter”. Quanto mais se possui, mais competente, mais inteligente, mais bem sucedido e mais feliz se parece ser.

Adam Smith – vaidades e falhas de identidade

A humanidade em geral sempre apresentou graves sintomas de vaidade, futilidade e apego à superficialidade. Não é à toa que, por exemplo, a Bíblia dedica o livro todo de Eclesiastes para o assunto (“Vaidade das vaidades, tudo é vaidade.”).

Embora vaidade e futilidade não sejam exclusividade de nossa época, é de certa forma surpreendente como tais fraquezas de caráter pessoal se transformaram em “forças”, até mesmo pilares da nossa sociedade, cuja “modernidade” é tão alardeada por alguns. Nos primórdios de nossa sociedade capitalista, o próprio pai da Economia moderna e ícone do capitalismo liberal Adam Smith já observava, com certo desdém, o uso das posses como símbolo de identidade:

Entre grande parte das pessoas de posses, o maior prazer dos ricos consiste na exibição de riqueza, que aos olhos deles não é completa a não ser quando demonstram possuir sinais decisivos de opulência que mais ninguém tem a não ser eles próprios. — Adam Smith

fonte: Robert Heilbroner – A História do Pensamento Econômico

Note o quanto é importante não apenas ter, mas ter o “que mais ninguém tem”, um claro sinal de falta de identidade (Ser) suprida neuroticamente com o “ter”.

E eu tenho que fazer uma observação: foi um tanto surpreendente ter encontrado tal crítica vinda de um pensador base para ideologias com as quais eu não me identifico — pelo menos até antes de conhecê-lo melhor. Espero poder escrever mais sobre isso em outro artigo em breve.

Erich Fromm: sobre os vendedores de fraudes

Quem me conhece a algum tempo sabe que meu pensador predileto é Erich Fromm. Aqui no blog tem uma entrevista rara com ele, de apenas 30 minutos (se não viu ainda, assista, é rapidinho e vale a pena), onde ele aborda rapidamente vários assuntos incluindo a ligação entre “ter”, “parecer” e Ser.

Um dos assuntos abordados é o que ele chama de “traficantes de símbolos”, pessoas que precisam “vender” a si mesmas, a sua imagem. Mas, como assim? Bem,… isso pode ser entendido melhor quando se pensa não só em um vendedor, mas, digamos, um âncora de telejornal. Não basta que ele seja um jornalista curioso, imparcial, criativo etc. Ele precisa passar ao telespectador uma imagem de credibilidade. Isso fazia com que, por exemplo, a Rede Globo raramente deixasse que suas apresentadoras usassem cabelos compridos, provavelmente porque uma aparência mais feminina (na opinião deles) deveria minar um pouco essa imagem. (Eis uma amostra do que quero dizer). É mais provável ainda que os apresentadores homens nunca possam usar cabelos compridos no telejornal… hehe! Exemplo bobo, mas é só pra passar a ideia.

(na verdade, imagino até que a pessoa que cuida do conteúdo do telejornal não seja a mesma que o apresenta — o que é só mais um sinal do quanto a imagem de credibilidade é quase, tão ou mais importante que o conteúdo em si: é necessário uma pessoa especialmente selecionada apenas para passar aquela “boa” imagem na telinha…)

Mais um exemplo: as empresas hoje utilizam-se de artistas, esportistas e pessoas famosas em geral para fazer propaganda de seus produtos. Imagino que a escolha deva ser bem criteriosa. Um escândalo, uma derrota, uma “bola fora” pode ser prejudicial às vendas, depois que o famoso tem a sua imagem associada ao produto em questão. E, por outro lado, quanto melhor esse famoso “se vender”, maior a probabilidade de sucesso da campanha publicitária — sem contar que ser um garoto-propaganda bem sucedido irá render mais contratos, e mais dinheiro! — Afinal, você deve conhecer pessoas que já compraram produtos por causa daquela atriz ou aquele cantor, não conhece?

Enfim, aí está o “tráfico de símbolos”, ou a venda da própria imagem, onde a personalidade (ou a imagem dela) da pessoa que exerce a atividade — de vendedor, âncora ou garoto-propaganda — deve ser colocada junto com o produto a ser vendido.

Demi Moore em “The Joneses”

Os conceitos de consumismo e venda da imagem se unem no filme muito interessante “The Joneses” (na versão nacional, “Amor por Contrato”), com Demi Moore e David Duchovny — onde a crítica da sociedade é embutida no enredo de comédia romântica, como um remédio escondido em um pedaço de bolo.

Demi Moore e David Duchovny em "The Joneses"
Demi Moore e David Duchovny em “The Joneses” — ter para parecer ser; tráfico de símbolos

No filme, os Jones são na verdade um grupo de vendedores disfarçados de família-modelo. Eles são confortavelmente instalados em uma rica vizinhança, cheia de consumidores em potencial, sendo que a empresa por trás disso está ciente que, eles causando uma boa impressão e sendo invejados por seu suposto status, despertará em todos ao redor o desejo de ser como eles, e — mais uma vez na linha “ter-parecer-ser” — ter o que eles têm. Os vendedores, por sua vez, são recompensados exatamente pelo seu talento no papel que representam, medido por meio das estatísticas de vendas nos setores dos quais cada um é responsável.

O interessante é observar o quanto a realidade está muito próxima desse quadro, é só prestar atenção e abstrair. Repare nos famosos sempre nos recomendando produtos na TV, nos anúncios de revista e na internet. O uso desse expediente é muito comum. Já existem “namoros por contrato” no mundo das celebridades, obviamente com motivação financeira. Para a instalação de famílias “pré-moldadas” com o intuito de nos influenciar, falta pouco — se é que já não existe.

Até hoje não encontrei visualização melhor do conceito de “traficante de símbolo” do que este filme. E, quanto maior a representação, quanto mais a imagem que nos é vendida se afasta da real personalidade do “traficante” (ou daquele que é usado pelo verdadeiro vendedor), maior é a fraude e mais evidente sua constatação.

Sim, são fraudes o que usam para nos manipular. E enquanto não soubermos colocar o Ser, o ter e a aparência em seus devidos lugares, não administrarmos (já que eliminar é virtualmente impossível) nossa vaidade e não fortalecermos a nossa identidade, continuaremos sendo manipulados — inclusive para manipular outros.

Deixo aqui o filme para download. Vale a pena, muitos outros detalhes interessantes sobre o assunto podem ser vistos no filme. E eu tenho também o livro “Ter ou Ser” de Erich Fromm, mas em inglês (“To Have or To Be”).

Ótima reflexão e diversão,

um ser pensante

“The Joneses” (“Amor por Contrato”)
dublado em português — formato MP4, 267 MB

Erich Fromm — “To Have or To Be” (“Ter ou Ser”)
em inglês — formato PDF, 7,09 MB

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