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Pink Floyd – da fase de harmonia para a fase Waters

Continuando a série sobre a minha banda predileta, vou falar um pouco sobre a transição entre a fase de harmonia entre os membros até a “fase Waters”

No artigo sobre Dark Side of the Moon, vimos que o Pink Floyd começou a definir uma nova personalidade em Meddle, após a “balançada” que a saída prematura de Barrett causou na banda. E foi em Dark Side que eles provaram, no mais alto estilo, que a perda fora superada.

Queria que Você Estivesse Aqui

Superada musicalmente falando, porque como pessoa e amigo, Syd Barrett faria falta ainda por muito, muito tempo. Diz-se que é sobre essa “falta” que trata o álbum Wish You Were Here (“Queria que Você Estivesse Aqui”), de 1975, que tem como destaques a conhecidíssima faixa-título — com uma sonoridade de balada romântica, ao violão — e a épica Shine On You Crazy Diamond, com seus mais de 20 minutos divididos em 9 partes (por sua vez, agrupados em dois blocos, abrindo e fechando o álbum). Shine On também é uma homenagem a Syd, o “Diamante Louco” por excelência.

Eu chamo de “fase de harmonia” essa fase que vai de Meddle até Wish You Were Here por causa do bom relacionamento entre os integrantes da banda. É óbvio que, em se tratando de David Gilmour e Roger Waters, não se deve confiar que não havia conflito. Mas enfim, o fato é que a inscrição “all lyrics by Roger Waters” nas capas não significava uma ditadura, numa época em que os trabalhos do Pink Floyd continham várias faixas instrumentais. Outro “sintoma” dessa harmonia é a participação de Richard Wright nas composições instrumentais e nos vocais, fazendo dele um membro tão participativo quanto os outros dois citados. Nick Mason, como todos sabemos, costuma ficar mais “na dele” :) Ainda assim, dava seus “pitacos” nos créditos também.

A participação de Richard Wright nas composições do Pink Floyd é sintoma da mudança de fase na banda.
A participação de Richard Wright nas composições do Pink Floyd é sintoma da mudança de fase na banda.

Completam este álbum de 1975 a tecnológica Welcome to the Machine e a agitadinha Have a Cigar. Mas são mesmo Wish You Were Here, clássico indiscutível, e Shine On You Crazy Diamond, cuja versão ao vivo de 87 em Delicate Sound of Thunder me fazia ficar olhando pra caixa de som com o queixo caído na adolescência, que o fazem imortal.

Bichos

Apesar da semelhança com o termo “animais” do Português, desconfio que “Bichos” seria uma tradução mais apurada para o título Animals, de 1977. Pelo menos o título do livro de George Orwell Animal Farm, inspiração para o álbum, também é traduzido por “A Revolução dos Bichos”.

"Animals" - A "fase Waters" do Pink Floyd
“Animals” – Inicia-se a “fase Waters” do Pink Floyd

Não é à toa que as principais músicas deste álbum se chamam Dogs (“Cães”), Pigs (“Porcos”) e Sheep (“Ovelhas”), pois em “A Revolução dos Bichos” essas são as três principais categorias de animais. Sendo uma sátira da Revolução Russa, no livro de Orwell os porcos representariam os políticos, os cães seriam o exército (mais especificamente, a parte da “força” mais fiel aos porcos, aquela responsável pela proteção suína e pela coerção aos outros animais) e as ovelhas, o povo.

Na versão floydiana, entretanto, Roger Waters adapta a visão do livro para criticar a sociedade ocidental. Confesso que a letra de Pigs me é muito misteriosa e não arrisco análise, mas para Sheep não foi necessária grande mudança: o povo alienado do lado de lá da cortina de ferro era o mesmo do lado de cá, “submissos e obedientes que seguem o líder até o vale de aço” (lembrando que “aço” — steel —, por seu aspecto frio e rígido, é usado por artistas britânicos e estadunidenses como metáfora para a frieza de sentimento, e para a morte). Volta e meia até se revoltam, “balindo e resmungando, voam no pescoço [dos cães] com um grito”, mas logo se refugiam em casa, com medo, a espera do próximo que lhes dirá o que fazer.

Pink Floyd - Dogs: você tem que passar confiança para ter a chance de enfiar a faca
Pink Floyd – Dogs: você tem que passar confiança para ter a chance de enfiar a faca

Mas é no conceito de “cães” que está a grande mudança. Interessante notar que o ano de lançamento de Animals, 1977, é um momento de transição na Europa ocidental e EUA: da cultura hippie dos anos 60 — contestadora, universalista e descompromissada — para o movimento yuppie — individualista, materialista e profissional — da década de 80. A letra de Dogs pinta claramente a imagem do capitalista selvagem:

  • o executivo com faro para os negócios e oportunidades
    (“capaz de escolher a carne fácil com os olhos fechados”)
  • que sabe se apresentar bem
    (“pode aprimorar detalhes para [desenvolver] estilo
    Como a gravata e um firme aperto de mão
    Um certo olhar nos olhos e um sorriso fácil”) — bem típico, não?
  • e ser um competidor feroz
    (“Você tem que passar confiança para as pessoas que você mente
    Para que quando elas virarem as costas
    Você tenha a chance de enfiar a faca”)

Bem, o restante da letra fala de como um indivíduo com esse perfil provavelmente continuará e terminará sua vida. Mesmo Roger Waters não tendo presenciado muitos exemplos, afinal a atmosfera yuppie ainda estava se formando, você poderá ver que o que ele diz em Dogs realmente aconteceu, e ainda acontece, com muitos “cães” a nossa volta.

Roger Waters spit fire

E é a partir de Animals que a inscrição “All lyrics by Roger Waters” adquire um aspecto sombrio — é o primeiro álbum sem nenhum crédito atribuído a Richard Wright. Isso porque, além de problemas pessoais do próprio tecladista, Waters passa a cortar ideias de outros membros e, enfim, instaura um tipo de ditadura na banda. A relação entre eles passa a ser fria e amarga.

A própria sonoridade é diferente. Apesar do estilo ainda estar bem reconhecível (solos e músicas longas, teclados, melodias bem construídas etc.), Dogs e Sheep, por exemplo, têm um ar carregado, revoltado, amargo… Pigs, um clima de sarcasmo… muito diferente do som límpido, cristalino, espacial de Echoes, Us and Them ou Shine On. Apesar do andamento das músicas continuar lento na maior parte do tempo (comparando-se, por exemplo, com bandas como Rush), há passagens bem mais hard, mais agressivas do que de costume.

Talvez tudo isso fosse reflexo da amargura dentro do próprio Waters. Depois do sucesso absoluto de Dark Side e Wish You Were Here, o Pink Floyd tornara-se algo gigantesco, quase incontrolável, e as consequências eu comentarei com mais detalhes nos próximos artigos. Mas já que está na moda falar do incidente envolvendo Justin Bieber, que cuspiu em fãs do alto de um hotel aqui no Brasil (acho), não posso deixar passar em branco o caso de um show da turnê Animals no Canadá, onde Roger Waters cuspiu em um fã (será que ele estava cantando a estrofe de Dogs “who was trained not to spit in the fan”?). Porém, ao contrário da criança mimada cuja fama é muito maior que seu talento ou relevância, no caso de Waters esse ato foi a gota d’água que levou a uma crise existencial. Que, por sua vez, foi um dos ingredientes que resultariam no conceito do próximo álbum: “The Wall”, de 1979.

Então, até lá!

Saudações floydianas

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