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Roger Waters e os muros da Palestina

Pink Floyd e a questão palestina

Brezhnev took Afghanistan
and Begin took Beirut…

Brezhnev invadiu o Afeganistão
e Begin invadiu Beirute…

Pink Floyd – The Fletcher Memorial Home

Introdução

A não ser que algum argumento muito surpreendente me faça mudar de idéia — no que peço a sua ajuda, caro internauta –, a questão palestina é um dos poucos assuntos considerados intrincados sobre o qual eu tenho um posicionamento consistente. E isso não foi nada fácil de conseguir. Desde as aulas de Geografia da 8ª série, meu primeiro contato, são quase 20 anos até que pude juntar todas as peças e tirar uma conclusão. Neste artigo, farei um resumo muito superficial sobre o que sei sobre o assunto, mas que será suficiente para que possamos trocar idéias.

“Questão palestina”, ou “conflito Israel-Palestina”, são nomes pelos quais é conhecida a disputa territorial pela região da Palestina, entre judeus que ali chegaram principalmente após a formação do Estado de Israel, e os palestinos árabes que viviam anteriormente na região.

Progressão da ocupação israelense (sionista) sobre a Palestina
Progressão da ocupação israelense (sionista) sobre a Palestina

Sionistas

Bem, até ano passado, a visão que eu tinha do conflito era muito ruim: só mesmo o que passava na televisão. Basicamente, ataques terroristas do Hamas usando homens-bomba atraídos pela promessa de mulheres virgens no paraíso. Então passei a pesquisar sobre o assunto, no que me ajudaram muito os documentários “Occupation 101” e “A História Sionista”/”The Zionist Story”.

Basicamente a história é a seguinte: na região da Palestina, as áreas em verde e branco nos mapas pouco acima, a não ser por algum precedente histórico muito antigo, a imensa maioria árabe e a minoria judia conviviam sem nenhum problema até o início do século XX. O fato que muda tudo é a intensificação das atividades dos sionistas, uma pequena facção da sociedade judia que, sabe-se lá porque cargas d’água, implicou que queria toda aquela porção de terra para um Estado exclusivamente judeu. Para isso, teria de expulsar os árabes de lá.

E aqui está uma observação importante: a questão palestina não se trata simplesmente de judeus contra palestinos, mas sim de judeus SIONISTAS contra palestinos árabes. Destaco isso pois tenho visto comentários do tipo “os judeus estão fazendo com os árabes o mesmo que os nazistas fizeram com eles”, “os judeus” isso, “os judeus” aquilo. Espera, não é assim. Não é como na Alemanha nazista onde, por conta de uma intensa propaganda, a imensa maioria dos alemães “converteu-se” ao nazismo. A grande maioria dos judeus, inclusive os que vivem em Israel, acho que nem sabem o que é sionismo, e se sabem, não participam.

Massacre

Conflito não: é um massacre de Israel sobre os palestinos
Conflito não: é um massacre de Israel sobre os palestinos”

Porém, o fato de o sionismo ser uma minoria entre os judeus não o impede de ter uma força militar esmagadora. Por quê? Porque contam com o apoio dos EUA. Nem sempre do governo, mas acho que aqui todo mundo já saiu daquela fase de achar que quem manda em um país é necessariamente o governo. Muitos judeus, incluindo dentro de si uma minoria sionista donos de grandes empresas, bancos, corporações…, vivem naquele país; e financiam o terror israelense contra os árabes palestinos. É por isso que existem homens-bomba. Sem justificar, mas para explicar, Israel não precisa de homens-bomba. Eles têm dinheiro, metralhadoras e helicópteros. Os palestinos mal têm a própria vida.

Em resumo: desde a fundação do Estado de Israel pela ONU, pressionada pelos judeus sionistas e pelo fantasma do holocausto — acontecido pouco antes –, não só existe um conflito entre Israel e os palestinos: existe um MASSACRE de Israel SOBRE os palestinos.

Como se fosse um sinal dizendo que eu estava entrando para o time certo, eis que começo a me deparar com ações de Roger Waters e David Gilmour, membros remanescentes do Pink Floyd — minha banda de rock preferida –, relacionadas à causa do povo palestino.

Mais muros

Roger Waters -- Horizontes murados
Roger Waters — Horizontes murados

Em agosto de 2009, é lançado o curta-metragem “Walled Horizons” (“Horizontes murados”, numa tradução livre), narrado por Waters, sobre as imensas dificuldades enfrentadas pelos palestinos, causadas pela “barreira de segurança” que Israel ergueu para evitar a entrada de supostos terroristas vindos da Cisjordânia.

O documentário, que tem 15 minutos de duração, foi feito em homenagem ao quinto aniversário da opinião emitida pelo Tribunal Internacional de Justiça, afirmando que o muro é ilegal.

“Walled Horizons” começa com uma imagem de Waters, andando perto de um trecho do muro de concreto, acompanhado pela sombra gigante que projeta na parede. Fazendo alusão à temática do álbum “The Wall” (“O Muro”), de 1979, o vocalista e compositor declara:

A razão para haver muros é sempre o medo, sejam os muros pessoais que construímos ao redor de nós mesmos, sejam muros como este, que governos amedrontados constróem ao redor deles mesmos. Eles são sempre a expressão de uma insegurança profundamente enraizada

Não é uma declaração explicitamente pró-Palestina, como o restante do curta-metragem, mas o melhor ainda estaria por vir.

Gilmour e Waters juntos

Gilmour e Waters juntos pela causa palestina
Gilmour e Waters juntos pela causa palestina

A causa palestina acabou servindo de pretexto para momentos históricos a serem presenciados pelos fãs do Pink Floyd logo a seguir. Poucos anos após a primeira apresentação dos 4 membros em mais de 20 anos, no evento live8, e do lançamento de “Walled Horizons”, eis que surge agora David Gilmour fazendo um show beneficente em favor da “The Hoping Foundation” (link), entidade de apoio a crianças palestinas refugiadas. Ele próprio, que havia declarado não ter vontade nenhuma de fazer nada semelhante de novo, faz um convite que surpreendeu Waters: este faria a apresentação junto com Gilmour, e Gilmour tocaria em um dos shows da turnê de Roger que estava em andamento. Roger achou a idéia simplesmente genial, e o show beneficente foi um sucesso. E, de quebra, os fãs do Pink Floyd ganharam, meses mais tarde, a oportunidade de ver Gilmour tocando “Comfortably Numb” no mesmo estilo da turnê original: no alto do muro que é construído ao longo dos shows do álbum “The Wall”.

Waters defende a Palestina em carta aberta

Roger Waters faria, em 2006, um show em Israel. Porém, ao presenciar o sofrimento da população palestina, altera o local do show poucos dias antes e declara seu apoio ao povo palestino, inclusive aderindo e divulgando o boicote cultural à Israel.

Bem, é mais fácil deixar o próprio cara explicar.

Carta aberta de Roger Waters
Em 1980, uma canção que escrevi, “Another Brick in the Wall Part 2”, foi proibida pelo governo da África do Sul porque era usada por crianças negras sul-africanas para reivindicar o seu direito a uma educação igual. Esse governo de apartheid impôs um bloqueio cultural, por assim dizer, sobre algumas canções, incluindo a minha.
Vinte e cinco anos mais tarde, em 2005, crianças palestinas que participavam num festival na Cisjordânia usaram a canção para protestar contra o muro do apartheid israelita. Elas cantavam: “Não precisamos da ocupação! Não precisamos do muro racista!” Nessa altura, eu não tinha ainda visto com os meus olhos aquilo sobre o que elas estavam a cantar.

Um ano mais tarde, em 2006, fui contratado para atuar em Tel-aviv.
Palestinos do movimento de boicote acadêmico e cultural a Israel exortaram-me a reconsiderar. Eu já tinha me manifestado contra o muro, mas não tinha a certeza de que um boicote cultural fosse a via certa. Os defensores palestinos de um boicote pediram-me que visitasse o território ocupado para ver o muro com os meus olhos, antes de tomar uma decisão. Eu concordei.

Sob a protecção das Nações Unidas, visitei Jerusalém e Belém. Nada podia ter-me preparado para aquilo que vi nesse dia. O muro é um edifício revoltante. Ele é policiado por jovens soldados israelitas que me trataram, observador casual de um outro mundo, com uma agressão cheia de desprezo. Se foi assim comigo, um estrangeiro, imaginem o que deve ser com os palestinos, com os subproletários, com os portadores de autorizações. Soube então que a minha consciência não me permitiria afastar-me desse muro, do destino dos palestinos que conheci, pessoas cujas vidas são esmagadas diariamente de mil e uma maneiras pela ocupação de Israel. Em solidariedade, e de alguma forma por impotência, escrevi no muro, naquele dia: “Não precisamos que controlem nossa mente” (“We don’t need none thought control”).

Tomando nesse momento consciência que a minha presença num palco de Tel-aviv iria legitimar involuntariamente a opressão que estava a testemunhar, cancelei o concerto no estádio de futebol de Tel-aviv e mudei-o para Neve Shalom, uma comunidade agrícola dedicada a criar pintainhos e também, admiravelmente, à cooperação entre pessoas de crenças diferentes, onde muçulmanos, cristãos e judeus vivem e trabalham lado a lado em harmonia.

Contra todas as expectativas, ele tornou-se no maior evento musical da curta história de Israel. 60.000 fãs lutaram contra engarrafamentos de trânsito para assistir. Foi extraordinariamente comovente
para mim e para a minha banda e, no fim do concerto, fui levado a exortar os jovens que ali estavam agrupados a exigirem ao seu governo que tentasse chegar à paz com os seus vizinhos e que respeitasse os direitos civis dos palestinos que vivem em Israel.

Infelizmente, nos anos que se seguiram, o governo israelita não fez nenhuma tentativa para implementar legislação que garanta aos árabes israelitas direitos civis iguais aos que têm os judeus israelitas, e o muro cresceu, inexoravelmente, anexando cada vez mais da faixa ocidental.

Aprendi nesse dia de 2006 em Belém alguma coisa do que significa viver sob ocupação, encarcerado por trás de um muro. Significa que um agricultor palestiniano tem de ver oliveiras centenárias ser arrancadas. Significa que um estudante palestiniano não pode ir para a escola porque o checkpoint está fechado. Significa que uma mulher pode dar à luz num carro, porque o soldado não a deixará passar até ao hospital que está a dez minutos de estrada. Significa que um artista palestino não pode viajar ao estrangeiro para exibir o seu trabalho ou para mostrar um filme num festival internacional.

Para a população de Gaza, fechada numa prisão virtual por trás do muro do bloqueio ilegal de Israel, significa outra série de injustiças. Significa que as crianças vão para a cama com fome, muitas delas malnutridas cronicamente. Significa que pais e mães, impedidos de trabalhar numa economia dizimada, não têm meios de sustentar as suas famílias. Significa que estudantes universitários com bolsas para estudar no estrangeiro têm de ver uma oportunidade escapar porque não são autorizados a viajar.

Na minha opinião, o controle repugnante e draconiano que Israel exerce sobre os palestinos
de Gaza cercados e os palestinianos da Cisjordânia ocupada (incluindo Jerusalém oriental), assim como a sua negação dos direitos dos refugiados de regressar às suas casas em Israel, exige que as pessoas com sentido de justiça em todo o mundo apoiem os palestinos na sua resistência civil, não violenta.

Onde os governos se recusam a atuar, as pessoas devem fazê-lo, com os meios pacíficos que tiverem à sua disposição. Para alguns, isto significou juntar-se à Marcha da Liberdade de Gaza; para outros, juntar-se à flotilha humanitária que tentou levar até Gaza a muito necessária ajuda humanitária.
Para mim, isso significa declarar a minha intenção de me manter solidário, não só com o povo da Palestina, mas também com os muitos milhares de israelitas que discordam das políticas racistas e coloniais dos seus governos, juntando-me à campanha de Boicote, Desinvestimento e Sanções (BDS) contra Israel, até que este satisfaça três direitos humanos básicos exigidos na lei internacional.
1. Pondo fim à ocupação e à colonização de todas as terras árabes [ocupadas desde 1967] e desmantelando o muro;
2. Reconhecendo os direitos fundamentais dos cidadãos árabes-palestinos de Israel em plena igualdade; e
3. Respeitando, protegendo e promovendo os direitos dos refugiados palestinos de regressar às suas casas e propriedades como estipulado na resolução 194 das NU.

A minha convicção nasceu da ideia de que todas as pessoas merecem direitos humanos básicos. A minha posição não é anti-semita. Isto não é um ataque ao povo de Israel. Isto é, no entanto, um apelo aos meus colegas da indústria da música e também a artistas de outras áreas para que se juntem ao boicote cultural.

Os artistas tiveram razão de recusar-se a atuar na estação de Sun City na África do Sul até que o apartheid caísse e que brancos e negros gozassem dos mesmos direitos. E nós temos razão de recusar atuar em Israel até que venha o dia – e esse dia virá seguramente – em que o muro da ocupação caia e os palestinos vivam ao lado dos israelitas em paz, liberdade, justiça e dignidade, que todos eles merecem.

 

Não preciso falar mais nada.

Abraços

Um ser pensante

8 comments
UmSerPensante
UmSerPensante moderator

Olá @claudio4421, tudo bem?

Rapaz, eu já dei uma "passada de olho" no seu link, me parece um texto ótimo, vou ver se sábado consigo um tempinho para ler de forma apropriada.

Obrigado por compartilhar conhecimento aqui com a gente, e pelo seu interesse pelo blog. Qualquer coisa, eu tenho este outro artigo aqui: http://umserpensante.eu.org/palestina-o-sofrimento-tem-que-acabar-parte-i/, não está tão completo quanto o seu mas acho que você iria ao menos gostar pelo fato de estar à favor da causa.

Abraços

um ser pensante

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Pedrocker
Pedrocker

Fala ser pensante, tudo bom? ta aí uma questão polêmica e complicada já que eu tive a sorte de ler duas opniões distintas do assunto que eu assim como você a um ano, não conheço nada além do que passa na tv. Confesso que li o artigo por ter envolvido o Gilmour e o Waters paralelamente que diferente dos israelitas e palestino já resolveram suas divergências o que me alegra muito. Agora estou curioso a pesquisar e conhecer o tema, vou comprar os documentários que voce citou e espero uma discussão ponderada entre você e o chará Pedro Castanheiras. E por falar nisso, vai em algum show do The Wall?

Um ser pensante
Um ser pensante

Ola sr Pedrocker! Quanto tempo hein.. rapaz ainda estou com seu texto aqui, prometo que irei publica-lo logo. Eu quero fazer um post com esses dois documentários e mais um que estou terminando de assistir, "Palestina, História de uma Terra", mais um que fala exatamente O CONTRARIO de tudo o que o nosso colega aí diz com tanta certeza e propriedade. Quanto ao show, o ingresso tá aqui do meu ladinho, to olhando pra ele hahahahaha! Cara, o Roger já veio aqui 2 vezes, sem contar a visita a Manaus para a execução do Ça Ira, essa eu não podia perder. Eu queria ir no show sentado em SP, mas os ingressos já estavam esgotados, aí acabei comprando para o RJ. Assim, se tiver Fla na Libertadores na mesma época, aproveito e vou também :-) E você, vai a algum show? Abraço

Pedro Castanheiras
Pedro Castanheiras

Bizarro. Esse território chamado de Palestina não era Palestina (que nunca existiu). Não houve ocupação alguma! A imigração começou com as perseguições antissemitas na Europa e em países árabes a judeus ainda muito antes do Holocausto. Esse território era Turco-Otomano. Judeus árabes viviam nessas terras, junto com árabes muçulmanos, há séculos. Ouso dizer até que há mais de dois milênios. Os palestinos tiveram a oportunidade de construir um Estado independente na região e não aproveitaram. Preferiram a intolerância e a guerra. Os judeus aproveitaram sua oportunidade e de forma legal (ONU) e justa fundaram seu Estado como determinou as Nações Unidas em 1947. A intolerância e o fundamentalismo islâmico de lideranças da região (chamados palestinos) e seus vizinhos estados árabes incentivadores é que conduziram a essa situação horrível. Esse artigo é absurdamente tendencioso, manipulador e não se aprofunda, nem superficialmente, nas verdades sobre a questão.

Um ser pensante
Um ser pensante

Ok, você tem opinião formada sobre o assunto ou aceita contra-argumentação? Aliás, como eu disse, não quis escrever um tratado sobre a questão palestina, muito menos definitivo. Apenas, por questões práticas, fiz um resumo superficial, COMO EU DISSE EXPLICITAMENTE NO TEXTO, caso tenha lido, para que pudesse ir direto ao assunto das ações dos membros do Pink Floyd. Então repito: quer debater o assunto ou sua opinião já é formada?