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Pink Floyd The Wall (1979) – uma obra contra a podridão da sociedade

O primeiro de uma série de artigos sobre este grito de revolta, esta obra crítica de denúncia da sociedade e auto-reflexão do indivíduo; e que nos mostra a importância de concebermos um mundo melhor, construindo pontes ao invés de muros.

Introdução – música além da música

No final de 1979, o Pink Floyd lança o álbum duplo “The Wall” (“O Muro”). Em pouco tempo, “Another Brick in the Wall, part II” (“Mais um Tijolo no Muro, parte II”) tornaria-se a música mais famosa do álbum, um hino do rock’n’roll e um símbolo de rebeldia – cantado, por exemplo, pelos negros da África do Sul contra o regime de Apartheid. Entre os fãs do rock como um todo, “Comfortably Numb” é a canção mais respeitada, com seu solo de guitarra final sendo considerado por muitos o melhor de David Gilmour – com destaque para as versões ao vivo.

Pink Floyd The Wall - show teatral com um muro no palco
Pink Floyd The Wall – show teatral com um muro no palco

Ao se ouvir “The Wall” pela primeira vez, é quase certo que mais algumas músicas se destacarão, como “Mother”, “Young Lust”, “Hey You”, “Run Like Hell”. Mas percebe-se também algumas faixas que, isoladas, causarão estranheza: “Goodbye Cruel World”, “Bring the Boys Back Home”, “Vera”, “Stop” e outras. São faixas extremamente curtas ou cuja letra e melodia nunca as fariam figurar nem mesmo em uma coletânea do Pink Floyd. Então… qual o sentido?

A verdade é que “The Wall”, mais que suas melhores canções, mais que uma obra temática como “Dark Side of the Moon” e “Animals”, é também uma estória. Dessa forma, as músicas se encaixam em uma sequência, um enredo que devemos conhecer e pelo qual devemos nos deixar envolver enquanto apreciamos as músicas (sem esquecer das letras). Só então podemos nos dar conta que mesmo essas pequenas faixas estranhas ganharão sentido. E aquelas que já eram boas isoladamente ficarão ainda melhores.

Tanto é verdade que “The Wall” possui um enredo (leia-se ópera-rock) que seus shows transformaram-se LITERALMENTE em uma peça de teatro; e três anos mais tarde foi possível a adaptação para o cinema, o filme “Pink Floyd The Wall”, bastando criar as cenas de acordo com esse mesmo roteiro.

A origem

A ideia do muro surgiu durante a turnê “Animals”. Na verdade, já havia algum tempo que Roger Waters estava incomodado com o que percebia durante os shows da banda. É compreensível. O Pink Floyd surgiu no underground, acostumado a shows em lugares pequenos, com um público cativo, próximo, atento e envolvido pela música e pelo “clima”. Com o sucesso estrondoso de “Dark Side” e “Wish You”, porém, os shows inevitavelmente cresceram. Este não era o problema em si, todo mundo já sabia que o Pink Floyd era destinado a grandiosidade, mas houveram consequências desagradáveis.

Agora com o Pink Floyd tocando para públicos bem maiores, geralmente em grandes estádios, Roger Waters percebeu que muitas pessoas não estavam interessadas na música, mas apenas no “espetáculo pelo espetáculo”. Íam aos shows porque era algum grande evento qualquer, alguma banda famosa qualquer que estava na moda. Para elas, não fazia diferença se era um show de rock, uma final de campeonato de futebol ou uma apresentação do circo de Soleil. Eu já vi relatos de pessoas jogando frescobol durante o show. Para Waters, isso não fazia sentido; era inconcebível que as pessoas gostassem de permanecer amontoadas, de pé, e, o que era pior para ele, sem condições de ver praticamente nada no meio da multidão. Sua reação não poderia ser mais sarcástica:

“um dia construirei um muro na frente do palco e eles saberão do que eu estou falando”

O tempo passava e tanto Roger quanto o público começaram a se comportar cada vez mais irracionalmente. Ficou marcado um caso de um porco inflável, parte do cenário da turnê “Animals”, que foi alcançado pela platéia e feito em pedaços. Em outra ocasião, um fã tentou escalar a grade de proteção que separava a banda do público, e levou uma cusparada do baixista.

Foi a gota d’água. Neste momento, Roger Waters conscientizou-se do absurdo da situação. Pode-se imaginar que ele tenha passado por uma intensa crise existencial, levando-o a uma profunda reflexão sobre si mesmo, as pessoas e a sociedade. E foi assim que o muro começou a ganhar o seu contexto.

The Wall: obra de um homem só
The Wall: obra de um homem só

Obra de um homem só

Tudo bem que, desde “Dark Side of the Moon”, todo álbum viria com a inscrição “All lyrics by Roger Waters”; mas boa parte das faixas eram instrumentais (ou quase totalmente, como “Echoes” e “Shine On”), e nas melodias a criação tinha participação de todos. “The Wall”, todavia, é um caso a parte. Das 26 faixas do álbum duplo, apenas 4 tem os créditos das melodias divididos com outros membros. “The Wall” foi, praticamente, obra de um homem só.

A banda estava longe de exibir o mesmo entrosamento pessoal de outros tempos. David Gilmour gravava e excursionava com seu primeiro projeto solo. Rick Wright enfrentava problemas pessoais e acabou caindo nas drogas. E Waters de repente chega para seus companheiros com os conceitos e as demos das músicas praticamente fechados.

O termômetro Wright: demitido
O termômetro Wright: demitido

Em documentários recentes pode-se ver que os integrantes ainda não se entendem a respeito do que acontecia naquela época. Gilmour e Wright reclamam que Waters não aceitava sugestões. Waters diz que não as cortava, e diz que até mesmo implorava por elas. Wright acabou demitido(?!) por Waters devido a sua improdutividade, mas foi-lhe permitido participar da turnê como músico convidado – digamos que Wright quis, por questão de honra, terminar o seu trabalho antes de partir.

Críticas à sociedade, isolamento e auto-reflexão

Se “The Wall” tem origem em uma crise existencial de Roger Waters, o início da estória tem base autobiográfica. O pai de Roger, sr. Eric Fletcher Waters, foi morto em combate na II Guerra Mundial, e este fato devidamente adaptado à vida do personagem principal. A perda do pai trará consequências na vida de Pink Floyd (o personagem) que servirão para denunciar o absurdo da guerra, e a dirigir pesadas críticas aos governos que as criam.

O personagem passa da infância para a adolescência, e conforme a estória avança, também são contestados o rigido sistema educacional inglês e a família, personificada na superproteção materna. Na idade adulta, a fragilidade e a hipocrisia das relações humanas também se tornam “mais um tijolo no muro”. Nas letras do álbum talvez nem tanto, mas no filme as críticas ao sistema capitalista também surgem aqui e ali. Com o amadurecimento da obra (na releitura para a turnê que passou pelo Brasil em 2012, por exemplo) elas se tornam bem mais explícitas e ácidas.

A verdade é que as bases da felicidade pregada pela sociedade – pátria, família, escola, consumismo, amor – é puro lixo, uma mistura de cegueira, hipocrisia, caos e morte, onde apenas os mais cegos, hipócritas e poderosos vivem as maravilhas do sistema. Para outros como Pink Floyd, resta a decepção, a vontade de isolar-se do mundo, a solidão e a revolta. As bases onde a sociedade moderna se firma, a cada decepção ao percebermos a enganação e sofrermos as consequências, se transformam em tijolos de um muro; que construímos, seja para esconder o que realmente sentimos e pensamos, para nos proteger do sistema da melhor forma que podemos, ou simplesmente porque nos revoltamos e preferimos o isolamento.

O primeiro disco do álbum duplo, como também a primeira parte dos shows e do filme, é sobre esse período onde o muro se ergue e se fecha. A segunda parte é sobre o isolamento de estar nele, a auto-reflexão, tudo isso em meio a muita revolta e depressão. O muro só irá cair com uma intensa auto-terapia, um julgamento muito duro de si mesmo, como li o próprio Waters dizer.

Tudo isso será detalhado nos próximos artigos. Música a música.

Filme e show histórico

“The Wall” é uma obra riquíssima que rendeu muitos frutos. O álbum duplo deu origem:

  • a uma turnê em 80-81 cujo formato teatral dos shows levou o próprio show de rock a um nível superior. A tecnologia necessária para levar a mensagem de Waters aos fãs, com máscaras, vestimentas, pequenos cenários, gigantes bonecos infláveis, um muro sendo construído no palco conforme as músicas são executadas etc. foi um sucesso completo; porém, de um custo tão alto que, financeiramente, deu prejuízo;
  • ao já citado filme “Pink Floyd The Wall”, dirigido por Alan Parker (“Evita”, “A Vida de David Gale”) com Bob Geldof no papel principal: o transtornado astro de rock chamado Pink Floyd. Os gráficos feitos para a capa do álbum ganham vida no cinema, em um tempo em que não existia computação gráfica. O filme tem altas doses de Psicanálise que merecem uma atenção especial na interpretação;
"The Wall", O Filme: Bob Geldof no papel de Pink Floyd
“The Wall”, O Filme: Bob Geldof no papel de Pink Floyd
  • um show histórico em 1990 (com Roger Waters já em carreira solo), na Alemanha, por ocasião da queda do muro de Berlim; reconhecidamente um dos maiores eventos da história da música;
  • o álbum duplo “Is There Anybody Out There?”, com performances ao vivo da turnê original;
  • e a recente (2011/12) turnê “Roger Waters The Wall”, com quatro shows no Brasil (eu fui!). Uma orgia de mensagens e críticas, devidamente atualizadas para o contexto político atual. Também merece interpretações a parte.

Cada uma dessas “versões” de “The Wall” tem suas curiosidades e particularidades. Nos próximos artigos irei dando mais detalhes :)

Abraços e até lá,
um ser pensante

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