Blog Um Ser Pensante

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Pobres, divididos, ignorantes — quando vamos aprender?

Quem não estuda História, está condenado a repeti-la.

Como também se repete a velha fórmula do “dividir para conquistar”.

Embora a reflexão de hoje tenha tudo a ver com o momento atual, a ideia para este artigo começou com meus estudos sobre a Revolução Russa, ou melhor, sobre as condições que culminaram naquele acontecimento. Antes da Revolução propriamente dita, uma grande revolta já havia acontecido, em 1905, que fora impiedosamente esmagada pelo czar Nicolau. Mesmo assim, isso foi um sinal claro de que o descontentamento da população russa já era forte a ponto de ameaçar o seu poder. O czar deu sinais de que tomaria medidas para mudanças autênticas, mas no final, acabou só enrolando e tudo permaneceu como estava… ao menos por um tempo.

Kulaks - dividir para conquistar
Kulaks – dividir para conquistar

Mas enfim, uma medida que me chamou a atenção: como, na época, a Rússia era um país essencialmente agrário e, portanto, era necessário minar o potencial revolucionário no campo, o czar favoreceu a consolidação de uma “classe média rural”, os kulaks. Essa camada seria um ponto de apoio para o sistema entre a população rural, posição que tomariam naturalmente por estarem sendo privilegiados naquele estado de coisas. Quer dizer: o czar fortaleceu a divisão dos camponeses entre ricos e pobres para manter o controle dos mesmos.

Polícia

Outra passagem da Revolução Russa me chamou a atenção, já na Revolução propriamente dita em 1917. Foi quando o movimento ganhou uma força tal entre a população que não havia mais Polícia, Guarda ou Exército que desse conta de “pacificar”. Alguns trechos:

“… Fechadas as portas do comércio com a passagem da passeata, os lojistas e indecisos dos bairros burgueses, ao invés de se fechar em suas casas como em 1905, passaram a organizar a sua própria manifestação de solidariedade. (…) A polícia permaneceu de lado, enquanto os cossacos ficaram em torno dos manifestantes (…). Corria pela cidade a notícia de que os cossacos não haviam usado seus chicotes.”

“No dia seguinte, (…) os manifestantes cantavam a Marselhesa. Os cossacos foram aclamados pela multidão e a polícia permaneceu à parte.”

Esse trecho aqui seja a ser engraçado:

“No terceiro dia, (…) as greves adquiriram um vigor excepcional. E desta vez a polícia voltou a ter seu comportamento tradicial, mas um cossaco desferiu um golpe de sabre em um agente que estava para atirar em um manifestante, e foi aclamado pela multidão: ‘os cossacos estão conosco!’

“No dia 26 (11) foi dada a ordem de fazer fogo e os soldados atiraram para o ar. Mas os oficiais (…) obrigaram a fazer mira no coração. Na noite do dia 26, (…) os soldados decidiram que não iriam atirar na população, se amotinaram e fuzilaram alguns oficiais. A 27 de fevereiro (12 de março, no calendário atual), (…) [se juntando aos operários, os soldados] já abandonavam os quartéis e saíam para as ruas.”

Pobre que rouba pobre tem 50 de QI

Falando em polícia… Um dos maiores problemas enfrentados pela sociedade moderna é a criminalidade. Diz-se muito que ela é resultado de desigualdades sociais, mas eu não sei até que ponto eu concordo com isso. Afinal, o que tem de empresário, político, latifundiário e outros tipos de gente rica que é safado, picareta, ladrão e corrupto não é brincadeira. Mas uma coisa é fato: criminoso pobre que rouba, trafica, assalta, mata, aplica golpes contra própria a população pobre, além de desonesto é burro! Muito burro! Claro, já não é sinal de inteligência, consciência e sabedoria partir para o crime, mas vamos focar no escopo deste artigo e vocês vão entender melhor mais uma razão para se pensar assim.

Ora, como está cada vez mais ridícula a criminalidade hoje em dia. Crimes bárbaros sendo cometidos por causa de 50 reais, um par de calçados, ou mesmo porque a vítima não tinha dinheiro! Eu não sei se bandido acessa blog, mas eu vou falar uma coisa: larga de ser estúpido! Se é pra arriscar a vida, pra trocar tiro com a polícia, pra arriscar ser preso e etc., porra, ao menos deixa de ser covarde com seus colegas de pobreza que preferem trabalhar e estudar e vai assaltar uma casa de rico, vai roubar um banco, vai sequestrar um político da alta! Meu, a gente se mata pra ganhar um dinheiro suado, outro pra montar um barzinho ou uma lojinha de roupas, e um retardado desse vem apontar uma arma na cara por causa de vinte reais e um celular? Tenha dó!

Além disso, os criminosos, ao menos no Brasil, formam um contingente digno de um verdadeiro exército nacional! Nesse número, com as armas e com a ousadia (covarde, mas uma ousadia) que esse pessoal tem, em vez de se matarem entre eles mesmos, a polícia e encher o saco da população pobre, faça uma revolução, montem o esquadrão de extermínio de político corrupto que eu sempre sonhei; se é pra fazer coisa errada, ao menos faça uma cagada útil!

Mas calma, não é o objetivo do artigo pregar qualquer espécie de crime. Estou só montando o raciocínio, parte por parte, pra chegar na ideia geral. Calma lá, não me denuncie!

Nós pobres nos odiamos entre nós mesmos

Deus do céu, como me dá raiva esse tipo de coisa! Se um rico chega a presidência e rouba, é só mais um político corrupto. Se um pobre chega a presidência, é odiado e perseguido desde que nasceu pelo simples fato de ser (ou ter sido) pobre. Incrível! É preconceito puro! Não que o Lula não mereça críticas ou que eu o ache um santo. Mas grande coisa, o acusam exatamente… de não ser santo?! E quem é?! Oras…

Olha, principalmente no eixinho do mal do Brasil, São Paulo – Paraná – Santa Catarina, o que tem de pobre fascista é uma beleza! Repare! Muitos ricos passaram pelas diferentes posições políticas na História do Brasil, mas o Lula (e qualquer um relacionado a ele) é o mais odiado e julgado. E tenho certeza que o motivo real dessa “marcação especial” é o fato dele ter origens humildes, consciente ou inconscientemente.

Por exemplo, quanto aos programas sociais do governo. Bem, até eu acho que os governos petistas estão exagerando já… mas isso não me deixa com as tripas saltando pra fora de raiva como se distribuir renda fosse o fim do mundo. Mas o que acontece é que, se uma medida política ou um golpe beneficia gente rica, ninguém liga: xingam um pouco, passa três dias e todo mundo esquece. Ah mas se é gente pobre que está sendo beneficiada, sai de baixo: fica todo mundo caçando videozinho no YouTube pra compartilhar no Facebook e descer a lenha! Se é algo que beneficia a população pobre, Bolsa Família, Minha Casa Minha Vida, Enem, seja o que for: qualquer falha, mesmo que seja um milésimo da grana que o FHC levou na venda da Vale, é motivo pra esses “pobres de direita” e a classe média virar do avesso.

Taxa de banco, evasão de divisas, mendigos queimados, sonegação de imposto de renda, o lixo que está a telefonia móvel, latifundiários sequestrando terras indígenas e acabando com o meio ambiente, plantação dessas porcarias de transgênico, formação de cartéis e monopólios, crimes de grandes empresas contra o consumidor, essas coisas não deixam ninguém indignado. Mas os impostos (e olha que hoje vi uma reclamação sobre as isenções — o que essa gente tem na cabeça, merda?), ou se uma família pobre com 5 filhos recebe meio salário mínimo do governo, NOSSA, é um ESCÂNDALO! Direitos para as empregadas domésticas entre essa gente vira assunto polêmico…

Maioridade penal: pobres x pobres mais uma vez

Essa mentalidade irresponsável é muito, mas muito perigosa. Crimes cometidos por políticos, a menos que seja uma denúncia da Veja contra o PT, em geral não geram lá muita indignação. Se é um rico que meteu a mão (mesmo que tenha ficado rico com o roubo), passa até despercebido. Ah mas se um menor bate uma carteira… EITA VAMO REDUZIR A MAIORIDADE PENAL! Ok, talvez eu até concorde com a redução da maioridade para 16 anos, mas eu não acredito que as pessoas a favor dessa medida tenham chegado a essa posição depois de pesquisa, troca de ideias e uma reflexão equilibrada. Pra mim, trata-se mais uma vez de uma reação instantânea motivada pelo instinto “pobre-com-raiva-de-pobre”.

E eu digo isso pelo seguinte: enfiar o cara numa cela e deixá-lo lá é a “solução” mais fácil, mais imediata e mais PORCA! Pouquíssima gente está realmente preocupada em resolver o problema, só querem se vingar e punir. Alguém ao menos pergunta como alguém “decide” entrar para a vida do crime tão cedo? O que torna um jovem violento? É possível “recuperar” um criminoso? Como? Por quê? Tem exemplos aqui mesmo ou lá fora? Não, ninguém faz perguntas! Apenas aceitam as respostas prontas que o Datena ou a Rachel Sheherazade vomitam na TV! Ou a Veja estampa nas suas capas de filme de terror! Ninguém quer pensar! Ninguém pergunta, ninguém pesquisa, ninguém vai conversar com as pessoas diretamente envolvidas! Se o faz, não o faz imparcialmente para uma reflexão honesta, mas só com o intuito de buscar argumento pra bater boca na rodinha do trabalho, no Facebook e nos artigos dos sites da grande mídia e defender “seu” “ponto de vista” fácil, cômodo e ignorante.

Polícia, mais uma vez

Agora retorno ao assunto polícia. Olha, como me chateia ver que, em praticamente toda manifestação popular, a polícia está lá, prontinha de cacetete na mão e todo o aparato a que tem direito. Eu fico pensando se os policiais não sabem que eles também fazem parte da população pobre, que também ganham um salário de m—-, e que volta e meia precisam do apoio popular para fazer suas reivindicações também. Será que eles não enxergam que são uma peça essencial da manobra de divisão e conquista, que coloca bandidos pobres, policiais pobres e o restante de nós, pobres, em três grupos se estapeando uns contra os outros?

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Simon Bolivar – Maldito seja o soldado que aponta a arma contra seu povo

 

Em vez de ficarem a favor da população, estão sempre apostos para defender exatamente aqueles que se beneficiam dessa cegueira. Quantas e quantas manifestações populares na história do Brasil e do mundo poderiam ter um desfecho muito mais frutífero, e quantas pernas, braços e vidas poderiam ter sido poupadas se os policiais e soldados tivessem se sensibilizado pela vontade do povo como nos trechos sobre a Revolução Russa que citei, e ficado do nosso lado…

Classe média, arrogante e manipulada

E pra fechar as argumentações, a analogia entre os “kulaks” russos e a classe média moderna. Esses que se orgulham tanto de ostentar uma condição financeira melhor do que nós pobres, “conquistada” com o “seu próprio” trabalho dos seus empregados e da mecânica do sistema, acabam fazendo um trabalho duplo em favor da manutenção do mesmo:

  1. Eles defenderão a atual situação e qualquer fator que contribua para que as coisas permaneçam do jeito que estão. Pode ser com armas, pode ser “terceirizando o serviço”, pode ser com argumentos, na rua, no trabalho, na mídia, no Facebook, onde quer que possam se expressar. Pode inclusive ser com manifestações de rua;
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    Mídia, pobres e classe média – um dia eu chego lá

    Eles servem como “modelo” e “prova” aos mais pobres de que estes poderão um dia alcançar uma vida melhor sem que nenhuma mudança estrutural no sistema seja necessária. Basta que você “trabalhe”, “não seja vagabundo”, “se esforce” e tenha “pensamento positivo”. Aquele queijinho na esteira que o rato nunca irá alcançar — claro que existem exceções, mas vocês já devem ter reparado que são raras e doces exceções…

Não é difícil para os interessados manipularem o sistema, para que exista essa classe intermediária que lhes sirva de “escudo”. O czar russo fez isso. Nossos czares de hoje também fazem isso. A quantidade certa de créditos, de investimentos, os acordos, leis, tratados, taxas de juros — aliás, não precisa nem ser a quantidade certa, basta que não sejam muito erradas…

O jogo de rato e rato

Pois é, no jogo entre gato e rato, os grandes gatunos apenas criaram um jogo somente para os ratos ficarem brincando. Os bandidos atacam a população e a polícia, além de se matarem entre eles mesmos. A polícia prende os bandidos e reprime as manifestações populares. A população pede redução de maioridade penal e pena de morte para os bandidos, sonham com uma vida de classe média e, ao mesmo tempo, ou repudiam qualquer medida de melhore sua própria vida, ou não aproveitam a oportunidade dada da forma correta (é, estou falando dos programas sociais). E a classe média distrai os mais pobres, fazendo-os sonhar com seus carros, suas casas, suas mulheres gostosas, suas vidas; além de influenciar com suas opiniões e, em casos mais raros, os seus protestos.

Os gatos, então, apenas instigam nossos medos, nossas implicâncias, nossos preconceitos. Principalmente, nossa BURRICE! Nos jogam uns contra os outros. Como? Pela mídia, por exemplo. Preste mais atenção nos comentaristas dos jornais e revistas a partir de hoje.

E nós continuamos aqui em baixo, nos matando, nos estapeando… divididos e ignorantes, afundados em nossos próprios preconceitos.

Será que um dia iremos aprender?

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