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Pra que tanta pressa?

Cinema - Charles Chaplin - Tempos Modernos 01
Em “Tempos Modernos”, Chaplin critica a desumanização causada pela rotina de trabalho.

Por que as pessoas estão sempre com tanta pressa e sem tempo pra nada ultimamente? E o mais estranho é que estão sempre com pressa para irem aos mesmos lugares e fazerem as mesmas coisas: o mesmo emprego, as mesmas baladas, as mesmas praias. Nos mesmos dias, no mesmo horário, da mesma maneira. Isso é “normal”? É saudável? É pelo menos vantajoso profissionalmente? Então a vida se resume a isso?

Em geral, depois dos 18 anos ninguém mais tem tempo pra nada, é sempre a mesma rotina – com poucas variações: de segunda à quinta trabalho, estudo, namorada, TV; sexta, trabalho, “happy hour“, TV, balada; sábado, pós-graduação e balada; domingo, ressaca. E isso não é de hoje, embora tenha-se iniciado com a Revolução Industrial — com as empresas tomando conta de toda a vida útil do ser humano comum — e acentuado-se com o capitalismo consumista — quando a poupança e a prudência foram substituídas pelo consumo como fonte de valor pessoal e felicidade, forçando as pessoas a literalmente “venderem suas almas” (em troca de um salário mensal — “alugar” seja um termo mais apropriado) para poderem adquirir os bens de consumo que lhe concedem status na sociedade.

Há décadas atrás, o filósofo e psicanalista Erich Fromm, em seu livro “A Arte de Amar”, já falava sobre…

…o papel do trabalho de rotina e do prazer de rotina. O homem torna-se “sujeito a ponto”, é parte da força de trabalho, ou da força burocrática de escreventes e gerentes. Tem pouca iniciativa, suas tarefas são prescritas pela organização do trabalho; existe mesmo pouca diferença entre os que estão no alto da escada e os que ficam em baixo. Todos realizam tarefas prescritas pela estrutura total da organização, a velocidade prescrita, da maneira prescrita.

Mesmo os sentimentos são prescritos: cordialidade, tolerância, lealdade, ambição e capacidade de conviver com todos sem atritos.

A diversão é rotinizada de maneiras semelhantes, embora não de todo tão drásticas. Os livros são escolhidos pelos clubes de livros — naquele tempo acho que ainda não havia “balada” e as pessoas liam um pouco mais –, os filmes pelos donos dos cinema e pelas sugestões de anúncios que eles pagam; o resto é também uniforme: o passeio dominical de automóvel, a sessão de televisão, o jogo de cartas, as festas sociais. Do nascimento à morte, de segunda a segunda-feira, de manhã à noite, todas as atividades são rotinizadas e pré-fabricadas.

Tanta pressa pra ir sempre aos mesmos lugares e fazer as mesmas coisas todos os dias! O mesmo emprego, a mesma igreja, a mesma boate / zona, a mesma praia nas férias. Não tem algo errado?

E o pior de tudo isso é que todo mundo acha isso normal! Tudo bem que existem pessoas que gostam, é o estilo delas, isso é uma coisa. Mas… TODO MUNDO? (ou 99,9% das pessoas, que seja). E não só acham isso normal, como taxam as pessoas que preferem não seguir a mesma correria de vagabundos, enquanto eles são as pessoas de sucesso, modelos a serem seguidos. Pois eu responderia que até mesmo profissionalmente essa entrega a rotina apressada é prejudicial. Afinal, crescimento profissional exige planejamento, planejamento implica pensar nos caminhos e nos passos, e:

Quem pensa, pensa melhor parado.
Raul Seixas

A parábola dos dois lenhadores
A parábola dos dois lenhadores

Eis uma parábola que ilustra bem o que quero dizer:

Certa vez, um velho lenhador, conhecido por sempre vencer os torneios que participava, foi desafiado por um outro lenhador jovem e forte para uma disputa. A competição chamou a atenção de todos os moradores da localidade. Muitos acreditavam que finalmente o velho perderia a condição de campeão dos lenhadores, em função da grande vantagem física do jovem desafiante.

No dia marcado, os dois competidores começaram a disputa, na qual o jovem se entregou com grande energia e convicto de que seria o novo campeão. De tempos em tempos olhava para o velho e, às vezes, percebia que ele estava sentado. Pensou que o adversário estava velho demais para a disputa, e continuou cortando lenha com todo vigor.

Ao final do prazo estipulado para a competição, foram medir a produtividade dos dois lenhadores e pasmem! O velho vencera novamente, por larga margem, aquele jovem e forte lenhador.

Intrigado, o moço questionou o velho:
– Não entendo, muitas das vezes quando eu olhei para o senhor, durante a competição, notei que estava sentando, descansando, e, no entanto, conseguiu cortar muito mais lenha do que eu, como pode!!

– Engano seu! Disse o velho. Quando você me via sentado, na verdade, eu estava amolando meu machado.

Amolar o machado, cuidar de nossas ferramentas, nossos dons, desenvolver nossas habilidades, observar o mundo ao nosso redor, estar atento à novas oportunidades. E, principalmente, lembrar que nossa principal fonte de energia é a nossa alma, que deve receber muito cuidado: lembrem-se de parar um pouco, desacelerar, descansar… ouvir a si mesmo, seus anseios, saber realmente se a sua vida está caminhando para algo melhor, ou se está apenas “andando em círculos” em volta dos mesmos lugares. Lembre-se das pessoas que te amam, que gostariam de passar 1 hora, 15 minutos, 1 minuto com você, mas não consegue te ver já há 1 ano,… 5, 10 anos.

Enfim, tenha sempre em mente que não é nenhuma empresa, nenhuma “noite da puta que pariu”, nenhuma bebida, nenhum produto de nenhum anúncio é o sentido da sua vida; e sim as pessoas que te amam, as coisas que REALMENTE te fazem bem — e é preciso separar tempo para refletir e descobri-las — e, principalmente, você mesmo.

Afinal, você deve estar entre as pessoas que te amam… e querem o melhor pra você.

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