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Roger Waters The Wall — Engenhão, Rio de Janeiro, 29 de março de 2012

Another Brick... 2
Another Brick… 2

Olá pensante amigo!

Mais um artigo sobre Pink Floyd, mas não dá pra evitar!! Cá estou eu no aeroporto Galeão, no Rio de Janeiro, voltando pra casa alguns dias depois de um dos dias mais felizes da minha vida: o dia em que Roger Waters apresentou seu show “The Wall” no estádio Engenhão, aqui no Rio.

É isso aí! Turnê Roger Waters The Wall 2011-2012 passando pelo Brasil. Depois de Porto Alegre no dia 25 de março, lá estava eu para o show do Rio de Janeiro no dia 29, uma quinta-feira meio nublada, com previsão de chuva que, pelo menos ali no estádio e na hora do show, acabou não se concretizando.

Roger Waters The Wall, RJ - 29/03/12
Roger Waters The Wall, RJ – 29/03/12

Só mesmo Roger Waters, ex-vocalista, baixista e principal mentor do Pink Floyd, para me tirar de casa, em uma cidade no mínimo 10 vezes menor, para percorrer bem uns 2 mil quilômetros e enfrentar um lugar desconhecido, metrô, trem, uma saída caótica de evento (normal, pois deveriam haver mais de 40 mil pessoas no estádio). Aliás, agradeço ao simpático casal de roqueiros mineiros Vítor e Ludmila (eu lembrei do ‘d’ mudo, mas esqueci se era um ‘l’ ou dois :-P) que me ajudaram na ida; e deixaram muito agradável a espera nas filas e o demorado trajeto com uma ótima conversa sobre Pink Floyd e o mundo do rock’n’roll :-) Com a sua companhia muito agradável, vocês transformaram o que seria um deslocamento penoso e demorado em um passeio! Obrigado!


Entrada por baixo do muro

Aliás, nunca na vida eu vi tanta camiseta do Pink Floyd num mesmo lugar! Desde a saída do hotel até a entrada do estádio! E por falar em entrada, qual foi a minha sensação ao perceber que, para chegar da bilheteria até a pista de onde eu assistiria o espetáculo, teria de passar por baixo daquele muro que eu só vira em vídeos de shows em cidades e/ou tempos distantes!!! Ah, eu tive de voltar e refazer aquele trajeto para gravar! Depois olhei pra cima e estranhei um pouco… o muro estava todo fechado e era pequeno? Não!!! O trouxa aqui demorou pra se tocar: o muro se estendia por metros e metros além à minha esquerda, e o que eu acreditei por poucos segundos ser o meio do palco, nada mais era que um cantinho do muro gigantesco!!! Tive de andar um bom bocado pra ficar mais perto do centro.

A espera dentro do estádio foi ao som dos Beatles. E então…

… os acordes de “Outside The Wall” com os quais o álbum começa e … O SHOW EXPLODE na nossa frente com “IN THE FLESH?” — a música já tem o seu peso, e ainda foi acompanhada por uma mostra do que seria o visual do show: uma verdadeira orgia de imagens, luzes, símbolos, cores, mensagens!!! O logo com os martelos cruzados, o visual nazista de Waters e seus comparsas, as bandeiras… e eu quase ía me esquecendo dos soldados carregando e atirando ao chão o boneco sem vida que representa o personagem principal da ópera em seus momentos de inércia. Os fogos de artifício explodindo por todos os lados, sei lá, deve ter acontecido tanta coisa ao mesmo tempo!!! Aliás, percebi que, ao contrário da grande maioria dos shows acessíveis a um mero mortal do interior do Brasil, ficar muito perto do palco não era uma vantagem total: as projeções no muro ocupavam um espaço maior que o campo de visão dos que estivessem mais a minha frente, e eu também me toquei de que precisaria dar uma olhadinha para os lados de vez em quando se não quisesse perder algum detalhe. E, claro, eu não queria! :-D

E nessa mesma música, ainda tinha o clássico aviãozinho que explode depois de sobrevoar a platéia e se chocar contra o muro!!!

Bom, eu não gostaria aqui de apenas ficar repetindo o que tem no show, isso pode ser encontrado em qualquer site de rock ou de entretenimento por aí. Mas eu não posso deixar de registrar as mil emoções e pensamentos que passaram na cabeça de um fã de carteirinha do Pink Floyd que tem The Wall como seu álbum preferido e, portanto, em Roger Waters um grande ídolo. A palavra que mais me vem à cabeça é “completo”! Um show completo! Mesmo para quem não tem Pink Floyd – Waters – The Wall como a Santíssima Trindade o show foi surpreendente! E pra mim que comprei o CD a 15 anos atrás, já assisti o filme dezenas de vezes e vídeos de shows de 80-81 e o especial de Berlim, não faltou NADA!

São muitas as referências ao filme, as animações projetadas no muro e no telão (incluindo, por exemplo, a cópula das flores malígnas em “Empty Spaces”) em sua forma original, e algumas com contexto atualizado. “Goodbye Blue Sky” é um ótimo exemplo: os bombardeiros derramam sobre o terreno uma chuva de símbolos religiosos, ideológicos e de grandes corporações, simbolizando os responsáveis pela morte de milhões tempos e mundo afora.

Jean Charles de Menezes
Jean Charles de Menezes

Waters deixa claro, tanto falando explicitamente quanto durante tudo o que rola no show, que expandira o conceito de The Wall: não se trata mais apenas de sua história pessoal, mas da história de muitas pessoas;incluindo o brasileiro Jean Charles de Menezes, assassinado na Inglaterra por ter sido confundido com um terrorista — e cujo nome ficará gravado para sempre na memória de muitos floydianos por ter se tornado um símbolo da luta de Waters contra o que ele chama de terrorismo de Estado: o sacrifício de vidas com propósitos políticos.

Eric Fletcher Waters Salvador Allende Mahatma Gandhi
No intervalo do show, o muro é preenchido com fotos de pessoas que morreram em guerras, por disputas políticas e/ou intolerância religiosa. Entre os homenageados, Salvador Allende, Mahatma Gandhi, e o próprio pai de Roger, Eric Fletcher Waters.

 

Goodbye Cruel World, o último tijolo

Algo que eu gostaria de acrescentar sobre esse show é a sequência “Vera” – “Bring the Boys Back Home” que, junto com “Nobody Home”, tida por muitos (incluindo Gilmour) como uma passagem musicalmente fraca do álbum — mas que no show foi a que me levou às lágrimas!!! Waters conseguiu, pelo menos pra mim, expressar o que ele queria com essas músicas… de uma forma que eu nunca tinha visto em nenhuma versão anterior de The Wall, incluindo o filme. É projetada no telão a cena do reencontro de uma menina com o seu pai voltando da guerra, e o foco fica na expressão da menina… uma expressão extremamente forte e comovente do que significava pra menina ver o pai, ali, naquele momento, naquelas circustâncias… eu não sei descrever com palavras o que Waters conseguiu expressar com aquela projeção! Eu não aguentei! Eu chorei! Eu chorei!!!… Confesso que nem Comfortably Numb conseguiu me fazer sentir daquele jeito, embora tenha me arrancado também mais algumas lágrimas inevitáveis. Acho que a emoção não foi maior por não ter havido o fator “surpresa”: eu já vira muitas vezes a cena de Waters batendo no muro e abrindo-o para uma paisagem colorida, por conta da aparição surpresa de David Gilmour ano passado.

In the Flesh
In the Flesh

Roger Waters em “The Wall” transcende um outro aspecto do Pink Floyd que fãs de outras bandas estranham: em geral, os músicos não interagem com o público diretamente, deixando essa tarefa para as luzes, imagens e a força da melodia. Mas não é o caso aqui: Roger conversa com o público, fala em português, comanda as palmas, solta rajadas de metralhadora (!), aponta para pessoas no público, interpreta todas as encenações que a ópera-rock pede!

Enfim, para um fã de The Wall, uma noite perfeita! Para quem gosta de rock ou de um bom show, foi um espetáculo que valeu cada centavo e cada segundo!

Este ser pensante aqui já pode descansar em paz! Obrigado Roger Waters!

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