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Suicídio – a Humanidade pede socorro a si mesma

O suicídio no mundo atual 

Fãs do goleiro alemão Enke, que cometeu suicídio em 2009.
Fãs do goleiro alemão Enke, que cometeu suicídio em 2009.

A primeira causa de morte por atos de violência no mundo não são os acidentes de trânsito, os homicídios nem os conflitos armados, mas o suicídio. Esse dado desconcertante foi revelado em outubro de 2002, em Bruxelas, numa reunião da Organização Mundial de Saúde (OMS) para divulgar as conclusões do Relatório Mundial sobre Violência e Saúde. Ao lê-las (aparentemente pela primeira vez) para os convidados da cerimônia, o então primeiro-ministro da Bélgica, Guy Verhofstadt, não conteve o susto e, quebrando o protocolo, indagou incrédulo: “É isso mesmo?”.(1)

Desde a publicação do livro “O Suicídio” de Èmile Durkheim, começou-se a considerar que este ato extremo não se deve apenas a fatores individuais, mas também aos fatores sociais que nos cercam. Ou seja:

a) apesar de não ser a única culpada por todos os problemas “pessoais do mundo”
b) apesar também do que pregam pastores, marketeiros, pseudo-psicólogos e escritores de livros de auto-ajuda,

… muitas vezes a sociedade tem SIM boa parcela de culpa pelos suicídios cometidos mundo e tempos à fora. Portanto, não se deveria usar a frase “a culpa é da sociedade” em tom de piada sarcástica tantas vezes o quanto é usada hoje. A Enciclopédia Britanica diz:

A permissividade e a alienação experimentadas na sociedade moderna pode ser, em parte, responsável por um aumento nos atos suicidas. Há hoje uma maior preocupação em se compreender o suicídio, ao invés de condená-lo (…).(2)

Achei engraçada a citação da permissividade como fator influente, pois esta é a primeira “solução” que as pessoas tentam e recomendam é recorrer à permissividade (alguém aqui já ouviu frases como “você tem que sair mais”, “nada que o álcool não resolva”, “pow, você precisa pegar umas gatas”). Mas isso fica só como observação.

Outra mudança que vem sendo observada é a faixa etária de quem comete suicídio. Historicamente mais comum entre os idosos, o ato vem crescendo entre pessoas de 15 a 44 anos. Um estudo de Bertolote e colaboradores, publicado em 2005 na Revista Brasileira de Psiquiatria, confirma essa tendência no Brasil: um aumento de dez vezes na mortalidade por suicídio em jovens de 15 a 24 anos entre 1980 e 2000. Entre os homens dessa faixa etária, esse índice aumentou 20 vezes.(2)

Ok, mas… como a sociedade influencia nesse quadro? O artigo no qual estou me baseando prossegue:

No Brasil, o único trabalho deste tipo foi feito pela psicóloga Blanca Guevara Werlang, da PUC do Rio Grande do Sul, durante seu doutorado defendido em 2001 na Unicamp. “O comportamento suicida é a manifestação de uma dor psicológica insuportável”, define. (…) “Hoje é preciso definir rapidamente a vida profissional e ser bem-sucedido. O imediatismo aumenta a frustração. Por outro lado, a família está mais pulverizada e os relacionamentos amorosos duram menos. Tudo isso abala a estabilidade emocional.”

Bem, acho que é o suficiente para entender o quadro. Todos nós temos as mesmas necessidades, mas o nosso modelo social permite que apenas uma pequena parte da população consiga suprir ao menos parte dessas mesmas necessidades (ou os substitutivos, cujo efeito tem tempo limitado). Quando nada dá certo, nos dividimos em quatro grupos distintos:

a) aqueles que se entregam a uma vida compulsiva e neurótica (drogas, álcool, promiscuidade, ganância e consumismo desenfreados, preocupação excessiva com a aparência, e até mesmo atividades saudáveis estão virando objeto de compulsão, como atividade física, comer e… ler!!); como eu disse, um ou outro consegue se contentar com isso (ou ao menos parece).

b) um grupo menor que não quer fazer parte do grupo a) e busca uma forma de resolver o problema, ao invés de aceitá-lo como “o jeito que a vida é” ou como “solução”. São os que recorrem a terapias, psicanálise, psiquiatria. Não são raras as vezes que dá certo, especialmente quando se trata de problema psicológico.

c) aqui são alguns sortudos que percebo serem felizes, simplesmente. É raro, mas tem. Pessoas que conseguem viver à margem dessa sociedade maluca, ou ao menos não são afetadas por ela. Aqui também entram as pessoas que obtêm sucesso no caso b).

d) aqueles que não fazem parte do grupo a), por recusa ou por desistência, não conseguem entrar no grupo c) e, também por recusa, desistência ou impossibilidade (o tratamento e os remédios são caros… só pra citar uma coisa) não fazem parte do grupo b). Aí eu pergunto: o que resta?

Eu tenho mais coisas a dizer sobre o assunto, mas o artigo já está grande demais. Levei um puxão de orelha da Atena esses dias sobre escrever textos muito longos :-P. Vou dividir em partes então.

Até a próxima,

Um ser pensante.

Referências:

(1) Revista Unesp Ciência, Outubro/2010 – Ano 2 – nº13
(2) “suicide.” Encyclopædia Britannica. Encyclopaedia Britannica Ultimate Reference Suite.  Chicago: Encyclopædia Britannica, 2010.


1 comments
Claudia Cirne
Claudia Cirne

suicídio é um dos índices / percentuais que se mede o grau de satisfação social (FIB: felicidade interna bruta). Muito óbvio não? Parece que o Japão érecordista. Na china subversivos são presos e tem seus órgãos extraídos após a sentença de morte (então fica difícil saber sobre os níveis de felicidade). No Brasil tem a cracolândia, muito desapego e subversão a este sistema "doentio" (arrastões, rolezinhos, pixações, vandalismo, etc.). Um "termômetro" social. Muita infelicidade, sem dúvida.