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Visão de Mundo parte IV – Capitalismo sinônimo de avanço tecnológico – será?

Uma noção que eu sempre achei equivocada, mas que faz parte da visão de mundo de muitas pessoas – especialmente aquelas que defendem veementemente o capitalismo – é a de que avanço tecnológico e capitalismo estão ligados intimamente. De que tudo o que existe de tecnologia, existe por causa do capitalismo, e se não fosse por esse sistema, estaríamos vivendo em um mundo medieval. Levando a conclusões “geradoras de memes” como “você está criticando o capitalismo usando esse computador e esse iPhone que só existe por causa do capitalismo”.

Necessidade

Pra início de conversa, se a Humanidade dependesse de capitalismo para criar coisas e desenvolver-se tecnologicamente, ainda estaríamos escondidos no fundo de cavernas, tremendo de frio, dependendo de caça e coleta de frutos. Porque, muito antes do tal incentivo do lucro, a primeiríssima motivação para a criação, a pesquisa e a descoberta é a NECESSIDADE.

A necessidade de comida nos fez desenvolver as primeiras ferramentas de caça. Ninguém pensava ainda em agronegócio quando a agricultura e a pecuária foram criadas. A necessidade de se aquecer nos levou a descobrir o fogo e usar as primeiras peles de animal como vestimenta; obviamente, a necessidade de mais conforto nos levou a desenvolver os mais variados tecidos, muito antes de alguém sequer pensar em ficar rico e famoso no mundo da moda.

A necessidade de transportar mais rapidamente nos fez criar a roda. Precisávamos organizar nosso conhecimento acumulado e controlar nossos rebanhos, por isso criamos a escrita e os números. E, se o capitalismo começou a tomar o lugar do feudalismo na Europa do século XV, o dinheiro surgiu na Grécia do século VII a.C. para facilitar o comércio (que também já existia antes do capitalismo) e o recolhimento de impostos; muito, mas muito antes de alguém desejar nadar em uma piscina de moedas.

E conforme o tempo avançava, mesmo antes do capitalismo, o homem ia inventando mais e mais coisas. Entre o ano 1000 e 1500, foi a vez da imprensa, do óculos, da bússola, do relógio.

O avanço tecnológico de qualquer área pode ser rastreado muito antes do surgimento do capitalismo. Vamos pegar como exemplo a agricultura:

  • Entre 4 000 – 3 500 a.C. desenvolveram-se o arado e a charrua;
  • O Antigo Egito já se beneficiava de técnicas de irrigação;
  • Pouco depois de 2000 a.C., grãos e óleo começaram a ser armazenados em silos, cisternas e frascos;
  • Os moinhos de água e de vento foram inventados no século X d.C.;

Ou seja, enquanto a necessidade de se produzir alimento suficiente com o menor esforço não foi satisfeita, as tecnologias iam sendo criadas e desenvolvidas. Mesmo no feudalismo. Mesmo sem nenhuma preocupação em “vencer o concorrente”. Então por que diabos eu teria que agradecer o capitalismo pelo progresso tecnológico?

Criatividade. Genialidade.

Cai Lun - o inventor chinês do papel
Cai Lun, o inventor chinês do papel: movido “pela sua própria curiosidade e por necessidade”

Outro fator ao qual eu atribuo as invenções humanas, antes do tal incentivo do lucro, é a própria CRIATIVIDADE do ser humano, a GENIALIDADE, a inteligência fora do comum de algumas pessoas extraordinárias que surgem de tempos em tempos. Vamos começar por Arquimedes, que viveu no século III a.C. é inventou a alavanca e arquitetou alguns mecanismos de defesa para a cidade onde vivia, Siracusa. Gutemberg criou o processo de imprensa usado na Europa do século XV.

O chinês Cai Lun inventou o papel (e seu processo de fabricação, claro) por volta do ano 100 d.C. Olha só que interessante o que é dito a respeito, no livro “Inventors and Inventions”: “seus experimentos com a fabricação de papel parecem ter sido induzidos ao mesmo tempo pela sua própria curiosidade e por necessidade”.

Leonardo da Vinci: micro-empresário ambicioso? Ou "apenas" um gênio?
Leonardo da Vinci: micro-empresário ambicioso? Ou “apenas” um gênio?

No mesmo livro consta Galileu como inventor do microscópio, além de ter melhorado o telescópio, mas se quiserem atribuir as invenções dele ao capitalismo – que estava começando a surgir no século XVI -, então pode deixar, eu dou essa colher de chá a quem fizer questão dela. Mas eu duvido muito que Galileu tenha sido levado a criar um telescópio melhor para vencer a concorrência e ficar rico.

Por falar em genialidade, não posso deixar de citar Leonardo da Vinci, cuja genialidade era tamanha que muitos de seus inventos (máquinas voadoras, barcos, armas…) não puderam ser fabricados durante sua vida por não haver tecnologia suficiente para implementá-los, mas que têm maravilhado a nós, aqui e agora, ainda hoje. Quem quiser pesquisar sobre a viola organista… Bem, será que Leonardo da Vinci, nos séculos XV-XVI, seria um homem ambicioso, micro-empresário de sucesso, movido pela busca de lucro e riqueza? Ou simplesmente um gênio, naturalmente criativo e curioso?

 

E onde entra o capitalismo?

Eu já sei o que deve estar passando na cabeça de algum defensor do capitalismo (leia com a voz de quem imita um imbecil falando): “ah mas por que você não fala que na Alemanha Ocidental haviam carros BMW enquanto na Alemanha Oriental só tinha aquelas carroças Trabant? O capitalismo gera muito mais desenvolvimento tecnológico do que o comunismo.”

Bem querido capitalista fundamentalista, se o que eu falei até agora não te convenceu de que o ser humano desenvolve a tecnologia porque tem criatividade para suprir suas necessidades de alimentação, transporte, conforto, saúde, informação, lazer etc., e porque entre nós existem pessoas grandiosas que são capazes de pesquisar, imaginar e criar tecnologia simplesmente pelo prazer do crescimento, de exercitar a sua inteligência, de ver um projeto seu concluído e funcionando, de contribuir com a Humanidade, isso é problema seu. Se você só consegue fazer algo útil na vida se estiver ameaçado de morrer de fome e acha que todo mundo é preguiçoso e incompetente igual a você, isso é problema seu.

Mas enfim… o acúmulo de capital roubado das Américas permitiu à Europa desenvolver sua tecnologia, que permitiu o surgimento do capitalismo, que, por sua vez, permitiu que a tecnologia continuasse se desenvolvendo. Eu sinceramente tenho dificuldade em atribuir exclusivamente ao capitalismo qualquer fruto da engenhosidade e da curiosidade humanas, além da busca pela satisfação de suas necessidades. Eu não vejo também nenhum mérito que se possa atribuir ao capitalismo quanto a aceleração do progresso tecnológico. Ora, no século XVII, tem-se todo o conhecimento científico acumulado até o século XVI; para o século XVIII, está disponível todo o conhecimento científico acumulado até o século XVII para novos progressos e assim por diante! Portanto, é totalmente natural que, conforme o tempo passe, a tecnologia avance mais e mais rápido!

Aos capitalistas mais entusiasmados: não ajoelhe aos pés de uma imagem de Adam Smith por causa do seu iPhone e sua nova placa de vídeo. Tudo o que existe de eletrônico se deve simplesmente à Eletrônica e aos cientistas da área, não ao capitalismo.

Que bom que o capitalismo não impediu que este processo continuasse, e até premie um ou outro inventor ou empresa pelo seu talento. Nem por isso eu vou agradecer ao capitalismo por tudo o que tenho. Pelo contrário, quero que TODO ser humano que chegue a esse mundo tenha, pelo menos, a possibilidade de ter tudo o que eu tenho e muito mais – algo que acredito ser impossível nesse sistema. Isto porque problemas surgem por duas características do sistema capitalista: a necessidade do lucro e a lei da oferta e da procura.

A busca pelo lucro faz com que o progresso tecnológico perca a sua orientação de satisfazer as necessidades básicas da Humanidade, como um todo, e siga em direção da maximização do lucro. Os donos do poder econômico utilizarão a tecnologia para aumentar ainda mais o seu poder, e o progresso da Humanidade fica a segundo plano. Inclusive, se uma tecnologia que beneficia os mais pobres colocar em risco a concentração de poder nas mãos de poucos, esses poucos farão de tudo para “matar” o processo.

Exemplos?

Quem Matou o Carro Elétrico (“Who Killed the Electric Car?”)

Quem matou o carro elétrico -- modelo EV1
Quem matou o carro elétrico? — modelo EV1

We’ve got Mercedes
We’ve got Porsche
Ferrari and Rolls Royce
Yes, we’ve got choice

Roger Waters – It’s a Miracle

Este tópico pode parecer sem sentido hoje, com tantos automóveis híbridos “modernos” por aí. Mas deixe me expôr o meu ponto antes de você tirar as suas conclusões.

Era uma vez, em meados do ano 2000, na Califórnia, o projeto de um automóvel elétrico que contribuiria para reduzir a enorme poluição do ar daquela região estadunidense. Era o EV1, da GM, o primeiro veículo elétrico comercialmente viável da industria automobilística moderna.

Eu espero conseguir deixar bem claro o quão revolucionário é um automóvel movido a eletricidade ao invés de gasolina, álcool ou qualquer outro derivado de petróleo ou combustível fóssil. Imagine você dirigindo o único carro ao seu redor que não emite fumaça pelo escapamento… pelo simples fato de que um carro elétrico não precisa de escapamento. As perspectivas eram tão animadoras que o estado da Califórnia aprovou uma lei que obrigaria as montadoras a colocarem nas ruas um certo percentual de veículos “emissão zero” (de poluição), pequeno no início e que aumentaria a cada ano.

Inicialmente, a General Motors deu todo o apoio ao projeto e à equipe responsável por ele. E o EV1, ao ser colocado nas ruas, mostrou-se não só ecologicamente correto. Ele era rápido, silencioso, eficiente e, segundo alguns, sexy :) Em resumo: revolucionário.

Porém, estranhamente, a GM começou a “estrangular” o projeto. Primeiro, demonstrando um flagrante desinteresse na divulgação e marketing, fazendo seus criadores apelarem para celebridades como Tom Hanks e Mel Gibson (que aparecem no documentário). Depois, no processo de vendas e na melhoria tecnológica. Passou a utilizar qualquer tipo de argumento para desestimular a equipe responsável pelo EV1, até que encerrou de vez as atividades relacionadas.

O estranho é que a coisa não parou por aí. A GM teve toda a preocupação de recuperar cada um dos EV1 que estavam nas ruas, chegando a ameaçar os proprietários. Como se quisessem escondê-los, não deixar mais ninguém saber da existência deles. Não bastava matar o projeto: era preciso matar a ideia de que um carro elétrico pudesse ser comercialmente viável. Então, aquela pergunta que todo ser pensante costuma fazer: “por quê?”

O documentário “Quem Matou o Carro Elétrico” mostra como e porque o EV1 é um ótimo exemplo de como o capitalismo é, na verdade, um empecilho para o desenvolvimento tecnológico. Grandes empresas do ramo de petróleo e derivados, o governo dos Estados Unidos e a própria GM (!!!) fizeram de tudo para que o EV1 fosse eliminado da face da Terra. Não é à toa que o documentário começa com um estranho velório, cujas motivações vão sendo desvendadas pouco a pouco. Vale a pena assistir e refletir sobre o assunto. Só a parte sobre as peças que exigem trocas e reposições em um automóvel a combustível que representam gastos para o usuário – e lucro para as empresas -, dá uma boa reflexão sobre a relação entre capitalismo e progresso tecnológico.

Documentário “Quem Matou o Carro Elétrico?”:
(se necessário, selecione a opção de legendas em Português na barra inferior do vídeo)

Se preferir, faça o download pelos links a seguir:

Documentário “Quem Matou o Carro Elétrico?” (“Who Killed the Electric Car?”)
legendas em português do Brasil (aqui) — formato MP4 — 297 MB

Nossa, esse artigo já está longo… vou deixar o restante para a próxima parte.

Boa reflexão,

“um ser pensante”

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